“Não devemos ser ingênuos”: Brumadinho levará décadas para se recuperar, diz especialista

"O que a Vale tem feito simplesmente são medidas emergenciais de pagamento de auxílios", afirma o ecólogo

Do Sputnik Brasil

O rompimento da barragem em Brumadinho, em janeiro do ano passado, foi uma dos maiores desastres ambientais da história do Brasil. Como consequência do rompimento, 270 pessoas morreram e o impacto ambiental segue incalculável.

A Sputnik Brasil conversou com o ecólogo Ricardo Motta Pinto de Coelho, professor visitante da Universidade de São João del-Rei, que está em Brumadinho realizando estudos sobre a recuperação do meio ambiente após o desastre. Para ele, a Vale tem feito pouco para reparar os problemas criados pelo desastre ambiental.

“Do ponto de vista de reparação de danos foi feito ainda muito pouco. O que a Vale tem feito simplesmente são medidas emergenciais de pagamento de auxílios”, afirma o ecólogo em entrevista à Sputnik Brasil.
Segundo ele, as ações de pagamento de indenizações e recuperação das imediações do local do acidente ainda estão atrasadas.

O especialista ressalta que desastres como o de Mariana, em 2015, e Brumadinho, em 2019, apontam “a necessidade muito grande de investirmos na capacitação de pessoal em todos os níveis, não só no nível técnico de segurança de barragens, mas na parte ambiental, na educação da população e também mudanças de paradigmas junto às grandes empresas”.

Ricardo Motta Pinto de Coelho explica que tal mudança na visão das empresas deve ser a de priorizar o meio ambiente.

“O meio ambiente, não só no Brasil em todo o mundo, deve receber prioridade absoluta. A maior lição que devemos aprender dessas duas grandes tragédias é de que o meio ambiente deve ser priorizado de uma maneira que não foi até o momento. O meio ambiente tem que entrar no planejamento macroeconômico das nas economias de todos os países”, ressalta.
O especialista conta que percorreu toda a bacia do Rio Doce, impactado pelo desastre de Brumadinho, e relata que os danos são de grandes proporções.

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“Alguns dos impactos são irreversíveis e outros vão demorar talvez algumas décadas […]. Nós estamos falando aí de um espaço seguramente de uma ou duas décadas para que nós possamos ter uma resiliência ambiental para recompor esses sistemas em um equilíbrio aproximado ao que havia antes do desastre”, aponta.

O ecólogo também demonstra preocupação com a desinformação sobre o caso, apontando que acompanha avaliações na mídia que minimizam o tempo necessário para a recuperação do meio ambiente diante do desastre.

“Eu tenho visto algumas entrevistas, inclusive de especialistas, dizendo que a recuperação é muito rápida, que logo o ecossistema voltaria à sua condição original. Isso absolutamente não é verdadeiro”, avalia.
O professor acrescenta que tal recuperação dependerá de um longo processo e que já trabalhou em casos de poluição com metais tóxicos ocorridos na década de 1970 e que ainda não foram resolvidos.

“Nós não devemos ser ingênuos de imaginar que esses impactos vão ser superados em cinco, oito ou dez anos”, explica.

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3 comentários

  1. Brumadinho revelou quem é a Vale do Rio Doce.
    A Vale é uma expropriadora das riquezas nacionais.
    Sem ética, sem compromisso com o país, com o compromisso apenas em
    arrancar dinheiro das riquezas nacionais.
    E não importa se pode pagar para advogados e quem mais for necessário para livrar-lhes.
    Não se importar com ética, com meio-ambiente pior ainda.
    E com os atingidos, mais pior ainda.
    A natureza é a única que deverá ter que se recuperar SOZINHA.

  2. Nassif: Brumadinho é o retrato (corpo inteiro) de Pindorama do ViceÍndio e dos VerdeSauvas. Matam, de diversas formas, se valem de seu “poder de fogo”, tiram proveito da situação e posição econômica frente aos atingidos pela tragédia por eles provocada e, de letra, embromam o caso com o conivente Judiciário. Enquanto isso, no Congresso…

  3. O que eu acho é que o impacto ambiental precisa ser traduzido para o diadiês. Por exemplo, a ampliação do sistema de captação de água para a grande Belo Horizonte teve investimento de 125 milhões, entrou em operação em 2015 e a cidade, que já tinha crescentes problemas de abastecimento, não pode mais contar com agua que vem desta bacia. A bacia do Paraopeba está poluída por metais pesados desde o rompimento da barragem da Vale do Rio Doce.
    Não vi, até agora, qualquer atitude da Vale para reparar este ou outros danos, que ocorreram no Rio Doce. Até agora só distribuição de dividendos entre acionistas para mascarar a brutal incompetência gerencial da empresa dirigida por gente do mercado financeiro.

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