5 de junho de 2026

Mais um episódio crime racial do Carrefour

Como se esperava, ficou caracterizado no ato de reconhecimento que Januário foi sequestrado pela milícia do Carrefour, arrastado para cárcere privado e torturado brutalmente. E no ato de reconhecimento o gerente da loja estava entre os agressores e todos os milicianos foram identificados.

Por Ivan Seixas

Fui presidente do CONDEPE – Conselho de Defesa da Pessoa Humana de São Paulo por 5 anos. Nesse período enfrentamos muitas lutas e sofremos muitas agressões dos governos tucanos. Nesse período também enfrentamos o caso do cidadão Januário Alves de Santana, que foi preso e torturado por seguranças do supermercado CARREFOUR de Osasco.

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Ele foi colocado em cárcere privado na sala de segurança do supermercado, torturado durante 20 minutos e teve a mandíbula quebrada e várias escoriações como decorrência da agressão. A acusação para tamanha violência foi que ele era suspeito de ter roubado um carro e roubado as compras que colocava no porta-mala desse carro. No entanto, o carro era seu e as compras ele acabara de pagar no caixa. Tudo por ser negro.

Januário foi conduzido à delegacia por PMs, que também o acusavam de ser ladrão, sem justificativa alguma. Na delegacia o delegado comprovou que Januário era dono do carro e das compras que havia pago. Foi liberado e procurou o advogado Dojival Vieira, combativo militante das causas populares e das lutas dos afro-descendentes. Foram para o IML – Instituto Médico Legal para realização de exame de corpo de delito, que constatou todas as agressões e fraturas.

Dojival nos procurou no CONDEPE depois que estava patente que o inquérito aberto não iria para frente. Fomos para a delegacia de Osasco e cobramos da delegada as providências tomadas para apuração do caso. Ela não tinha feito a reconstituição da cena do crime, não tinha feito o reconhecimento dos agressores de Januário e pretendia encerrar o inquérito acusando os torturadores de “lesões corporais leves”. Junto comigo e Dojival estava o Deputado José Cândido, do PT. Indignados exigimos a realização de reconstituição e reconhecimento dos agressores.

A delegada, branca e preocupada com a possibilidade de “macular a imagem do Carrefour”, nas suas palavras, me pediu para não avisar a imprensa. Apenas balancei a cabeça como se estivesse a concordar com tamanho absurdo. A sessão de reconstituição de cena e reconhecimento foi marcada para uma segunda feira, à 1 hora da madrugada, quando não houvessem clientes na loja.

Óbvio que avisei a imprensa, principalmente as emissoras de televisão, e fomos para o ato policial correto. A delegada estava indignada comigo e me cobrou a presença da imprensa: “O senhor combinou comigo que não iria avisar a imprensa”. Respondi secamente que nunca prometi nada e que isso eu nunca iria fazer por se tratar de uma agressão grave contra um cidadão trabalhador. “Se a senhora quer proteger o Carrefour é problema seu. Minha preocupação é proteger os direitos do Januário”, afirmei encerrando o “diálogo absurdo”.

Como se esperava, ficou caracterizado no ato de reconhecimento que Januário foi sequestrado pela milícia do Carrefour, arrastado para cárcere privado e torturado brutalmente. E no ato de reconhecimento o gerente da loja estava entre os agressores e todos os milicianos foram identificados.

Depois disso, o Carrefour procurou o advogado Dojival Vieira fez um acordo para pagar uma indenização graúda ao Januário e tentou encerrar o inquérito policial. Dojival, como se espera de um lutador das causas populares, se recusou a encerrar o inquérito, que teve nosso apoio irrestrito.

A delegada pediu transferência da delegacia e saiu do inquérito. O delegado, de origem árabe, atendeu nossa solicitação e enquadrou aos agressores como formação de quadrilha, sequestro, cárcere privado, tortura e tudo motivado por injúria racial. Nossa preocupação, orientados pelo advogado Dojival Vieira, era não caracterizar apenas crime racial, pois os agressores seriam condenados apenas a pagar uma cesta básica ou algo assim. Quando foram a julgamento, todos os agressores foram condenados.

Uma semana depois de atendermos o caso do Januário tivemos que atender o caso de dois meninos negros que foram presos pela milicia do supermercado Extra, na zona Leste de São Paulo, por suspeita de terem roubado as balinhas e chicletes, que haviam acabado de pagar com seu dinheiro.

Não adianta milicos fascistas e seu gado fascista dizer que não há racismo no Brasil. Não só há como é extremamente violento. E o genocídio da população jovem negra das periferias está aí para mostrar isso muito claramente

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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2 Comentários
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  1. Fábio de Oliveira Ribeiro

    22 de novembro de 2020 4:27 pm

    Lembro bem desse caso, pois o comentei no Observatório da Imprensa http://www.observatoriodaimprensa.com.br/feitos-desfeitas/racismo-e-humilhacao-no-supermercado/.
    Nessa época eu estava fazendo dezenas de processos contra esse mesmo Carrefour. O motivo: os empregados terceirizados eram submetidos a revista vexatória antes de sair da depósito. Ganhei todos os processos exceto um, caso em que o TRT julgou valido o Acordo Coletivo feito com o Sindicato que autorizava as revistas.
    As indenizações ficaram entre 15 e 30 mil reais.Fiz uns 55 ou 60 processos. Um dia a advogada do Carrefour me disse “O senhor ficará rico, pois inventou uma indústria de indenizações.” Minha resposta foi “Nem não. Aqui as indenizações são mixurucas. Na Europa seriam maiores.”
    Quando o primeiro caso foi julgado no TRT/SP, o Relator mandou oficiar o Ministério Público do Trabalho pois os demais trabalhadores também estavam sendo maltratados. Algum tempo depois o Carrefour BANIU a revista e colocou câmeras no depósito. Suponho que tenha assinado um termo de ajuste de conduta.
    Exceto num caso, em todos os demais processos que ganhei a responsabilidade do supermercado foi considerada subsidiaria à do empregador. No processo de um trabalhador o TRT decidiu que a responsabilidade era solidária.

  2. Rui Ribeiro

    23 de novembro de 2020 2:04 pm

    Valeu, Ivan!

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