13 de junho de 2026

“Índios e camponeses ficaram em segundo plano da CNV”, diz Marcelo Zelic

“Os índios, os camponeses, a questão da perseguição à gênero, os religiosos, todos esses recortes de um estudo com relação à violência contra segmentos da sociedade ficaram relevados a um segundo tomo”, lamentou
 
 
Jornal GGN – O relatório da Comissão Nacional da Verdade (CNV) é o reflexo da falta de aprofundamento e valorização da pesquisa sobre indígenas, camponeses e outros segmentos da sociedade vítimas da ditadura brasileira, defendeu Marcelo Zelic, vice-presidente do Grupo Tortura Nunca Mais-SP e membro da Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo. Zelic foi um dos colaboradores da Comissão para as pesquisas sobre os crimes contra índios brasileiros no período do regime militar.
 
As declarações foram fornecidas ao Correio da Cidadania, que conversou com Zelic, construindo um balanço do que significa o relatório final para esses segmentos afastados.
 
“Você tem dentro do relatório todo um processo de não compreensão da própria Comissão Nacional de temas que não fossem só mortes dos desaparecidos, (…) um relatório que também reflete esse monofoco, como se toda a violência do Estado tivesse como consequência somente os mortos e desaparecidos. Não é isso”, disse o vice-presidente do Grupo Tortura Nunca Mais.
 
“Quando se começa a estudar na Comissão Nacional da Verdade, tem uma ampliação de foco. Então os índios, os camponeses, a questão da perseguição à gênero, os religiosos, todos esses recortes de um estudo com relação à violência contra segmentos da sociedade ficaram relevados a um segundo tomo [segundo livro do relatório], como se fossem textos de autoria de cada um dos comissionados responsáveis. É muito ruim esse entendimento”, explicou.
 
Zelic apurou junto com a CNV cerca de 8 mil assassinatos, número muito superior ao historicamente reconhecido pelo Estado brasileiro. Por isso, para ele, é lamentável a separação do tema em um livro a parte do que seria considerado o principal. “Para nós, existia um único relatório da Comissão Nacional com o mesmo peso, porque a violência contra os indígenas, por exemplo, aponta um número de vítimas, em somente 10 povos de 305 estudados, vinte vezes superior ao volume de pessoas que a Comissão listou, como mortas em tortura e enfrentamento com o Estado”.
 
Assista à entrevista completa, enviada por Marcelo Zelic ao GGN, a seguir:
 
https://www.youtube.com/watch?v=jhZCtesb_io&sns=fb width:700 height:394
 
 

Patricia Faermann

Jornalista, pós-graduada em Estudos Internacionais pela Universidade do Chile. Coordenadora de Projetos. Repórter e documentarista de Política, Justiça e América Latina do GGN desde 2013.

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3 Comentários
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  1. Jair Fonseca

    13 de maio de 2015 2:41 pm

    Pois é, há outros vieses

    Pois é, há outros vieses nessa questão, que são escamoteados, como esses relativos a etnia, a gênero e às classes pobres. Se a Comissão da Verdade adiantou muito pouco em termos dos membros da esquerda, desaparecidos e torturados, quase todos das classes médias ou até ricas, tenha-se uma ideia em termos desses outros setores desprezados. No Brasil, a gente não pode desanimar mesmo, porque se não… desanima mesmo. 

  2. jc.pompeu

    13 de maio de 2015 3:34 pm

    “Índios e camponeses ficaram

    “Índios e camponeses ficaram em segundo plano da CNV“… e gays e prostitutas e ciganos.

  3. Maria Luisa

    13 de maio de 2015 7:43 pm

    Parabés, Marcelo.

    Da pra sentir a seriedade e preocupação de Marcelo Zelic. Mas sinceramente, nesse Brasil atual, cheio de odios contra minorias, reacionario, agressivo (no trânsito agora a moda é o VTNC, ou se for mulher, chamar de puta. Isso por qualquer coisa banal, como demorar três segundos para sair quando o sinal passa para o verde), que pouco chama atençao da sociedade essas denuncias. Muitos se interessam, mas ainda não é a maioria. A maioria esta preocupada em ganhar dinheiro e soh! Jamais, pelo menos pelos proximos vinte anos, teremos nenhum processo em cima dos torturadores do Estado Brasileiro.

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