O futebol é uma libertação temporária das questões sociais que nos separam
por Maíra Vasconcelos
Aqui, restrinjo-me amplamente, apenas às fragmentações de classe social. O futebol tem essa entranhável maneira de constituir momentos populares, frações de horas onde desiguais socialmente ocupamos o mesmo espaço de alegria.
Digerir uma derrota no futebol leva tempo. A seleção argentina jogou o Mundial 2026 à sua maneira, com o seu jeito maradoniano de ser. Garra, alma, paixão, dando tudo até o último segundo de jogo. Agora, carrega, além de todas as incertezas sobre o futuro, após a derrota contra a Espanha, na final, as considerações de que a albiceleste tem um jogo violento ou o fato de que em lances duvidosos o juiz apitou a favor do time de Messi. Por isso, houve o murmúrio infundado de que a Argentina estaria comprando o Mundial. Como se não bastasse, as deploráveis cenas de torcedores argentinos racistas terminaram em uma injustificável campanha de disseminação de ódio contra o país.
Digerir uma derrota no futebol leva tempo. Também, pelo caminho percorrido junto aos jogadores a cada partida. Durante a festa da vitória contra os ingleses, naquela memorável quarta-feira, 15 de julho, rumo à final, por alguns instantes, acreditei na existência do coletivo. Como se entrasse em um túnel, bem ali nas imediações do Obelisco, onde todos compartilhamos de um só sentimento que nos reunia e permitia que olhássemos uns aos outros, em breves segundos, e pudéssemos sorrir. Apenas sorrir com os olhos para qualquer desconhecido, na Avenida 9 de Julho, e reconhecer juntos que habitamos a mesma alegria. Sofremos e nos apaixonamos pela mesma razão.
Isso é como viver o sublime. Tão mágico como impossível, o coletivo aconteceu. É viver o futebol como uma espécie de libertação temporária das questões sociais que nos separam. E, aqui, restrinjo-me amplamente, apenas às fragmentações de classe social. O futebol tem essa entranhável maneira de constituir momentos populares, frações de horas onde desiguais socialmente ocupamos o mesmo espaço de alegria, além de constituir laços genuínos que perduram uma vida.
Inegavelmente político e tomado por temas políticos, o futebol reflete costumes e problemas sociais. “As Malvinas são argentinas” e esse debate foi exposto em campo pelos jogadores do técnico e ex-jogador Scalone. Essa intervenção pode ser algo discutível. Mas que os deuses do futebol, onde estejam, possam frear os inconsequentes que têm usado esse esporte para fomentar o ódio. Como a campanha internacional de demonização da Argentina: jogo sujo, violentos, ladrões que pagam por um Mundial, e racistas. Antes disso, seria importante saber como a Argentina lida com o próprio racismo, ao invés de, com isso, justamente invisibilizar os afro-argentinos, dizendo que no país não tem negros.
Nesse sentido, dirijo-me a outro debate. Escolher um país é como escolher um amor. Com todos os riscos e apostas que isso implica. Escolher um time também é como escolher um amor, mas de time não se muda. Aconteça o que acontecer, ser fiel ao time é uma honra que todo torcedor leva no peito. Mas é possível mudar de país, morar e amar outro país.
É decidir, não jurar para sempre, pois essa promessa seria fajuta e contra os princípios de uma união que se quer verdadeira, mas a cada momento, a cada etapa, decidir ou não permanecer no país escolhido. É construir, a cada dia, a cada alegria e a cada desilusão, um amor que necessita representação. E o futebol tem seu modo único de representar o que se pode sentir por um país. Porque o futebol tem dessas coisas. E como dizia Maradona, o futebol é o esporte mais lindo e saudável do mundo.
Maíra Vasconcelos é jornalista e escritora, de Belo Horizonte, e mora em Buenos Aires. Escreve sobre política e economia, principalmente sobre a Argentina, no Jornal GGN, desde 2014. Cobriu algumas eleições presidenciais na América Latina (Paraguai, Chile, Venezuela, Uruguai). Escreve crônicas para o GGN, desde 2014. Tem publicado um livro de poemas, “Um quarto que fala” (Urutau, 2018) e também a plaquete, “O livro dos outros – poemas dedicados à leitura” (Oficios Terrestres, 2021).
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