A Grande São Paulo consome água subterrânea em uma escala que a maioria dos moradores desconhece. Dos cerca de 14 mil poços que abastecem clubes, condomínios, hospitais e indústrias na região, aproximadamente dois terços nunca foram cadastrados pelo poder público. Ninguém sabe exatamente onde estão, quem os opera nem qual é a qualidade da água que fornecem.
O problema ficaria apenas no campo da burocracia se não fosse um detalhe: boa parte desses poços está perfurada em bairros que já foram industriais — e o solo ali, em muitos casos, ainda guarda o legado tóxico de décadas de produção.
É o que aponta um estudo publicado na revista Environmental Earth Sciences por pesquisadores do Instituto de Geociências da USP. O trabalho, apoiado pela FAPESP, cruzou mapas de zonas industriais, áreas oficialmente contaminadas e poços de abastecimento na Região Metropolitana de São Paulo. O resultado é incômodo: as três camadas se sobrepõem com frequência perturbadora.
Veneno
Os principais vilões identificados pelos pesquisadores são os solventes clorados — substâncias como o percloroetileno e o tricloroetileno, usadas durante décadas para limpar peças metálicas em fábricas e em lavanderias de limpeza a seco. Altamente tóxicas, essas substâncias têm uma característica que as torna especialmente perigosas no subsolo: elas não somem.
Diferente do combustível vazado por um posto de gasolina, que tende a se degradar com relativa rapidez, os solventes clorados persistem no aquífero por longos períodos. E quando eventualmente se decompõem, podem formar subprodutos ainda mais nocivos do que o composto original.
Há outro fator agravante. Quando um poço bombeia água a cem metros de profundidade, cria um gradiente que puxa a contaminação da camada superficial para baixo, aprofundando o problema. E os limites de potabilidade para essas substâncias são medidos em partes por bilhão — ou seja, uma quantidade mínima dissolvida já é suficiente para inutilizar grandes volumes de água.
Fábricas
A desindustrialização de São Paulo começou nos anos 1970 e se acelerou nas décadas seguintes. Empresas migraram para o interior ou para outros estados em busca de custos menores, deixando para trás galpões abandonados — e um subsolo comprometido.
Esses territórios foram sendo ocupados por comércio, serviços e empreendimentos imobiliários sem que o passivo ambiental fosse necessariamente resolvido. Bairros como Mooca, Vila Prudente e Jaguaré, na capital, e municípios como Diadema, Mauá e Osasco, na Grande São Paulo, concentram o que os pesquisadores chamam de “fontes multiponto de contaminação” — manchas que se sobrepõem e cujas plumas de poluentes se interceptam no aquífero.
O estudo identificou 17 aglomerações onde áreas contaminadas e poços de abastecimento estão a menos de 500 metros de distância — o raio que a legislação paulista considera como zona de risco. Dentro dessas faixas, há poços profundos usados para consumo humano.
Solução
Parte da dificuldade está no modo como a contaminação costuma ser tratada. A lógica dominante é a da propriedade: cada empresa ou proprietário responde pelo seu terreno. Remove-se o solo superficial contaminado, controlam-se os vapores tóxicos que poderiam entrar em edificações — e considera-se o problema endereçado.
Mas a água subterrânea não respeita cercas nem escrituras. A massa contaminante que permanece em profundidade continua sendo transportada pelo aquífero para além dos limites do imóvel em questão. Até 2020, apenas 18,6% das áreas contaminadas por solventes clorados no estado haviam sido classificadas como reabilitadas — e isso sem exigir a eliminação completa da contaminação, apenas sua redução a níveis considerados aceitáveis.
A pesquisadora Daphne Silva Pino, autora principal do estudo, resume o problema: “Remove-se solo superficial para controlar o risco imediato. Mas grande parte da massa contaminante permanece em profundidade e continua sendo transportada pela água subterrânea.”
O que falta
Os pesquisadores não apontam apenas riscos — eles propõem uma mudança de abordagem. No lugar de uma gestão caso a caso, limitada às fronteiras de cada imóvel, defendem que as regiões afetadas sejam tratadas como sistemas hidrogeológicos integrados, com diagnósticos regionais, equipes multidisciplinares e bases de dados unificadas entre os órgãos responsáveis.
Jurubatuba, na zona sul de São Paulo, é citada como o território mais estudado da região — e ainda assim três quartos dos sítios ali localizados carecem de informação detalhada nos cadastros ambientais. Para os autores, o monitoramento que vem sendo feito no bairro poderia servir de modelo para áreas mais amplas, como partes do Grande ABC.
A SP Águas, procurada pela Agência FAPESP, informou que novos estudos hidrogeológicos foram realizados para Jurubatuba e que o modelo de gestão precisa avançar na integração entre as políticas de recursos hídricos e de gerenciamento de áreas contaminadas. A Cetesb não se manifestou.
*Com informações da Agência Fapesp.
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