16 de junho de 2026

O derretimento de Trump e a reorganização da esquerda nos EUA

Com Trump derretendo politicamente, paralisia de Washington abre margem real para impeachment presidencial
Imagem: WIN MCNAMEE / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / GETTY IMAGES VIA AFP

O cenário político e institucional dos Estados Unidos vive um momento de forte desgaste. Diante do acúmulo de denúncias e do isolamento de Donald Trump, abre-se uma possibilidade real de impeachment presidencial. Enquanto o Congresso se omite e o Partido Democrata tradicional falha em apresentar alternativas competitivas, a resposta à crise começa a surgir da própria base, com a reorganização da ala progressista e o avanço de debates mais à esquerda entre os jovens.

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No cotidiano, a severa crise no custo de vida, impulsionada pela alta dos combustíveis e pela forte concentração de riqueza, desmistificou a estabilidade financeira da classe média americana.

Essa leitura foi apresentada pela ex-juíza e fundadora do Instituto JusClima, Luciana Bauer, em entrevista ao jornalista Luis Nassif no programa TVGGN 20 Horas. Vivendo na Flórida, reduto histórico do trumpismo, a especialista relatou que o apoio público a Donald Trump e ao movimento MAGA (Make America Great Again) praticamente sumiu das ruas.

“Eu presto atenção muito no início na campanha, Biden versus Trump, nos adesivos que tinham muitos Uber. Eu ficava chocada com os Uber com Make America Great Again e os adesivos do Trump, bandeirinhas de alguns vizinhos meus do MAGA. E tudo isso desapareceu e já desapareceu no ano passado. Agora não tem nada, não existe mais. Acho que até as pessoas têm vergonha na Flórida do seu passado MAGA.”

“O Trump simplesmente derreteu”

Para Bauer, o acúmulo de denúncias de corrupção e abusos fez com que a imagem do ex-presidente naufragasse, levando setores da própria extrema-direita a tentarem viabilizar o movimento sem a figura do líder. É nesse contexto de saturação popular que ela enxerga a viabilidade de uma destituição.

“Eu acho que há um pós-Trump sem o trumpismo, porque o Trump simplesmente derreteu, as pessoas não querem mais falar dele. Eu acho que temos a possibilidade concreta nas pessoas de que um presidente (…) sofra impeachment, porque as pessoas não aguentam mais o que ele está fazendo.”

O bolso apertado e o cotidiano das cidades

Essa insegurança se reflete diretamente na economia doméstica. Desmistificando a ideia de que o cidadão médio americano possui folga financeira, Bauer descreveu o impacto imediato da inflação nas ruas.

“Eu vi no início, quando começou a gasolina realmente a dar um pico de mais de um dólar mais caro, que as ruas estavam desertas. Eu fiquei pensando: ‘Nossa, hoje parece feriado, eu tô levando as crianças para a escola, parece feriado.’ Daí que eu me dei conta: não, as pessoas estão trabalhando o máximo que podem perto de casa para não pegar trânsito, para não ter que gastar o dinheiro. Porque os Estados Unidos é um país de dinheiro contado. A pessoa ganha o seu salário que vai gastar naquele mês. As pessoas têm pouquíssima reserva porque foi se financiando. Teve muita concentração de riqueza.”

A falência institucional e o “Ovo da Serpente”

Provocada pelo jornalista Luis Nassif sobre os sucessores de Trump e a linha dura da política externa americana — pautada pela estratégia bipartidária de contenção da China descrita por Bridge Colby no livro Estratégia da Negação —, Bauer alertou para o perigo de figuras como J.D. Vance, apontado como um nome poupado pelo sistema. Para ela, o avanço dessa ala conservadora foi facilitado pela omissão e pelo desmanche dos poderes de fiscalização.

“Sempre teve freios e contrapesos vindos do Congresso. E isso não existe mais. O Judiciário se desmanchou. Tanto que, antes até do Trump assumir, ele já tinha uma sentença da Suprema Corte de imunidade. Aquilo ali foi o ovo da serpente. E o Congresso não fez nada. Tinha aquela visão dos democratas, ‘vamos deixar ele fazer bobagem, que as próprias bobagens vão nos reeleger’. Só que foi adiante demais, deteriorou a república demais.”

O rebote dos jovens e a reconstrução de Bernie Sanders

Diante de um Partido Democrata tradicional engessado e criticado por se assemelhar à ala republicana clássica (representada por nomes como Hillary Clinton), o vácuo político passou a ser disputado em duas frentes. Nas redes, o sufoco econômico gerou o que Bauer chama de “rebote dos jovens muito socialistas”, trazendo debates sobre comunismo e socialismo para o mainstream.

Na política institucional, o senador Bernie Sanders lidera um esforço silencioso de reconstrução da centro-esquerda a partir das bases locais, focando em condados e legislativos estaduais.

“A alternativa que está sendo montada aos poucos pelo Sanders são indicações dele de progressistas dentro do Partido Democrata. Eu vejo que ele está montando listas nominais em cada estado. (…) Ele está construindo tanto candidaturas de condados, de cidades e também de deputados, tanto estaduais quanto federais. Eu acho que o Sanders está reconstruindo não a sua nova candidatura como presidente, mas uma hegemonia desta parte mais progressista contra o democrata, que é quase igual ao republicano ali, que é expresso pela Hillary Clinton.”

Assista ao corte abaixo:

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

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Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

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Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

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