10 de junho de 2026

Mais da metade dos beneficiários do Bolsa Família deixaram o programa nos últimos dez anos

Programa de transferência de renda não se limita a mitigar a pobreza imediata, mas também atua como instrumento de mobilidade social
Foto: Arquivo/Agência Brasil

FGV revela que 60,68% dos beneficiários do Bolsa Família deixaram o programa em dez anos, com maior saída entre adolescentes.Jovens de 15 a 17 anos apresentam 28,4% de emprego formal; saída maior em áreas urbanas e famílias com ensino médio.Novo Bolsa Família mostra 31,25% de saída desde 2023; programa inclui proteção pós-emprego e microcrédito para empreendedores.

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Um estudo divulgado nesta sexta-feira (5) pela Fundação Getulio Vargas (FGV) mostra que 60,68% dos beneficiários do Bolsa Família conseguiu deixar o programa nos últimos dez anos. O levantamento Filhos do Bolsa Família, feito em parceria com o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS), revela ainda que a maior proporção de desligamento ocorreu entre aqueles que eram adolescentes em 2014.

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Na faixa de 15 a 17 anos, 71,25% não precisaram mais do benefício dez anos depois. Entre jovens de 11 a 14 anos, a taxa foi de 68,80%, e, no grupo de até 4 anos, de 41,26%. Os pesquisados representam a chamada “segunda geração” do programa criado em 2003.

O professor da FGV Valdemar Rodrigues de Pinho Neto, autor do estudo, afirma que o Bolsa Família não se limita a mitigar a pobreza imediata, mas também atua como instrumento de mobilidade social. Ele destaca o papel das condicionalidades, como frequência escolar, vacinação e acompanhamento pré-natal, na formação de capital humano.

“Transferência de renda e, ao mesmo tempo, viabilizar o fomento de capital humano desses jovens, para que no futuro, tendo oportunidades de trabalho, de empreendedorismo, eles consigam acessar o setor produtivo, ter melhores condições socioeconômicas e, de certa forma, viabilizar essa mobilidade”, explica.

Segundo Pinho Neto, a taxa de saída mostra que o programa é sustentável. “No contexto de recursos escassos para o governo, saber que os filhos do Bolsa Família não necessariamente estarão presentes no programa no futuro, de certa forma, diz um pouco também a respeito da própria sustentabilidade do programa.”

De acordo com o estudo, os jovens de 15 a 17 anos que deixaram o Bolsa Família em 2014 apresentam hoje indicadores de inserção socioeconômica mais elevados: 28,4% têm emprego formal e 52,67% saíram do Cadastro Único (CadÚnico). Os dados foram cruzados com informações da Relação Anual de Informações Sociais (Rais).

Contexto socioeconômico

O ambiente em que vivem os beneficiários influenciou diretamente as taxas de saída entre 2014 e 2025. O estudo aponta que:

  • Em áreas urbanas, 67% dos jovens de 6 a 17 anos deixaram o programa, ante 55% em áreas rurais;
  • Jovens cujas famílias têm responsável com emprego com carteira assinada apresentam taxa de saída de 79,40%, superior à de quem trabalha sem carteira (57,51%) ou por conta própria (65,54%);
  • Famílias em que o responsável tem ensino médio registram taxa de saída de 70%, maior do que entre aquelas com ensino fundamental completo (65,31%).

“Pais que têm mais acesso à educação conseguem romper a pobreza que a gente chama de pobreza intergeracional. Então, filhos de pais mais educados, obviamente, também conseguem sair mais do programa”, afirma Pinho Neto.

O ministro do Desenvolvimento e Assistência Social, Wellington Dias, comemorou os resultados e ressaltou que o Bolsa Família é um ponto de partida para a ascensão social.

“É muito difícil dar passos largos sem tirar da fome. É difícil estudar se não tirar da fome. É difícil trabalhar se não tirar da fome. Esse passo justifica os mais pobres no Orçamento”, declarou.

Novo Bolsa Família

A pesquisa também analisou a versão atualizada do programa, reformulada em 2023. Entre os beneficiários de janeiro de 2023, 31,25% haviam deixado o Bolsa Família até outubro de 2025. Entre os jovens de 15 a 17 anos, o índice foi de 42,59%.

O fluxo atual reforça a tendência de mobilidade: a entrada média mensal de 359 mil famílias é inferior à média de saídas, de 447 mil.

O estudo foi divulgado na mesma semana em que o IBGE reportou que 8,6 milhões de brasileiros deixaram a pobreza em 2024, reduzindo a taxa para 23,1%, o menor patamar desde 2012. O desempenho do mercado de trabalho e os programas sociais foram apontados como fatores decisivos.

Autonomia

Pinho Neto destacou duas inovações do Novo Bolsa Família: regra de proteção: que mantém beneficiários por um período de adaptação mesmo após conseguirem emprego, garantindo retorno facilitado ao programa caso percam a renda; e Programa Acredita: que oferece microcrédito para empreendedores de baixa renda.

“A ideia é que a transição do Bolsa Família para o mercado de trabalho seja algo mais suave e não uma decisão muito drástica na vida dos beneficiários”, afirmou.

O Bolsa Família atende famílias com renda mensal de até R$ 218 por pessoa. O benefício básico é de R$ 600, com adicionais para crianças, gestantes e outros perfis. O valor médio atual é de R$ 683,28.

Em novembro, o programa beneficiou 18,65 milhões de famílias, ao custo de R$ 12,69 bilhões.

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Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É repórter do GGN desde 2022.

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