23 de setembro de 2026

O fim de um ciclo e a reconstrução do Estado nacional, por Luís Nassif

Caso Master expõe o esgotamento de um sistema político sem freios, enquanto a campanha eleitoral revela a ausência de um projeto nacional.
O presidente Lula na convenção nacional do PT em 2 de agosto de 2026. Foto: Miguel Schincariol/AFP - Reprodução

A vitória do antijornalismo

Na GloboNews, comentaristas se equilibram nas palavras para analisar a última pesquisa Quaest, que registrou queda de Lula depois da fabricação midiática do chamado caso Lulinha. Os mais consequentes limitam-se a dizer que os dois lados explicaram mal seus respectivos casos. Com isso, evitam comparar fatos de dimensões incomparáveis.

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No caso de Fábio Luís, não apareceu, até agora, contrato com o poder público, ato de ofício, pagamento em troca de influência ou negócio concretizado graças à sua intervenção. No de Flávio Bolsonaro, há suspeitas sustentadas por mensagens, planilhas e transferências milionárias de Daniel Vorcaro para o filme destinado a glorificar Jair Bolsonaro. Investigar ambos é obrigação do jornalismo. Equipará-los, porém, é uma fraude editorial.

A mudança nas expectativas dos eleitores mostra que a fraude funcionou. É uma vitória do antijornalismo: não foi preciso demonstrar equivalência entre os casos; bastou repeti-la até que se transformasse em percepção pública.

O vácuo institucional

Não se deve, contudo, medir a crise apenas pelos parâmetros da mídia. A imprensa brasileira participou, direta ou indiretamente, de sucessivas rupturas políticas desde o fim do Estado Novo. A gravidade do momento atual se mede por algo ainda maior: o vácuo institucional deixado pelo desmonte dos freios, dos contrapesos e das referências comuns da República.

A megalomania de Daniel Vorcaro estava exposta. Ainda assim, a perspectiva de enriquecimento fácil, somada às alianças com o Centrão e à circulação do banqueiro pelas altas rodas de Brasília, contaminou instituições e poderes. Vorcaro converteu-se no amigo generoso, capaz de distribuir contratos de consultoria, viagens internacionais, patrocínios e verbas vultosas. Só faltava beijo na boca.

Do terremoto Master não escapam o Congresso, o Judiciário, setores evangélicos, a imprensa, o Ministério Público, a Advocacia-Geral da União e a Polícia Federal. Cada nova revelação ilumina uma parte da mesma ópera bufa: agentes públicos e privados aproximados pelo dinheiro, pela influência, por receio política e pela ausência de controles efetivos.

André Mendonça surge como personagem-síntese desse fim de ciclo. Em sua atuação se encontram alguns dos principais vícios contemporâneos do Supremo: personalização do poder, confusão entre autoridade pública e projeção privada, investigações conduzidas sob forte impacto político e desprezo pelos ritos que deveriam proteger a própria legitimidade da Corte. As acusações concretas ainda precisam ser apuradas; o dano institucional, contudo, já está à vista.

Depois da quartelada

E agora, José? Durante o século XX, as crises políticas brasileiras terminavam, quase sempre, diante da ameaça ou da consumação de uma quartelada. Para o bem da democracia, o governo Bolsonaro desmoralizou a fantasia da tutela militar. O impeachment de Dilma Rousseff e a eleição de Jair Bolsonaro, ambos impulsionados com participação decisiva de setores dos quartéis, levaram ao poder um grupo de militares que, por incapacidade política e administrativa, acabou terceirizando o governo ao Centrão.

A opção militar perdeu legitimidade. O problema é que nada sólido ocupou seu lugar. Restou uma República fragmentada, na qual corporações agem por conta própria, o Congresso captura o Orçamento, o mercado financeiro avança sobre o Estado, a imprensa fabrica equivalências e o Supremo tenta compensar o vazio político ampliando o próprio poder.

Lula como passo intermediário

Qual é a saída? Diante de uma candidatura de Flávio Bolsonaro que representa a continuidade da dissolução do Estado nacional, e de alternativas ainda incapazes de apresentar rumo consistente, a reeleição de Lula aparece como o caminho mais seguro para preservar a democracia. Mas seria apenas um passo intermediário — necessário, porém insuficiente.

O grande desalento político, agravado pelos escândalos, nasce do vazio de projetos de futuro. A população é convocada a escolher entre a barbárie e a contenção da barbárie, mas raramente lhe é apresentado um horizonte capaz de mobilizar esperanças, organizar interesses e dar sentido coletivo ao sacrifício cotidiano.

Uma vitória de Flávio Bolsonaro representaria a falência de qualquer veleidade de projeto nacional. Uma vitória de Lula poderá abrir a reconstrução institucional, desde que o quarto mandato não se limite a administrar ruínas nem a celebrar uma coleção de “entregas”. Entregas são necessárias, mas não substituem direção histórica.

Reconstruir o futuro

A construção do futuro é processo mais sofisticado. Exige planos estruturados e factíveis, metas verificáveis, prioridades produtivas, instrumentos de financiamento e definição clara das novas oportunidades de investimento e trabalho.

Exige mostrar como terras raras, transição energética, bioeconomia, complexo industrial da saúde, soberania digital, infraestrutura, educação e ciência podem formar partes de um mesmo projeto. Exige também reconstruir instituições, conter a captura corporativa do Estado e devolver à política a capacidade de arbitrar interesses em nome de uma estratégia nacional.

O fim deste ciclo não virá apenas com a derrota eleitoral do bolsonarismo. Virá quando o país deixar de escolher apenas contra o desastre e voltar a escolher a favor de um futuro.

A reeleição de Lula pode fechar a porta da barbárie. Para abrir a porta seguinte, porém, será necessário muito mais: um governo com projeto, método, coragem e capacidade de devolver ao Brasil o direito de sonhar com o próprio destino.

Se ocorrer a tragédia política da eleição de Flávio Bolsonaro, agosto de 2026 será considerado o mês em que a imprensa brasileira conseguiu atingir seu objetivo, de destruir a democracia brasileira.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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5 Comentários
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  1. JOUZÉ.MARCELo

    3 de setembro de 2026 8:05 am

    A música varre varre vassourinha de Jânio Quadros está mais atual do q ninca,a diferença é q não conseguem.mais varrer para debaixo do tapete em tempos de super exposição midiática e internet,depois do golpe ma Dilma virou um verdadeiro bacanal suriba putaria finamceira aonde as QUADRILJAS só pensavam em meter a mão no dinheiro do Brasil riquíssimo seja da forma q for semn pudor e causando a dor q for aff,mas o culpado é lulaptdilma,os custos com p trabalhador,os impostos tb já sei aff alguém quer um resumo melhot do bagunçado q virou?ztudo isto só foi e é possível ppr causa dos jornalismo sujo porco dos funciomariozinhos das câmaras de gases dos campos de concentração (desconcentracao)nazista,aff !!!

  2. José Djamar

    3 de setembro de 2026 9:52 am

    É isto.

  3. Paulo Dantas

    3 de setembro de 2026 10:24 am

    Mas como fazer isto com o poder estabelecido ?

    Com acesso à grana ?

    A mídia passa pano pros amiguinhos e condena previamente os inimigos.

    Aí falam em “defender as instituições” com os cablocos usando as mesmas.

  4. Pedro Rocha

    3 de setembro de 2026 1:18 pm

    O Lula é um cara muito errado numa ótima hora (pra ele), um imprevidente que desconsidera práticas fundamentais de planejamento público, como a formação de Estado-Maior. Não a toa gasta tempo absurdo com viagens internacionais, seguramente porque assim se relaciona com seus pares, o papel que na visão lhe cabe como ESTADISTA. Seria patético se não fosse trágico. Quanto à ausência de um Plano de Metas, trata-se apenas de um equívoco refinado, na minha modesta visão. O ideal? a criação de planos para solução de problemas….Enfim, deixe prá lá. Uma característica da velha guarda é a sonora teimosia. Tento dizer e falar, não tenho respostas, continuem teimando…

  5. Fábio de Oliveira Ribeiro

    3 de setembro de 2026 5:11 pm

    Chronos (tempo), kairos (oportunidade) e krisis (fatiar, submeter a julgamento) são três conceitos gregos que não se ajustam muito bem à realidade brasileira. Isso porque o Brasil nasceu da interligação brutal de três realidades distintas: o controle da elite do tempo para ganhar e acumular dinheiro; o dia dividido entre trabalho duro e descanso precário, do escravo; o prazer de viver e a necessidade de fugir, dos índios sempre submetidos à ininterrupta pressão da expansão territorial dos colonos portugueses. Em nosso país não é possivel encontrar uma oportunidade (kairos) para julgar e consolidar uma única realidade (krisis) a fim de sincronizar os três mundos divididos em benefício por aqueles que controlam o dinheiro e o tempo (Chronos). Nações ricas em que a economia e o Estado estão a serviços de todos (como a Noruega, Suécia e Dinamarca) encontraram uma maneira de ultrapassar a barbárie e encontrar um ponto de equilíbrio entre Chronos, kairos e krisis. Isso não pode ser feito no Brasil, porque além de sua origem nosso pais é pressionado por fora e por dentro pelos EUA (outro Leviatã doente).

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