3 de novembro de 2026

Governo quer aprovar PEC da Segurança sem redução da maioridade penal

Apesar de não rechaçar discussão de redução de maioridade, governo quer garantir o Ministério da Segurança Pública
Presidente do Senado Davi Alcolumbre e o presidente Lula - Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado

Governo Lula quer aprovar PEC da Segurança Pública sem redução da maioridade penal, para criar Ministério da Segurança.
Ministro José Guimarães afirma que discussão sobre maioridade penal será proposta separada para não atrasar PEC.
PEC visa constitucionalizar o Susp, ampliar atuação federal e criar regras contra facções e proteção a denunciantes.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

O governo Lula quer aprovar a PEC (Proposta de Emenda à Constituição) da Segurança Pública sem incluir, por enquanto, a redução da maioridade penal. O objetivo é garantir com o Congresso atual a criação do Ministério da Segurança Pública, uma bandeira da campanha do presidente, que permitirá ao governo federal, entre outras coisas, a responsabilidade de combater o crime organizado e descentralizar esse poder dos governos estaduais.

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A orientação é aprovar o texto exatamente como saiu da Câmara dos Deputados, sem acolher as emendas apresentadas no Senado que pretendem reduzir a idade de responsabilização criminal de 18 para 16 anos. A posição foi anunciada nesta terça-feira (3) pelo ministro da Secretaria de Relações Institucionais, José Guimarães, após reunião com lideranças governistas da Câmara e do Senado.

Segundo Guimarães, a discussão sobre a maioridade penal poderá ocorrer em uma proposta separada, sem contaminar a tramitação da PEC. “Não significa que os temas das emendas não sejam tratados. Está posta essa discussão para o governo e para todos nós, mas não dá para misturar”, afirmou o ministro.

A preocupação do governo é preservar o objetivo central da proposta: constitucionalizar o Sistema Único de Segurança Pública (Susp) e criar as condições institucionais para a implantação de um Ministério da Segurança Pública, compromisso assumido por Lula durante a campanha eleitoral.

Maioridade penal ameaça atrasar votação

A tentativa de incluir a redução da maioridade penal na PEC provocou um impasse que já havia levado ao adiamento da votação em 15 de outubro. A oposição, liderada pelo senador Rogério Marinho (PL-RN), apresentou uma emenda para reduzir de 18 para 16 anos a maioridade penal como regra geral e permitir a responsabilização a partir dos 14 anos em casos de crimes hediondos, tortura, tráfico de drogas e terrorismo.

A iniciativa encontrou resistência do governo, mas também provocou divergências dentro do próprio PT. O líder do partido no Senado, Camilo Santana (PT-CE), apresentou uma emenda alternativa, propondo reduzir a maioridade penal de 18 para 16 anos exclusivamente nos casos de crimes hediondos.

O debate foi usado durante a campanha política do atual presidente e também da oposição, de Flávio Bolsonaro (PL). Apesar de tradicionalmente ser uma pauta política da direita e extrema-direita, acenando ao eleitorado conservador, Lula disse que não se opunha à discussão da redução da maioridade. Em entrevista à TV Globo, no dia 15 de outubro, por exemplo, Lula disse ser favorável à redução da maioridade para adolescentes envolvidos em crimes hediondos, mas defendeu que o assunto deveria ser amplamente discutido.

Agora, o governo trabalha para retirar a emenda de Camilo Santana e colocar o assunto em outra PEC no Congresso. O líder do governo no Congresso, Randolfe Rodrigues (PT-AP), afirmou que a discussão poderá ser encaminhada para uma proposta autônoma que já tramita na Câmara dos Deputados.

O que prevê a PEC da Segurança

Apresentada pelo governo federal e aprovada pela Câmara dos Deputados em março de 2026, a PEC 18/2025 busca reorganizar o sistema nacional de segurança pública e ampliar a participação da União no enfrentamento ao crime organizado.

O texto constitucionaliza o Sistema Único de Segurança Pública (Susp), estabelecendo mecanismos de cooperação entre União, estados, Distrito Federal e municípios, além de prever compartilhamento de informações, integração de operações e atuação conjunta das forças policiais.

Entre as medidas previstas estão:

  • Ampliação das atribuições da Polícia Rodoviária Federal (PRF), incluindo o policiamento de ferrovias e hidrovias federais;
  • Possibilidade de criação de polícias municipais para patrulhamento ostensivo e comunitário;
  • Regras mais rigorosas para integrantes de facções criminosas, organizações paramilitares e milícias;
  • Restrições à progressão de regime e a benefícios processuais para integrantes de organizações criminosas;
  • Possibilidade de confisco de bens relacionados a atividades criminosas;
  • Mecanismos de proteção a denunciantes e seus familiares.

A proposta também prevê mecanismos de financiamento para a segurança pública, incluindo a destinação de recursos do Fundo Soberano do Pré-Sal ao setor. Para o governo, a constitucionalização do Susp é uma etapa necessária para reorganizar a política nacional de segurança e permitir a criação de um Ministério da Segurança Pública, separado do atual Ministério da Justiça.

Antes da renovação do Congresso

A votação da PEC representa também o primeiro grande teste de articulação do governo Lula no Congresso após a vitória presidencial de 25 de outubro.

O Planalto tenta aproveitar os últimos meses da atual legislatura para aprovar propostas prioritárias antes da posse dos novos parlamentares, em fevereiro de 2027. A avaliação entre os articuladores políticos é que a próxima composição do Legislativo deverá contar com bancadas bolsonaristas mais numerosas, tornando mais difícil a negociação de pautas do Executivo.

Além da PEC da Segurança, o governo pretende avançar com outras iniciativas, como a proposta de tarifa zero no transporte público aos fins de semana, a regulamentação das redes sociais e da inteligência artificial e a votação do Orçamento de 2027.

O crescimento da oposição também aumenta a pressão sobre os presidentes da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), que negociam com o Planalto a agenda legislativa antes da renovação do Congresso.

No caso da segurança pública, a dificuldade é particularmente significativa porque a proposta envolve uma das principais bandeiras políticas da oposição bolsonarista. A tentativa de associar a PEC à redução da maioridade penal coloca o governo diante de uma disputa que ultrapassa o conteúdo original do projeto e alcança um tema de forte apelo eleitoral.

Para ser aprovada, uma PEC precisa receber pelo menos 49 votos favoráveis no Senado, o equivalente a três quintos dos 81 integrantes da Casa, em dois turnos de votação. Caso os senadores aprovem alterações no texto, a proposta precisaria retornar à Câmara dos Deputados. A estratégia do governo é evitar uma nova rodada de tramitação e garantir a aprovação do texto sem modificações, ainda nesta terça (03).

Patricia Faermann

Jornalista, pós-graduada em Estudos Internacionais pela Universidade do Chile. Coordenadora de Projetos. Repórter e documentarista de Política, Justiça e América Latina do GGN desde 2013.

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