O “sacrifício” no xadrez do golpe

 

 

Desde o impeachment da presidenta todos os brasileiros nos fizemos um pouco juristas. Por isso, em vez de pedir licença, peço vênia ao titular desta trincheira democrática para utilizar a metáfora que ele consagrou com suas análises conjunturais dessa sombria quadra da história do país.

 

O “sacrifício” no xadrez, para aqueles que não conhecem este esporte abstrato, é uma jogada em que um dos competidores “doa”, como engodo, uma peça importante para o adversário a fim de seguir um plano que, alguns lances a frente, o conduzirá à vitória.

 

A estratégia de tabuleiro vem à baila por conta de recente artigo do economista Carlos Fernandes, que aponta para o evidente contrassenso dos despachos recentes do juiz boxeador, campeão da mídia cloacal brasileira, que é retratado trajando calções auri-cerúleos nas capas de publicações que um dia foram chamadas de revistas semanais.

 

Os descalabros dos arrazoados de Sua Excelência na ação do apartamento de três pavimentos no Guarujá são tais e tantos que o autor sustenta que, de próprio punho, o herói dos fortes e opressores passa um atestado de inocência ao acusado contra quem não há provas de ser o feliz proprietário daquele imóvel construído sobre alicerces corrompidos.

 

Inelutável imaginar que há uma segunda intenção por trás dessas barbaridades jurídicas. 

 

Ainda que se considere que o ilustre julgador já rasgou a fantasia há muito tempo, ou melhor, trocou-a pelo uso alternado de uniforme da “nobre arte” e de super-herói, é preciso ressalvar algumas preocupações formais que ele tem exprimido ao longo de sua faina incansável pela devolução do país àqueles que, momentaneamente, se sentiram ultrajados no seu inalienável direito de elite mandatária desde sempre.

 

Quando denunciados seus métodos e sentenças, o herói togado recorre ao argumento de que suas decisões têm sido recorrentemente avalizadas pelo tribunal federal do sul, onde milita um compadre, e pelo supremo de frangos, digo, tribunal, onde, por sua vez pontifica a ministra com quem pretendia trabalhar como assessor direto. 

 

Mas a vida foi má e este sonho do galhardo paladino foi ceifado por burocratas radicais esquerdistas da revolucionária universidade na qual ele, generosamente, compartilha seu prodigioso saber com meros acadêmicos de Direito. Não obteve a licença solicitada para trabalhar pelos seus ideais em Brasília, negada por dirigentes do mesmo naipe do ministrone, digo ministro, colega da indigitada ministra e seu colega docente na mesma instituição, aquele que sempre teve lado: o esquerdo, de quem o vê de frente.

 

Dessa forma, considerados ‘cum grano salis’ os escrúpulos do premiado operador do Direito, é possível imaginar que ele, embora não seja, deseje parecer imparcial e magnânimo com convém a um juiz.

 

E eis que surge a oportunidade do sacrifício no xadrez do golpe. 

 

Embora, pelos indícios de superfície, pareça pouco provável uma sentença que absolva o réu a quem o alcandorado combatente da lei arguiu incansavelmente por cinco horas, ela é possível.

 

O “sacrifício”, jogada restrita à excelência de grandes mestres internacionais, seria este: absolver o réu, a quem na intimidade trata por um bem humorado – para os padrões de humor dele próprio, naturalmente – apelido, mas apenas nesta ação, escancaradamente improcedente, entre as tantas em que o culpado prévio está indiciado e noutras tantas que ainda estará.

 

Dessa forma, o estrategista mascarado faria o “sacrifício da torre”, isto é, abriria mão do “favorecimento por empreiteira” para conquistar a imunidade para sentenciar de forma imparcial uma condenação pela “propina de empreiteira”, muito mais grave e definitiva. 

 

Em especial, porque a propina teria sido concedida por uma empresa que não abandonou sua prática corruptora de décadas – só agora confessa – durante governos que ousaram se preocupar com gente pobre e excluída.

 

E para um luminar representante das pequenas burguesias provincianas, nada pode ser pior que a “traição de classe”.

 

 

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