O olhar arbitrário que define um texto
por Maíra Vasconcelos
O que justifica um texto. Me pergunto. Mas não existe aquilo que justifique a escrita. Escrever um diário, por exemplo, pode ser ridículo, você automaticamente se transforma em um clown. Isso poderia ser dito por muitos diaristas, mas é uma frase de Emilio Renzi, personagem do escritor argentino Ricardo Piglia, que durante 50 anos manteve um diário. E um diário é uma miscelânea, pode-se encontrar desde uma lista de supermercado até as anotações sobre um almoço de domingo.
Observar o cotidiano para logo extrair alguma reflexão, escrever, e não justificar nada. Você simplesmente rouba do dia uma situação banal e a submete a investigações pessoais. Vi a delicada cena de um motoqueiro no sinal balançando as mãos suaves e grossas para a tela do celular, enquanto esperava no sinal. Ele sorria levemente. Bem ali na Diagonal Sul, perto da Praça de Maio. Pelo sorriso, vi que falava com sua filha. Foi como se de relance encontrasse um pai que realmente estivesse feliz e presente em sua função paterna. E o protagonista, talvez, não seja o pai, mas exatamente o filho e a mãe, pois eles contam com a sua presença para viver em família. A presença do pai motoqueiro.
Pesquei no meio da multidão, no centro da cidade, um acontecimento. Ainda que essa visão pessoal não possa definir uma situação alheia. Como tudo aquilo que vemos apenas com os próprios olhos. Mas eu defendo aquela cena como uma tese e a transformo em algo convincente. Aquele pai é realmente um bom pai, aquele sorriso era meigo demais. Mas eu não conheço o motoqueiro, não sei nada sobre ele. Nem sequer lhe dei a oportunidade de se posicionar, quer dizer, que ele também me olhe. Que também ele possa fazer o exercício de me tornar um objeto diante de seus olhos. Essa mirada do outro. Sendo assim definida por um desconhecido, que, igualmente, não sabe nada sobre mim. Mas é dono do seu olhar, assim como eu sou dona da minha mirada definidora sobre um episódio que, por isso mesmo, deixou de ser irrelevante naquele exato momento.
Afinal, um texto não deve ser escrito com a pressão de se justificar nada. Tal como um diarista que se sabe ridículo em sua tarefa. Por isso mesmo, o motoqueiro é um caso a ser levado a sério. Defendo diante de um tribunal vazio, sentada nesta cadeira, a importância da cena do pai motoqueiro junto a sua família. E isso é como ser uma mulher sozinha em busca de um olhar aguçado diante dos dias mais comuns, porém, se preparando para a caça.
Maíra Vasconcelos é jornalista e escritora, de Belo Horizonte, e mora em Buenos Aires. Escreve sobre política e economia, principalmente sobre a Argentina, no Jornal GGN, desde 2014. Cobriu algumas eleições presidenciais na América Latina (Paraguai, Chile, Venezuela, Uruguai). Escreve crônicas para o GGN, desde 2014. Tem publicado um livro de poemas, “Um quarto que fala” (Urutau, 2018) e também a plaquete, “O livro dos outros – poemas dedicados à leitura” (Oficios Terrestres, 2021).
Deixe um comentário