8 de junho de 2026

França se encanta com a diversidade cultural brasileira

“O propósito deste livro é trazer para o público francês uma produção historiográfica do Brasil que rompe com os clichês. Não é um livro para quem quer ler sobre carnaval, samba e futebol."

Da RFI

Livro sobre a história cultural do Brasil publicado na França tenta romper com os clichês

 

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“Uma pessoa não pode dar conta da diversidade cultural do Brasil, mas um trabalho coletivo, polifônico pode”, diz Juliette Dumont, historiadora do Instituto de Altos Estudos da América Latina na Universidade Sorbonne III e presidente da ARBRE – Association pour la Recherche sur le Brésil en Europe (Associação para a pesquisa sobre o Brasil na Europa).

“O propósito deste livro é trazer para o público francês uma produção historiográfica do Brasil que rompe com os clichês. Não é um livro para quem quer ler sobre carnaval, samba e futebol. A ideia é justamente mostrar que o Brasil é um continente cultural em si e que tem uma diversidade muito grande, que passa pelo cinema, literatura, artes plásticas e diplomacia cultural”, explica a historiadora.

Do exótico à fonte de cultura

Na introdução da obra, lemos que as belezas das praias tropicais, a vasta floresta amazônica, a abundância da flora e da fauna dominavam as descrições de uma América distante, a partir do século XVI. Essa visão, segundo os autores, ajudou a forjar a ideia de um mundo exótico, muitas vezes desprovido da presença humana.

“O objetivo é romper com esses estereótipos e essa visão que remonta à descoberta da América como o continente da natureza. O que se vê neste livro, em particular na parte historiográfica, e com o aporte das contribuições de Gilberto Freyre, é que o Brasil também ensina a nós europeus em termos de cultura e pesquisa”, afirma Dumont.

Foi só no fim da Segunda Guerra mundial que o Brasil passou a gerar uma nova imagem, da diversidade cultural nascida da mistura entre indígenas, africanos e europeus. Ou seja, depois de ser julgado culturalmente pobre, o país tornou-se rico e até intimidador demais para historiadores estrangeiros.

“Depois da Segunda Guerra Mundial, o Brasil vai assumir, no exterior, a imagem da democracia racial. Isso é uma resposta a uma demanda, sobretudo na Europa, que teve essa tragédia da Segunda Guerra Mundial, o Holocausto, e que procura utopias. Utopias de uma mistura de raças feliz. E o Brasil vai propor isso através da sua cultura e da música, em particular. O Brasil aparece, a partir desse momento, como um continente cultural e como um país difícil para os pesquisadores estrangeiros analisarem por seu tamanho e diversidade impressionantes”, explica.

Brasil influencia a pesquisa na França

Os textos reunidos no livro permitem elaborar uma avaliação do passado para apontar as tendências atuais da pesquisa sobre o Brasil. Juliette Dumont destaca o legado do sociólogo Gilberto Freyre, que analisou o país sob os ângulos da sociologia, antropologia e história.

“O Gilberto Freyre trabalha com a sexualidade, a vida íntima, aspectos que serão trabalhados pelos pesquisadores franceses da “nouvelle histoire”. Mas jamais se fala disso, da influência de pessoas como Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda sobre os pesquisadores franceses. Isso a gente queria mostrar”, diz.

No século XX, o modernismo abre um segundo tempo para a reflexão, enquanto a ligação entre cultura e política constituem o terceiro eixo temático do livro, com uma série de contribuições dedicadas ao período da ditadura militar (1964-1985).

“A parte sobre a ditadura militar tem um artigo do Diogo Cunha sobre a Academia Brasileira de Letras, de Mariana Vilaça e Rosângela Patriota sobre o cinema de Glauber Rocha. É particularmente interessante ver que num momento de censura, de regime autoritário, as expressões culturais continuam vivas e mostrar que no Brasil, como diz a historiadora Laura de Mello e Souza, a ligação entre cultura e política está presente em todos os ensaios.  É muito interessante observar isso num país onde o Estado é historicamente fraco”, conclui.

Além de organizar a obra, Juliette Dumont também assina um ensaio sobre o nascimento da diplomacia cultural no período entre guerras.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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2 Comentários
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  1. Schell

    2 de março de 2020 1:14 pm

    Para quem nem conhece o meu trabalho literário até que ficou de bom tamanho. Pena.

  2. Pedro Mundim

    2 de março de 2020 5:23 pm

    Vem em boa hora. A visão do europeu sobre o Brasil sempre foi, desde a descoberta, centrada no fascínio pela natureza e no desprezo pelo povo, visto como indigno de habitar aquele paraíso natural. Heranças desta visão estão presentes nas abordagens atuais, como a que reduz o Brasil a uma selva habitada por índios nus.

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