Javier Milei promove onda de ódio às vésperas do 2º turno na Argentina

Renato Santana
Renato Santana é jornalista e escreve para o Jornal GGN desde maio de 2023. Tem passagem pelos portais Infoamazônia, Observatório da Mineração, Le Monde Diplomatique, Brasil de Fato, A Tribuna, além do jornal Porantim, sobre a questão indígena, entre outros. Em 2010, ganhou prêmio Vladimir Herzog por série de reportagens que investigou a atuação de grupos de extermínio em 2006, após ataques do PCC a postos policiais em São Paulo.
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No domingo (19) acontece o segundo turno no país e o candidato da extrema direita incita militância a ataques generalizados contra opositores

Milei tem aplicado a mesma estratégia de Donald Trump, Jair Bolsonaro e demais líderes da extrema direita no mundo. Foto: Esteban Osorio/Shutterstock

Ataques a jornalistas. Ameaças aos políticos. Denúncias iniciais de fraude que as autoridades eleitorais já descartaram. Alertas de que as Forças Armadas devem sair para reprimir. Personalidades que têm que limitar as suas contas nas redes sociais devido à avalanche de ataques que recebem.

Tal como nas eleições brasileiras de 2022, a Argentina, às vésperas do segundo turno, que acontecerá no próximo domingo (19), vivencia a disputa entre o peronista Sergio Massa, da coligação União pela Pátria, e o ultradireitista Javier Milei, da A Liberdade Avança, como um teste entre a democracia e a barbárie.  

Basta alguém dizer que vai votar em Massa para receber uma avalanche de ameaças. Foi o caso, por exemplo, da atriz Dolores Fonzi, avisada de que seria estuprada e os seus filhos seriam agredidos. Outra vítima de intimidação foi Paulina Cocina, uma influenciadora popular que tem milhões de seguidores.

Milei, junto a sua candidata a vice-presidente, Victoria Villaruel, lidera a promoção de discursos violentos. A militância que acompanha ambos de maneira fanática, seja nas ruas ou nas redes sociais, cuida para que a rede de ameaças, insultos, notícias falsas e agressões se mantenha ativa.  

Nesta semana, por exemplo, Milei pressionou um jornalista que tentava obter um depoimento enquanto realizava um de seus últimos eventos de campanha na cidade de Rosário.

“Isto é para o povo, não para vocês”, disse com desprezo o candidato, que já é conhecido por insultar os trabalhadores da imprensa que não concordam com as suas ideias ou que não o apoiam.

Em outra ocasião, acompanhando Milei em Buenos Aires, a parlamentar eleita pelo A Liberdade Avança, Lilia Lemoine, intimidou um repórter do canal estatal. “Vamos fechar a TV Pública, vamos privatizar a TV Pública, os meios de comunicação públicos vão ser privatizados, então tente ser um bom trabalhador”, disse-lhe enquanto o jornalista tentava entrevistá-la.

Antecipação de fraude eleitoral 

Os seguidores de Milei escalaram a tensão nestes dias que antecedem a votação do segundo turno ao intensificar informações de fraude eleitoral. Na verdade, utilizam estratégia semelhante à utilizada pelos ex-presidentes dos Estados Unidos, Donald Trump, e do Brasil, Jair Bolsonaro, quando foram derrotados nas urnas e se negaram a aceitar.

As autoridades eleitorais, que incluem o Poder Judiciário, que não tem qualquer relação com o Poder Executivo, recordam que desde que a Argentina recuperou a democracia, em 1983, todas as eleições têm sido transparentes, sem problemas envolvendo fraudes ou manipulações.

Isto foi até reconhecido pela ex-candidata presidencial de direita, Patricia Bullrich, que neste segundo turno apoia Milei, embora horas depois se tenha contradito e se juntado ao coro de vozes que denunciavam o “medo da fraude”, se alinhando ao candidato que decidiu apoiar. 

Jornalistas limitam acessos 

A jornalista Mariana Romero, por sua vez, teve que limitar o acesso à sua conta na rede social X (antigo twitter) após revelar que, pela primeira vez na vida, votaria no peronismo.

“Queridos amigos, tive que tornar esta conta privada devido às ameaças que recebi apenas por dizer em quem iria votar. É muito triste que, numa democracia, quem pensa diferente seja insultado e degradado desta forma. Lamento muito esta violência coletiva” disse ela.

Um dos casos mais graves foi o de Agustín Robolá, presidente do setor juvenil do Partido Radical na Cidade de Buenos Aires, que recebeu mensagens como: “você precisa de uma bala” e “com um ferro (arma de fogo) na sua cabeça eu vou pegar você”. Também lhe enviaram fotos e vídeos dele entrando em sua casa, o que mostra que está sendo vigiado.

“Fique calmo (sic), o falcão começa em Almagro (bairro) na próxima semana”, avisaram-no num texto em que se referiam ao mecanismo utilizado pela Ditadura Militar (1976-1983) para sequestrar as suas vítimas.

A presidente da Câmara dos Deputados, Cecilia Moreau, apresentou queixa judicial após receber ameaças de morte de seguidores de Milei.

“Com o presidente Milei, vamos matar vocês (sic) para fazer a limpeza que a nossa nação precisa (…) o povo vai se vingar do que fez conosco”, dizem as mensagens cheias de insultos.

Ameaças não são apenas anônimas

O discurso de ódio não é apenas anônimo. Ricardo Bussi, deputado eleito pelo A Liberdade Avança e filho do repressor Antonio Bussi, condenado por crimes contra a humanidade cometidos durante a ditadura, anunciou que se Milei vencer no domingo, haverá repressões.

“O Estado tem o monopólio da força e tem que agir em benefício da comunidade, claro que tem que haver repressão, o Estado tem a Polícia, é quem gere as Forças de Segurança. As Forças Armadas vão ter que usar essas ferramentas para a ordem porque precisamos exatamente disso, ordem”, disse ele.

No mesmo sentido, a candidata de Milei à vice-presidência antecipou que para resolver os problemas que o país enfrenta é necessária “uma tirania”. Poucas horas antes, Villaruel havia desencadeado um escândalo ao propor mudanças no Museu da Memória, que antes era a Escola de Mecânica da Marinha (ESMA), um dos maiores centros clandestinos de repressão da América Latina.

“São 17 hectares que poderiam ser aproveitados por toda a cidade”, disse, o que gerou repúdio generalizado por propor que pudessem “aproveitar” um local onde cerca de 5 mil vítimas foram sequestradas, torturadas, assassinadas e desapareceram.

Com informações do Clarín, Pagina 12 e agência RT

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Renato Santana

Renato Santana é jornalista e escreve para o Jornal GGN desde maio de 2023. Tem passagem pelos portais Infoamazônia, Observatório da Mineração, Le Monde Diplomatique, Brasil de Fato, A Tribuna, além do jornal Porantim, sobre a questão indígena, entre outros. Em 2010, ganhou prêmio Vladimir Herzog por série de reportagens que investigou a atuação de grupos de extermínio em 2006, após ataques do PCC a postos policiais em São Paulo.

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