4 de junho de 2026

Os três mundos


A avalancha de escândalos empresariais repercutidas de forma massacrante pelas redes de mídia corporativa familiar com a força de todos seus tentáculos, perdão, de sua “estrutura organizacional verticalizada” e seu “expertise” em “tecnologias multimídia” se transformou num caldo tão viscoso que é cada dia mais difícil perceber nele os componentes sólidos que apontam para questões geopolíticas.

Há dezesseis anos morria um dos maiores intelectuais que o povo brasileiro, aquele descrito por Darcy Ribeiro em seu livro que leva este título, gerou no século XX, o geógrafo Milton Santos.

Foi ele quem nos ensinou que devemos considerar a existência de três mundos num só, para podermos escapar deste que nos é apresentado à exaustão: “O primeiro seria o mundo tal como nos fazem vê-lo: a globalização como fábula; o segundo seria o mundo tal como ele é: a globalização como perversidade; e o terceiro, o mundo como ele pode ser: uma outra globalização”.

No período desenvolvimentista transcorrido na primeira década deste século o Brasil pretendeu se alçar à condição de “big player”, tal como condizente com suas principais características geográficas, o grande território e numerosa população.

Parece bastante razoável, e até matematicamente lógico, que o estado-nação colocado em quinto lugar entre os maiores territórios e maiores populações do mundo se candidatasse a ser, também, a quinta economia mundial no início da terceira década dos anos 2000.

No entanto, o mundo no qual os planejadores daquele Brasil, que ora nos parece já tão remoto, pretendiam elevar o país à sua posição “natural” de importância revelou-se ser o primeiro dos mundos de Milton: o da globalização como fábula.

Dessa forma, na medida em que, de fato, o Brasil se movimentava diplomática e economicamente rumo aos caminhos que o levariam ao destino pretendido, o segundo mundo de Milton passou a impor sua característica que o discrimina dos demais, a da globalização como perversidade.

No mundo da globalização fabulosa da economia, o país audaciosamente desbordou de suas fronteiras em vários campos. Entre os mais importantes estavam o das grandes obras de engenharia, o da produção de aço, o da transformação de carnes, o da industrialização e engarrafamento de bebidas e, naturalmente, o do petróleo.

Enquanto isso, no mundo da globalização perversa da economia, as grandes corporações internacionais,  por meio da atuação da chamada inteligência e do poder individual de de seus estados-sede, passou a se mover na mesma direção, mas em sentido contrário. Em algum ponto desta trajetória, portanto, os gigantes se chocariam; um deles pedindo passagem, o outro tentando bloquear a autopista que o Brasil construía durante o próprio deslocamento.

Há muitos indícios, e não menos evidências, disponíveis nos sistemas de informação não oligopolizadas que permitem a quem queira especular sobre quando e como se deu esta obstrução na qual o país despencou da sua inocência fabulosa para dentro do caldeirão de perversidade mantido sempre sobre o fogo, brando ou alto, de acordo com as oscilações do equilíbrio do poder mundial.

A partir das lúcidas e sábias lições de Milton, fica muito difícil se entender como simples coincidência que na montanha de destroços gerada pela avalancha de escândalos de toda ordem, potencializados pela mídia corporativa familiar e suas ‘parcerias’ mundo afora, estejam empreiteiras, siderúrgicas, frigoríficos, cervejarias, bem como petrolíferas estatais e privadas.

Sem dúvida, estas instituições com base no Brasil não são geridas apenas por “mocinhos” e tampouco os “bandidos” estão de um lado só, como nos velhos faroestes. Muito menos ainda, um projeto político de país deve proteger os nossos “perversos” contra os “perversos” de outras nações.

Independentemente de quanto tempo se necessite para recuperação nacional deste período de destruição institucional e de supressão direitos,  o que é preciso fazer, a partir de já e em todas as instâncias do pensamento progressista brasileiro, é preparar as bases teóricas e propostas para construção de um projeto de nação que tenha como farol o “terceiro mundo” – aquele do sentido usual e, também, o da concepção de Milton Santos: um outro mundo possível erguido sobre outra globalização.



 

 


 

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