Luta da Civilização contra a Barbárie: Qual o real significado da expressão?

Nos últimos meses com a perspectiva da tomada do poder de forças do atraso representadas por Bolsonaro e seus asseclas a expressão de uma Luta da Civilização contra a Barbárie, tem sido uma constante nos textos, citadas de forma vigorosa e atribuída a diversas pessoas, principalmente a Rosa de Luxemburgo.

A expressão de luta entre a civilização e barbárie, tem origem no texto desta famosa comunista polonesa-alemã, o texto: “A crise na socialdemocracia alemã: The Junius Pamphlet ”.

Neste texto Rosa de Luxemburgo cita uma frase em que ela impropriamente atribuiu a Engels:

Friedrich Engels disse um dia: “A sociedade burguesa se encontra diante de um dilema: ou avanço para o socialismo ou recaída na barbárie.” Mas o que significa “recaída na barbárie” no grau de civilização que conhecemos hoje na Europa? Até hoje nós temos lido estas palavras sem refletir sobre elas e nós as temos repetido sem perceber sua terrível gravidade. Lancemos um olhar ao nosso redor neste momento e nós compreenderemos o que significa a recaída da sociedade burguesa na barbárie. A vitória do imperialismo leva ao aniquilamento da civilização – esporadicamente durante o curso da guerra moderna e definitivamente se o período de guerras mundiais que se inicia agora vier a prosseguir sem entraves até suas últimas consequências. É exatamente o que Friedrich Engels havia predito, uma geração antes de nós, há quarenta anos. Nós estamos colocados hoje diante desta escolha: ou bem o triunfo do imperialismo e a decadência de toda a civilização tendo como consequências, como na Roma antiga, o despovoamento, a desolação, a degenerescência, um grande cemitério; ou bem vitória do socialismo, ou seja, da luta consciente do proletariado internacional contra o imperialismo e contra seu método de ação: a guerra.

Pois bem, Rosa de Luxemburgo atribui Engels a frase simplesmente porque ela escreveu este texto enquanto estava presa em 1915, logo, longe do material bibliográfico marxista que certamente eram indisponíveis nas prisões alemãs. Ela pelo período que se refere, quem cita a frase posteriormente, diz que a citação pode ser encontrada no texto “Anti-Dühring” de Friedrich Engels escrito em 1877. Muitos quebraram a cabeça e não encontraram a citação, pois na realidade não está lá.

Alguns acadêmicos posteriormente atribuem a uma passagem de Anti-Dühring onde Engels contesta a afirmação do Sr. Dühring (quem quiser saber quem foi, que procure) de que a força, não o desenvolvimento econômico, é o fator dominante na história. Engels argumenta que as tentativas de usar a força para reverter o progresso econômico quase sempre falharam, exceto em alguns “casos isolados de conquista, nos quais os conquistadores mais bárbaros exterminaram ou expulsaram a população de um país e devastaram ou permitiram que fossem arruinar as forças produtivas que eles não sabiam como usar.” Como exemplo, ele cita os invasores cristãos que deixam os sistemas avançados de irrigação descaírem depois de derrubarem o domínio muçulmano na Espanha. (Atenção: Aqui a civilização eram os muçulmanos e os bárbaros os cristãos!).

Mas na verdade, Rosa de Luxemburgo estava citando por falha de memória outro teórico marxista, Karl Kautsky, que havia escrito o conhecidíssimo Programa de Erfurt, programa do na época denominado partido Social-Democrata da Alemanha (SPD), onde no capítulo 4 tem a seguinte passagem:

Se, de fato, a comunidade socialista fosse uma impossibilidade, então a humanidade seria cortada de todo desenvolvimento econômico adicional. Nesse caso, a sociedade moderna iria decair, como o império romano quase dois mil anos atrás, e finalmente recair na barbárie.

Como as coisas estão hoje, a civilização capitalista não pode continuar; devemos avançar para o socialismo ou cair na barbárie.

Ou seja, toda esta revisão histórica serve para dizer que em situações que uma sociedade não consegue progredir, passando para outra etapa de desenvolvimento, ou forças da reação, forças bárbaras (bárbaro dentro do sentido de alguém que ingressa numa civilização e simplesmente não tem capacidade de entende-la) ao tomarem conta de algo que não tem a mínima noção de como funciona, a tendência não é somente de congelamento da situação, mas sim de regressão social.

No caso brasileiro, apesar de todos os tropeços da citação, a frase dentro da concepção atribuída tanto a Engels no “Anti-Dühring” como a Karl Kautsky no “Programa de Erfurt”, em que a frase está literalmente escrita, o emprego e os exemplos são totalmente procedentes.

A tomada do poder por uma horda de ignorantes bolsonaristas, como os cristãos tomando as terras dos muçulmanos ou como os bárbaros que invadiram o Império Romano, haverá uma regressão na civilização, levando-nos à sua barbárie, simplesmente porque eles não compreendem a civilização que estão envolvidos, assim como a odeiam.

Para não ficarmos em exemplos históricos tão distantes, podemos citar o caso da tomada do poder pelos fascistas espanhóis, após a vitória dos mesmos na guerra civil espanhola. Esta tomada de poder não só travou o desenvolvimento do país como também a retirou do quadro europeu do desenvolvimento país durante mais de quatro décadas.

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