5 de junho de 2026

Poema da amada para o poeta morto

De Maria Cecilia Costa Junqueira, pelo Facebook
 
para o companheiro Ivan Junqueia, poeta recentemente falecido
 
Foi muito triste esta mudança. O novo apartamento ficou bem arrumadinho, com tudo no lugar, mas a falta de armários no exíguo escritório deve ter deixado Ivan muito abatido, apesar de que ele não se lamentou…pelo menos em alta e viva voz. Absorveu o baque calado.
 
A única atitude bem visível que tomou foi pintar flores e gotas d’água multicores no vidro da janela do escritório, que dava para o nada, ou seja, para o interior do prédio, um vão interno sujo, desalentador, tristonho. Enquanto que no antigo escritório ELE VIA, TODAS AS MANHÃS, UMA ILHA distante, na brecha de prédios da Gustavo Sampaio, ilha esta que ganhou um poema logo de cara quando para lá nos mudamos em 2001. E o que o fazia sonhar com aventuras, ilhas do tesouro.
 
Ele perdeu o sonho no apartamento do edifício d”Orsy, e começou a morrer dentro de si…a alma se entristeceu. Enfraqueceu-se espiritualmente. Coisas que descobri quando tive que me mudar de novo, ou seja, fazer urgentemente, ainda este ano, a segunda mudança para um apartamento com aluguel mais barato (já que meu parco orçamento não daria para pagar nem o aluguel do Montese nem o do d’Orsy, no Leme).
 
Ivan tinha várias plaquetes feitas por Fernando Mascarenhas, o Marquês da Fronteira, de “A Rainha Arcaica”, com o símbolo do Palácio da Fronteira. E também plaquetes das “Três meditações na corda lírica”. Estas plaquetes, cerca de 70 a 100 (não as contei) estavam numa caixa de mudança fechada, como eu viria a descobrir ao me mudar para a Usina e ver, para mim grande surpresa, a palavra PLAQUETES escrita no verso de uma caixa, com a inesquecível letra do Ivan, abri-la intrigada e dar de cara com as pequenas publicações branquinhas e enfileiradas como carneirinhos…NÃO ABRIU A CAIXA porque não tinha onde guardar as plaquetes…não tinha armário no novo escritório…só lugar para estantes e para a mesa dele. E também não tinha onde guardar o papel timbrado da Academia.
 
Estava guardado dentro de uma pasta escolar, que provavelmente ficava com ele, debaixo da mesa. É de cortar os pulsos, não é, não? Que Deus guarde meu poeta junto a si com muito carinho, é o que desejo, e que lhe presenteie nos Campos Elísios com um imenso escritório onde possa se dedicar às suas traduções, seus ensaios, sua magnífica e dolorida poesia…

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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2 Comentários
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  1. natanferreira_

    27 de setembro de 2014 2:09 pm

    Que homenagem mais sem pe nem

    Que homenagem mais sem pe nem cabeca. Se isso eh poesia, detesto poesia.

  2. Maria Luisa

    27 de setembro de 2014 7:57 pm

    Ternura

    Eh, às vezes ja é tarde quando nos damos conta… Fiquei curiosa em conhecer a obra de Ivan Junqueira, o qual conheço apenas o nome. 

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