Neymar e a opressão nossa de cada dia, por Romulus

Neymar e a opressão nossa de cada dia: no Brasil ser homem é objetificar a mulher e reproduzir a homofobia. Todo dia, o dia todo.

Por Romulus

Compartilho abaixo o texto “Nossos heróis ainda são os mesmos”, de Diego Semerene no Huffpost Brasil, porque achei a análise boa e o episódio analisado paradigmático. É antigo (2014), mas não o conhecia e, por acaso, alguém o compartilhou hoje no Facebook.

Sim, compartilho… mas o faço sem esperança nenhuma: quem já acha que é um absurdo vai continuar achando e quem dá risadinha achando um barato vai continuar vendo graça.

É como a dicotomia contrários vs. favoráveis ao golpe: cada qual na sua bolhinha unicolor do Facebook/twitter. Aliás essas bolhinhas são em grande parte coincidentes, mas deixa pra lá…

No Brasil, a masculinidade – a ser afirmada e reafirmada todo dia o dia todo – está profundamente ligada a dois elementos:

(1) objetificação das mulheres (no plural); e

(2) homofobia.

Nas rodinhas quem “tira onda” é quem “pega” mulher – em quantidade e em variedade. E a maneira de debochar de outro membro da rodinha invariavelmente é insinuar em tom de farsa a sua homossexualidade diante dos demais – “olha aí que veadinho! hehehe”

Assim, a masculinidade se afirma através de duas negativas:

(i) nega-se à mulher condição equivalente à sua; e

(ii) nega-se a homosexualidade em si, pendurando-a, em tom de galhofa, no pescoço do outro.

Ou seja – foco na patologia psico-social! – a masculinidade não se afirma pela afirmação (é para ser pleonástico mesmo) de que “homem (heterossexual) gosta de mulher”. Mas por uma dupla negação: o desprezo (i) pela condição feminina e (ii) pelo gay.

*

Morando e trabalhando na Europa há 7 anos, nunca vi aqui esse mesmo tipo de papo de rodinha.

Nunca ouvi alguém contando vantagem das tantas que “pegou” – as mesmas das quais malandramente se desvencilhou no dia seguinte. Claro: isso também faz parte de “tirar onda”, ora! Como também faz parte antes ter dado “balão”, “perdido”, “bolada nas costas” (quantos sinônimos haverá?) … na companheira “oficial”. E ainda – perdoem a vulgaridade; não é minha, mas deles – o número de “cabaços” que o malandrão, “sagaz” e “pegador”, “tirou”.

Tampouco ouvi nesses 7 anos piada de gay (ou de minoria racial!). Nem abstratamente (“já ouviu aquela do gay que…”), nem de maneira concreta, com o tal deboche de um membro da rodinha para cima de outro, insinuando a sua homossexualidade.

Não que aqui não haja mais machismo… é claro que há. Mas certamente está muitos níveis abaixo do brasileiro. Baixo o suficiente, inclusive, para não se ousar tais piadinhas em público. E muito menos em cadeia nacional de televisão.

* * *

Ufa! Só ia compartilhar o texto e acabei escrevendo um mini-post.

Mas se o faço é também sem nenhuma pretensão maior: todos seguiremos nas nossas bolhinhas estanques no Facebook/Twitter: pró-golpe vs. pró-legalidade, pró-minorias vs. pró-opressão da maioria; (sangue) vermelho vs. (sangue) azul… cada lado cada vez mais convencido do mérito da sua causa e da torpeza da rival – a qual convenientemente nem mais vê na sua timeline.

Santo algorítimo, Sr. Zuckerberg!

E assim caminha – online – a humanidade… cada vez mais certa de tudo e cada vez menos con-certada.

Sim, caminha…

Para onde, hein?

* * *

Do HuffPost Brasil:

Nossos heróis ainda são os mesmos

Por Diego Semerene

Publicado: 27/05/2014
Atualizado: 22/08/2016

No último “Domingão do Faustão”, o jogador Neymar Jr. foi entrevistado direto de sua casa via vídeo. Neymar tinha em colo seu filho Davi, de 2 anos. A novidade que se tornou viral foi o fato do jogador ter dito, sobre a atriz Bruna Marquezine, que “A gente sempre esteve junto”. Mas a grande notícia vinda da entrevista deveria ter sido a duvidosa maneira que Neymar parece educar seu filho. No fim da entrevista, Neymar, rodeado de uma dezena de amigos, como um rapper americano e sua entourage de groupies über-masculinos, pediu a Davi que mostrasse “como é que dá um beijo no papai”. O menino obedeceu de imediato fazendo biquinho com os lábios. Logo depois, dando sequência à segunda parte do que se tornou evidente ser uma brincadeira constante entre pai e filho, Neymar perguntou a Davi como se dá beijo nas meninas. A criança, visivelmente constrangida, se recusou a mostrar. Neymar insistiu mais quatro vezes, “Como que dá beijo nas menininha?”, colocando sua própria língua pra fora e fazendo uma espécie de mímica de um beijo de língua, cuni- ou anilingus. Finalmente, Davi obedeceu o pai e demonstrou, como um golfinho que sucumbe à insistência de seu treinador, colocando sua língua de 2 anos para fora e imitando os movimentos eróticos do pai.

Essa espécie de pedagogia infanto-sexual tosca demonstra não só como o processo de hetero-sexualização da criança se dá de maneira coerciva, e como somos tão cegos a ela, mas como o sexismo continua sendo pré-requisito de masculinidade no Brasil. Quais seriam os alvos desse beijo molhado que Neymar coage seu filho a dar em rede nacional? Mulheres mais velhas que Davi, ou “as menininha” de sua idade? E essas meninas, também estão recebendo instruções similares de seus pais e mães, ou serem pegas de surpresa faz parte do jogo? E imaginem se fosse Angélica prostrada em seu home theatre no Joá dando aulas de beijo à pequena Eva para que a garota não fizesse feio quando não fosse mais virgem de língua?

Essa é a dinâmica de “dois pesos, duas medias” de um sistema que prevê ao menino (sem qualquer idade mínima) tudo e à menina absolutamente nada. Esse é o machismo que Neymar já revelava, entre um clichê e outro para reiterar sua fé na “família”, no início da mesma entrevista, quando indagado sobre ciúmes de filhos. Ele respondeu, essencialmente, que seu filho poderia fazer o que bem quisesse, mas que com menina tem que ser “linha dura”. A plateia, provavelmente coagida como Davi por algum animador de auditório, respondeu com aplausos.

Esse é, também, o machismo que manifestou de maneira ululante, e covarde, o Pastor Eurico, ao hostilizar a apresentadora Xuxa, que por sua vez não tinha voz, literalmente, por ser convidada na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania da Câmara. Max Milliano Melo ofereceu uma brilhante análise do ocorrido, que demonstra como somos tão rápidos a achincalhar as mulheres em se tratando de crianças, e tão incapazes de culpar os homens. Melo revela como Xuxa, que por vezes foi acusada de responsável pela sexualização de toda uma geração (como se crianças, inocentes e meigas, não fossem sexuais por si só, desde o útero), é tida como corrompedora de menores por um papel que ela fez aos 16 anos num filme de ficção (“a fita sequer é uma pornochanchada”), mas os atores homens e o diretor jamais são questionados pelo suposta inadequação do filme.

Esse treinamento de beijo de língua entre pai-herói da nação e um filho acuado em rede nacional, cercado por 10 representantes da über-masculinidade brasileira em peso, nos mostra como a heterossexualidade é passada pra frente de maneira necessariamente violenta, como uma irrecusável herança e uma demanda policiada. Para o pequeno Davi, não há alternativas. Antes mesmo de sua puberdade, antes mesmo que ele possa dominar sua língua (portuguesa), antes mesmo que ele possa ser exposto às diversas formas de amar e obter prazer: o pai escolhe para ele quem será seu objeto de desejo (“as menininha”) e o que ele há de fazer com elas – com várias delas. Pois esse beijo, molhado e safado (um espécie de lepo-lepo kids via oral), é uni-direcional. No discurso do pai, o menino beija a menina que, sem ter sido adestrada a beijar, há de ficar ali parada, como uma lady. Aliás, com sorte, várias delas estarão a postos. Não pode ser só uma. Neymar já se refere a elas no plural, presumindo que seu filho de 2 anos será um pegador – outra contingência para a hetero-masculinidade brasileira.

Essa é a mecânica que dá vida à famosa cultura do estupro, que os reacionários amam desqualificar como exagero progressista e da qual Davi, e tantos outros, está sendo treinado para ser um exímio soldado. Nessa cultura, o menino é o agente, a menina é uma coisa e um número. E o sexo não é uma parceria, mas um ato de esperteza no qual o homem tira vantagem do despreparo e da ingenuidade da mulher. Jaz aí, nessa assimetria de poder, o gozo do homem – e, muitas vezes, o da mulher. Nesta cultura, a heterossexualidade só faz sentido quando o prazer é garantido pro homem pela desumanização da mulher – ou melhor, de tudo aquilo que não é homem, que não é branco, ou que é pobre. Não é Xuxa a responsável por fazer a infância no Brasil um período mais curto possível para que se tornem consumidores logo, mas pais como Neymar, loucos para colocar seus filhos dentro de um microondas hetero-masculinizante, para que não haja qualquer possibilidade de se seduzirem por algo além do que lhes é decretado como imaginável.

*   *   *

Sobre o post, Maria, minha leitora xodó e guru diz:

“Compreender verdadeiramente como o imaginário permeia nossa percepção da realidade não é tarefa simples. Não se trata de “desmascarar” a mentira para mostrar a verdade, nem de opor boa ou má fé, informação ou ignorância, algo a que a competência da mera educação formal pudesse dar jeito. Trata-se de efeito de amplos processos históricos e sociais que se repetem e se reproduzem no cotidiano, sem que as pessoas se deem conta. E não se deve menosprezar suas consequências sociais e políticas.

Ainda não se enfatizou suficientemente o quanto o ódio irracional presente nas manifestações do “Fora Dilma”, na origem do trágico processo de impeachment que encobre um golpe de Estado, colocando o país à beira do abismo, se deve a um simples fato: DILMA É MULHER. E esta evidência biológica impede que se percebam as múltiplas camadas de significado que se sobrepõem à sua imagem pública. Elementos de uma cultura do ódio, infelizmente hoje uma presença indisfarçável em nosso país.

O machismo faz parte da cultura brasileira, traduzindo um valor profundamente enraizado no imaginário que constrói a nossa percepção da vida social. Imagens que condensam ideias, sentimentos, valores, e que se sustentam graças à força de poderosos símbolos que elas mobilizam, na linguagem do inconsciente. E ocorre que tais imagens nunca são isoladas, mas agrupam-se em conglomerados de significações que se expressam em atitudes e modelos de comportamento (re)produzidos de forma cotidiana no convívio social, transitando imperceptivelmente de uma a outra área.

Assim se constrói o sentimento de “superioridade” que supostamente “autoriza” e legitima a desqualificação, o ataque e, no limite, a violência aberta contra tudo o que seja visto como “inferior”, transformado em “inimigo” a ser vencido. Em primeiro lugar, naturalmente, a mulher – e seu ambíguo homólogo, o homossexual. Mas também o negro, o índio, o cigano, o estrangeiro, aquele que tem crenças religiosas diferentes das suas, que mostra hábitos, costumes e formas de comportamento “excêntricos”, diferentes dos seus, aquele que não compartilha suas convicções políticas. Machismo, homofobia, cultura do estupro, racismo, xenofobia, intolerância, preconceito, discriminação formam complexos que é preciso compreender nas múltiplas inter-relações de um imaginário comum que os sustenta, porque só deste modo se pode combater seus tenebrosos efeitos sociais e políticos.

No artigo que aqui compartilhamos, Romulus faz um minucioso inventário do cotidiano em que se expressa o machismo e seu par necessário, a homofobia, e através do exemplo de um “herói nacional” mostra como se reproduzem formas de comportamento onde o imaginário continua a multiplicar seus estereótipos, indiferentes à opressão de suas vítimas”.

Ao que acrescento:

O problema não é só ela ser mulher. É ela não se encaixar no “papel de mulher”: assertiva, exerce a sua autoridade, altiva, divorciada, forte…

Compare com a persona pública de Marina Silva, por exemplo. Ou a de Marcela – “bela, recatada e do lar” – Temer.

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Maya Vermelha, a Chihuahua socialista

(perfil da minha brava e fiel escudeirinha)

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(ii) No Twitter:

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(iii) E, claro, aqui no GGN: Blog de Romulus

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Quando perguntei, uma deputada suíça se definiu em um jantar como “uma esquerdista que sabe fazer conta”. Poucas palavras que dizem bastante coisa. Adotei para mim também.

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