O horror da elite poderosa e amoral no filme “Society”, por Wilson Ferreira

A suspeita e a paranoia farão os protagonistas suspeitarem de algo satânico, para descobrirem que é algo ainda maior e incompreensível, numa das sequências finais mais estranhas da história do cinema

por Wilson Ferreira

Tente misturar referências cinematográfica como “Veludo Azul” com “Eles Vivem” e “Invasores de Corpos”, para depois se apropriar das obras de Salvador Dali, Goya e Bosch como se elas estivessem vivas e em movimento. O resultado estranho e bizarro será o filme cult de terror “Society” (1989): no subterrâneo da ensolarada vida em tons pastéis de mansões e ricaços de Beverly Hills, suspeita-se que se esconda algum tipo de lodo subterrâneo libidinoso e surreal de festas privadas, orgias e estranhos rituais. A suspeita e a paranoia farão os protagonistas suspeitarem de algo satânico, para descobrirem que é algo ainda maior e incompreensível, numa das sequências finais mais estranhas da história do cinema, podendo ser colocada ao lado de finais com viradas narrativas como Cidadão Kane e O Sexto Sentido. Mas também “Society” cria a perfeita metáfora de uma classe dominante rica, poderosa e amoral.

“Somos uma grande família feliz… Exceto por um pequeno incesto e psicose.”
(linha de diálogo do filme “Society”)

Os filmes Cidadão Kane de Orson Welles e O Sexto Sentido de Shyamalan estão entre os melhores finais na história do cinema – violentas viradas narrativas que, em um segundo, fazem um filme inteiro ter um sentido totalmente diferente.

Mas certamente a sequência final do clássico cult Society (1989) pode ser definida como o mais ousado e bizarro final jamais visto no cinema – maquiagens e efeitos especiais inspirados em, nada mais e nada menos, duas pinturas do surrealista Salvador Dali: “O Grande Masturbador” e “Construções Moles com Feijões Cozidos”, colocando-se no hall da Cineteratologia, o estudo das representações da monstruosidade no cinema – sobre esse conceito, clique aqui.

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Um final tão estranho que para estrear nos cinemas teve que ter quatro minutos cortados. Mesmo assim, apesar de ser produzido em 1989, Society só foi lançado para as telas americanas em 1992. Para depois desaparecer rapidamente dos circuitos de exibição.

O filme é um exercício de gratificação adiada: são 70 minutos de uma narrativa que vai num crescendo de estranhamento até chegar ao final absolutamente insano. Society começa como alguma coisa entre Curtindo a Vida Adoidado Patricinhas de Beverly Hills, estrelado pelo fotogênico Billy Warlock, que mais tarde faria séries de TV como Baywatch SOS Malibu.

Jovens ricos na vida afluente de Beverly Hills entre mansões e colégios de elite, vivendo dias ensolarados em tons pastéis, a bordo de seus carros de luxo dirigindo para a praia. Que mal poderia se esconder sob esses cenários suaves e coloridos?

Nesse ponto, Society começa a se tornar um filme cult e lendário: aos poucos torna-se um cruzamento entre Veludo Azul de David Lynch e Eles Vivem de John Carpenter: cercas de madeiras coloridas, imensos jardins e casarões de ricaços apenas escondem o Mal na sua acepção mais sinistra – o Mal que não se limita a atrair vítimas incautas, mas que se espalha e cria raiz na sociedade: na política e na cultura. O Mal que forma uma classe dominante que de tão rica e poderosa, deixou de ver-se a si mesma como humana. E por isso, destituída de qualquer prurido ético ou moral.

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Deuses malignos ou extraterrestres sinistros (como em Eles Vivem) já foram metáforas das conspirações das classes dominantes em muitos filmes. Mas em Society, esse Mal é polimórfico, indeterminado, amoral, informe, mole.

E para o pobre protagonista do filme, como aos poucos a solidez aparente do cotidiano (a casa, a escola, a família etc.) vai aos poucos se diluindo em paranoia e estranhamento. Até tudo se dissolver na bizarra sequência final.

O Filme

Bill Whitney (Billy Warlock) é um garoto rico de uma escola secundário de elite em Beverly Hills. Vive em uma mansão com sua família e ocasionalmente pega seu jipe para levar sua namorada também milionária para passar um dia na praia. Mas, aparentemente, tem os mesmos problemas emocionais de um adolescente comum: desconfia de qualquer autoridade, sente-se um estranho dentro da própria família e suspeita que tenha sido adotado.

Mas aos poucos começamos a desconfiar que pode haver algo mais além por trás da paranoia e estranhas alucinações – seus pais talvez estejam tramando algo mais sinistro. Algo mais além da história do pobre garoto rico preso em uma gaiola dourada na Califórnia ensolarada.

Parece haver algum tipo de relação incestuosa entre seus pais Jim (Charles Lucia), Nan (Cocetta D’Agnese) e sua irmã Jenny (Patrice Jennings). Mas ao mesmo tempo, Bill sente uma estranha atração pela própria irmã. Porém, Bill é assaltado por supostas alucinações onde vê estranhas transformações polimórfica no corpo da irmã.

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Billy confessa tudo isso ao psiquiatra Dr. Cleaveland (Bem Slack), sobre como se sente separado da própria família, como se eles fossem de uma outra espécie.

Um dia, outro jovem que, como Bill, sente-se um pária naquela sociedade afluente, lhe apresenta provas: Blanchard (Tim Bartell) mostra uma gravação secreta na qual ouve-se os pais de Billy envolvendo-se em algum tipo de ação desagradável com Jenny, o garoto mais rico da escola e uma suposta vítima, gritando com uma voz rouca.

Há algum lodo libidinoso e bizarro no submundo daquela sociedade rica e feliz: festas privadas e orgias envolvidas com estranhos rituais. Provavelmente de natureza satânica.

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