Maria, por Rômulo de Andrade Moreira

"Se tivesse parido um homem, branco e de classe média, agora estava eu mesma era fumando outro bom baseado, e não escrevendo esta bosta aqui"

Por Rômulo de Andrade Moreira

Quando nasci veio um anjo sacana,
Aquele mesmo de Drummond, só que mais torto.
E disse: vai ser homem na vida!
Só que ele me botou negro, e eu disse: vai dar merda!

Então, ele me botou brasileiro, e eu reclamei: piorou!
Não satisfeito, fez-me pobre, e eu bradei: puta que pariu!
Enfim, e de pura sacanagem mesmo, ele, de repente, mudou de ideia:
E eu nasci mulher: agora fodeu!, disse num brado.

Não deu outra: hoje, estou presa como traficante de drogas.
O Poder flagrou-me fumando um baseado aqui na minha calçada pobre, unzinho só.
Levou-me presa e fui condenada por tráfico de drogas.
Agora, cumpro uma pena estúpida de prisão, e a culpa foi da calçada!

Não teve recurso, aqui tem pouco Defensor Público,
O Poder não dá importância para esse pessoal que defende gente.
Prefere o pessoal que acusa gente:
Rende mais, apesar de sair mais caro para ele.

Anjo torto? Não!, anjo sacana aquele mesmo.
Se tivesse parido um homem, branco e de classe média,
Agora estava eu mesma era fumando outro bom baseado,
E não escrevendo esta bosta aqui.

Aqui, nesta cela imunda e inumana,
Junto com outras muitas filhas da puta iguais a mim:
Negras, jovens, pobres e mulheres,
E no Brasil!

 

  • O autor é procurador de Justiça do Ministério Público do Estado da Bahia e Professor de Direito Processual Penal da Universidade Salvador – UNIFACS.

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