
O frisson entorno da candidatura de Marina é passo atrás no nosso amadurecimento democrático. Vivemos um processo que caminha, ou caminhava, para a despersonalização das candidaturas num disputa de ideologias/projetos. Mas parece que cada geração escolhe seu salvador da pátria.
O processo de despolitização encampando pela grande mídia, sob os auspícios de uma elite conservadora, cria um desânimo geral com o processo eleitoral e participação político-cidadã. Exemplo recente disso são as entrevistas dos presidenciáveis no Jornal Nacional focando na polêmica e nivelação por baixo dos candidatos.
Quando nos tornamos avessos à reflexão, ao debate de ideias, esperamos que alguém nos guie, nos conduza pela mão. Terceirizamos a democracia. Marina Silva representa esse produto que está nos sendo ofertado agora. A massa de seus pretensos eleitores a está comprando não pelo projeto da Rede ou pelo alinhamento ao PSB, mas porque acredita que ela possa nos salvar da política.
As vitórias de Collor, FHC e Lula partiram dessa premissa. Eles poderiam fazer política pra gente, e nunca mais nos preocuparíamos com isso. Falharam, como é óbvio. Daí, os cara pintadas votaram no FHC, viraram ex-social-democratas que votaram no Lula e viraram ex-petistas que agora procuram o novo futuro ex.
Porém, a democracia é uma jornada, nunca uma linha de chegada. Está em constante construção/evolução. E só pode ser construída coletivamente, pela política. Ninguém pode fazer isso pela gente, nem esse é o papel de um político.
Em 2010, esse foi o passo à frente dado por Lula, lançando a melhor gestora do seu ponto de vista para o projeto lulopetista – ele havia deixado sua marca. Ele sequer esboçou qualquer reação numa tentativa de terceiro mandato. Serra ainda representava um projeto individualista, e foi derrotado.
Assim, as eleições presidenciais deste ano, até a tragédia de Campos, consistiam em confronto de projetos. Os mais marcantes são o neoliberal tucano e o social-desenvolvimentista petista. Os candidatos são apenas os executores. Apesar da centralização ideológica dos grandes partidos, projetos diferentes os caracterizam. Mesmo que, às vezes, a estratégia de marketing seja não exibi-los em horário nobre.
Marina, até agora, não convenceu estar representando um ideal coletivo, mas apenas sua ambição. Que seja a pretensiosa e nobre ambição de tornar o Brasil um país melhor, mas não passa de um projeto pessoal. Estamos mais preocupados com o que se passa dentro da cabeça dela do que o projeto de país, em toda sua complexidade, que ela deveria representar. Daí o discurso de que foi escolhida por deus e o tratamento dispensado ao PSB como um legenda de aluguel. Ela quer um partido para chamar de seu, não de nosso.
Cada geração tem seu salvador da pátria. Às vezes quebra a cara, às vezes dá certo – o que é mais difícil. Mas a democracia só avançará quando tomarmos a rédea e entendermos que fazemos política no dia a dia, e que os eleitos são temporários, nossos mandatários. O indivíduo, passa, fica velho, morre, o que evolui é um projeto de país construído coletivamente. Não se trata de eleger a miss ou mister simpatia.
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