Mães nas periferias lidam com corte na renda e filhos nas ruas durante quarentena

Com isolamento social, mães das comunidades lutam para manter seus filhos dentro de casa e garantir a renda das despesas que aumentaram durante o período

Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Jornal GGN –  A quarentena dos grandes condomínios paulistas, acompanhadas de shows ao vivo da varanda, estampam as redes sociais. Mas, sem flashs, do outro lado da ponte, chefes de família das grandes comunidades se expõem ao risco do novo coronavírus para garantir o sustento de suas famílias e tentam controlar suas crianças à distância, para que não saiam de dentro de casa. 

A empregada doméstica, Clarice Teixeira, 53 anos, contou ao Jornal GGN os desafios de sua comunidade, conhecida como Favela do 67, no Capão Redondo, extremo-sul da cidade. “Na minha viela o povo parece que não tá de quarentena, os adolescentes tão tudo lá, fazendo festa”, revelou. 

Clarice é mãe e avó, sua casa fica em um beco estreito da comunidade. Lá a única informação que chega é pela TV aberta ou pelos grupos de Whatsapp. Na comunidade, ver crianças pela rua é comum. 

“Algumas [crianças] ficam dentro de casa, mas às vezes não aguentam e vão um pouquinho na rua. As casas são todas pequenas e tem gente [vizinhos] que tem sete filhos, tudo pequeno, então não aguentam ficar o tempo toda dentro de uma casa.

Desde 24 de março, com o decreto de quarentena, o neto de cinco anos da empregada doméstica não vai mais à escola, mas ela e a filha continuam trabalhando e as contas não param de chegar. Além disso, Clarisse desabafa:  “em casa, meu neto toda hora tá querendo alguma coisa [pra comer], às vezes não tá nem com fome, mas pede.”

O GGN informou Clarisse sobre o auxílio merenda anunciado pelo governo de São Paulo, para crianças de famílias de baixa renda que estão no Cadastro Único, mas ela afirma que não chegou ainda nenhuma novidade deste tipo na comunidade. “Ninguém nunca falou nada disso não. Eu ouvi alguma coisa por alto, mas ninguém chegou aqui em casa pra explicar isso”. 

O neto de Clarisse estuda na rede municipal de ensino, entidades excluídas até então do programa de auxílio merenda de João Doria. Mas, na semana passada, uma decisão do juiz Adriano Marcos Laroca, da 12ª Vara da Fazenda Pública, determinou à Prefeitura de São Paulo e ao governo do Estado que todos os aluno da educação básica das redes públicas façam parte do projeto de compensação da merenda escolar. 

Na última terça-feira, o governo de Doria chegou anunciar que tinha começado o pagamento de R$ 55 reais por mês aos 732 mil alunos da rede estadual, parte do programa Merenda em Casa. Mas na comunidade do Jardim Jangadeiro, entre as periferias do Capão Redondo e Jardim Ângela, os filhos de Rosineia Vieira, 48 anos, que estudam em escolas estaduais ainda não receberam nenhum auxílio neste sentido.

“Fiquei sabendo disso [auxílio merenda] só pela televisão, porque ninguém veio aqui falar com a gente como que vai fazer pra receber.”

Rosineia é mãe de cinco filhos, um adulto, três crianças e um deficiente físico. Com quarentena, seu marido – que trabalha em um restaurante – foi mandado para casa em férias coletiva. Com as crianças sem aula, a dona de casa explica ao GGN as dificuldades do isolamento social. 

“É difícil com as crianças todas dentro de casa, fica mais complicado, porque a rotina deles era acordar, almoçar e ir para escola, mas agora tá todo mundo dentro de casa. Aqui [na vizinhança] ninguém tá respeitando [a quarentena], é muita gente na rua conversando, saindo, criança brincando e até os meus filhos, que também não ficam só dentro de casa. Mas pra gente com criança é difícil, a gente que não tem nem um quintal.”

Com todos dentro de casa, Rosineia confessa que os gastos aumentaram e a renda não é suficiente. Questionamos se ela tinham se inscrito no programa de auxílio emergencial do governo federal, pago em três parcelas de R$ 600,00 a partir de maio, que visa amparar beneficiários do Bolsa Família, trabalhadores informais, microempreendimentos individuais (MEI) e famílias com renda per capita de até meio salário mínimo. 

“Não recebo, não estou incluída, porque o Vinicius [deficiente físico] é beneficiário, recebe um salário mínimo do governo. Então não sou incluída em nada, mesmo tendo as outras crianças. Mas eles [poder público] acham que a gente consegue sobreviver com isso, mas não consegue não, já tem uns três meses que eu não recebo a fralda do Vinicius, ta em falta, tem muita coisa em falta, até o remédio controlado dele tá em falta, que ele precisa tomar para não ter convulsão. Então é mais gasto.”

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