10 de junho de 2026

“Nosso mais sincero pedido de desculpas”, diz presidente da CEMDP ao entregar certidões retificadas a familiares de vítimas da ditadura

Procuradora Eugênia Gonzaga, presidente da CEMDP, entrega na USP a segunda leva de certidões retificadas de vítimas da ditadura

O terrorismo de Estado imposto pela ditadura militar do Brasil não se resumiu à tortura e à morte, mas se perpetuou no silêncio dos documentos, nas certidões de óbito que, por décadas, omitiram a verdade ou simplesmente traziam o fatídico “nada consta” sobre as vítimas da perseguição política.

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Para confrontar esse silêncio, a Universidade de São Paulo (USP) sediou, no Salão Nobre da Faculdade de Direito da USP, nesta quarta-feira (8), a segunda cerimônia de entrega das certidões de óbito retificadas de mortos e desaparecidos políticos da ditadura militar. O ato simbolizou o reconhecimento oficial das vítimas do terrorismo de Estado e culminou com o pedido de desculpas formal do Estado brasileiro.

Ao se dirigir diretamente aos familiares, a procuradora da República Eugênia Gonzaga, presidente da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP), formalizou o pedido de desculpas.

“Em nome de todas as pessoas que integram essa comissão […] quero que recebam junto com esses documentos o nosso mais sincero pedido de desculpas, a nossa solidariedade e o nosso compromisso em seguir buscando naquilo que nos cabe mais e mais medidas de memória, verdade e justiça. Ditadura nunca mais”.

Durante a cerimônia, Eugênia destacou que as novas certidões buscam reparar parte da violência imposta pelo regime, representando também uma tentativa de corrigir o caminho que levou ao desaparecimento das vítimas.

Para muito além de representarem o reconhecimento formal da verdade histórica e da responsabilidade do país pela violência infringida por um terrorismo de Estado, o momento pode representar um passo fundamental em um longo caminho de cura emocional, de um reencontro com a memória, simbolizando, quem sabe, uma forma de reparação”, declarou Eugênia Gonzaga. 

A solenidade marcou a entrega de 102 documentos a familiares de vítimas falecidas ou desaparecidas em São Paulo, somando-se a outras 63 entregues em Minas Gerais. O esforço é para que as certidões finalmente registrem as verdadeiras condições da morte, substituindo o vazio legal por termos como “morte não natural, violenta, causadas pela perseguição política”.

A luta contra o vazio legal

O processo de retificação é a face visível de uma longa batalha contra a omissão. Inicialmente, as certidões emitidas após o reconhecimento das vítimas pela Lei nº 9.140, de 1995, apenas declaravam a “morte nos termos da lei”, deixando os campos de causa, nacionalidade e estado civil preenchidos com o seco “nada consta”.

Essa lacuna levou famílias à via judicial para que a verdade fosse registrada. “Muitas outras não tiveram a mesma sorte”, lamentou a procuradora. Uma recomendação de 2014 da antiga Comissão Nacional da Verdade (CNV) para a retificação das certidões esbarrava na dificuldade do processo judicial.

Apesar do avanço, a luta continua. A procuradora expressou o “desgosto” por ainda ter que “implorar a órgãos como o Ministério da Defesa para que nos franqueie acesso a arquivos”, ressaltando que em alguns casos, o fatídico “nada consta” persiste por falta de acesso à verdade integral.

O governo tem lado

O compromisso com o passado serve de alerta para o presente. A Ministra dos Direitos Humanos, Macaé Evaristo, também presente no evento, fez um paralelo entre as atrocidades da ditadura e a violência policial que persiste na democracia. A ministra destacou que a violência policial “segue ceifando a vida de aproximadamente 6.000 pessoas por ano neste país. Em sua maioria, jovens, negros e de periferia”.

Macaé reforçou ainda o compromisso do governo federal com memória e justiça. “O governo Lula tem lado. É o lado da soberania, é o lado da democracia, é o lado dos direitos humanos de direito pleno”.

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Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

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Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

1 Comentário
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  1. Lênin and The Ulianovs

    9 de outubro de 2025 5:55 am

    (…)

    O reconhecimento não seria a imputação aos autores?

    Tem reparação criminal sem sentença?

    Brasil, o país das meias verdades.

    “Cura emocional”.

    E o próximo golpe espreita na esquina…

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