4 de junho de 2026

PRE-SAL: UM DEBATE SÉRIO E URGENTE

 

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Ildo Sauer: Pré-sal será partilhado entre as elites brasileiras

Uma boa entrevista de Ildo Sauer a Valéria Nader e Gabriel Brito, no Correio da Cidadania. Eu, Azenha, acredito ser essencial desenvolver uma crítica à esquerda do governo Lula:


‘Lula consolidou o capitalismo e instrumentalizou o Estado no Brasil’
ESCRITO POR VALÉRIA NADER E GABRIEL BRITO, DA REDAÇÃO   
12-NOV-2010

 

Com a confirmação no segundo turno da eleição de Dilma Rousseff, o país se prepara para viver a etapa pós-Lula, o pai dos pobres que deixou a presidência com consagradora aprovação, inclusive daqueles que um dia ameaçaram abandonar o país caso o operário chegasse ao Planalto.

 

Para analisar a vitória petista e o que se pode esperar do futuro brasileiro, o Correio da Cidadania entrevistou Ildo Sauer, do Instituto de Eletrotécnica e Energia da USP e ex-diretor de Petróleo e Gás da Petrobrás na gestão de Lula até 2007. Para explicar como Lula “consolidou a hegemonia do capitalismo sobre as relações sociais e de existência”, vai às vísceras da política nacional, desnudando o seu funcionamento no “pós-mensalão” e a partilha das riquezas nacionais entre os mesmos setores privilegiados de sempre.

 

Para sustentar tamanha metamorfose em relação ao projeto original petista, Ildo aponta como Lula soube instrumentalizar o aparelho estatal, avalizando o apoderamento da máquina pública, a partir de inusitados formatos, por representantes de grandes grupos econômicos. “Entregar de 2,6 a 5,5 bilhões de barris de petróleo e uma hegemonia tecnológica do núcleo da Petrobrás ao Eike, sem nenhuma resistência, foi algo brutal contra o interesse público. Portanto, são vários formatos de privatização”.

 

Ildo faz um importante alerta: a ‘nova cartada’ na ‘partilha’ do patrimônio público vincula-se ao Pré-Sal, a partir do ‘poder autocrático e unilateral do presidente’, ao lado da desmobilização e cooptação de grande parte do movimento social. Situação que remeteria a uma mistura entre os processos vistos no México – onde o PRI (Partido Revolucionário Institucional), que ficou no poder entre 1917 e 1994, instrumentalizou a riqueza do petróleo – e na Argentina – com um sindicalismo na gaveta do Estado, cujo papel se restringe a dar legitimidade social ao governo, que, em troca, atira os restos do banquete em forma de assistencialismo.

 

Apesar de lamentar seu pessimismo ao final da conversa, e como alguém que participou diretamente da gestão Lula, o engenheiro não fez concessões para descrever as engrenagens da política brasileira, inclusive desvelando a futura esterilidade da Lei da Ficha Limpa. Terminou com uma autocrítica de quem partilhou dos sonhos dos anos 80.

 

Correio da Cidadania: Como encarou o período eleitoral, os debates que foram levados a cabo, culminado com a vitória de Dilma Roussef nessas eleições?

 

Ildo Sauer: De certa forma, a campanha eleitoral acabou sendo resolvida em parte pela longa metamorfose pela qual o governo Lula passou. Logo em seu início, quando liderava um governo hegemonicamente do PT, veio a Carta aos Brasileiros, a fim de garantir algo que era razoável – estabilidade econômica, tranqüilidade social, pois se esperava um processo de profundas mudanças por parte dos mercados. Uma carta que, portanto, tornava o governo aparentemente aceitável para alguns segmentos como estratégia de transição.

 

Evidentemente, todo mundo concordava com a necessidade de estabilidade da moeda, redução do processo inflacionário, já que o sistema capitalista de produção ainda seria hegemônico de qualquer maneira e por longo tempo, e isso tinha de ser mantido. Mas progressivamente, após 2003, 2004 e 2005 passarem tranqüilos, apareceu a ironia de o sucesso do Lula ser o anti-Lula, o avessso de si mesmo, o que foi percebido pelo mercado, pelo sistema financeiro internacional e pela burguesia nacional. Então, o anti-Lula, que de fato residia dentro do Lula, garantiu a estabilidade, sendo seu próprio fiador, à medida que revelou como líder aquilo que alguns já tinham percebido em seu entorno, mas que não estava claro: o partido passou a ser secundário, e a figura carismática de Lula ficou como fiadora das expectativas da burguesia, ao mesmo tempo em que era profundamente donatário e depositário das esperanças do processo construído ao longo de décadas em torno do PT, da mudança.

 

O processo que ele conduziu foi o de garantir as expectativas de grande retorno ao capital financeiro, via juros, aparelhamento das empresas públicas, BNDES, para manter a taxa de investimento, numa transformação da estrutura produtiva brasileira que se manifestou em vários campos hegemônicos. Criou-se uma petroleira brasileira que faz sombra à Petrobrás – a OGX de Eike Baptista; a petroquímica ficou em torno do grupo Odebrecht; nas telecomunicações, após uma disputa quase de faroeste, com espionagem, dois ministros envolvidos, fundos de pensão, terminou por hegemonizar o grupo Telemar, encastelado no grupo Jereissati e Andrade Gutierrez, com a coincidência, ou não, de seu principal executivo ser amigo de infância da nova presidente; nas obras de infra-estrutura, o BNDES consolidou outros grupos econômicos com hegemonia no Brasil e exterior, nas áreas de agronegócio, carnes, frigoríficos. Há a Vale, que vinha do governo FHC, mas no fundo o Lula criou um monte de Vales; instrumentalizou os fundos de pensão, as estatais, o BNDES e outros bancos para financiar tais ações. E mais ainda: hegemonizou um protagonismo na África, América Latina, de grupos econômicos como vendedores de equipamentos, obras de infra-estrutura, hidrelétricas, rodovias e outros projetos financiados pelo BNDES. Uma espécie de sub-imperialismo.

 

Com isso, a agenda do PSDB – a chamada social-democracia que na prática implementou todos os cânones do neoliberalismo hegemônico dos anos 90 – foi seqüestrada pelo Lula. Lula seqüestrou a agenda da burguesia, mantendo e ampliando os espaços abertos pelo governo tucano, e ao mesmo tempo se manteve depositário da esperança de um processo longamente construído.

 

Assim, nestas eleições, havia pouco espaço para uma candidatura legitimamente de esquerda ser ouvida pelas bases, pois ainda há toda essa herança construída de esperança e transformação, ainda formalmente depositada pela população no PT. Isso é demonstrado pelo voto. De onde veio a grande vitória do governo? De regiões que antigamente eram chamadas pelo depreciativo nome de grotões. Mas hoje não existe esse tipo de coisa na democracia, os votos têm o mesmo valor.

 

É bom observar tais ondas da percepção política. Na ditadura, o MDB, que liderou a resistência eleitoral a ela, se tornou hegemônico nos grandes centros urbanos, progressivamente encurralando a ARENA a regiões periféricas. Veio o PT e o solavanco da social-democracia, varrendo o PMDB pra periferia e tomando seu espaço nos centros urbanos. Agora, é interessante ver o misto: a hegemonia do PT voltou a essas regiões periféricas, com menor grau de desenvolvimento e acesso ao processo de consumo e renda.

 

Enquanto isso, criou-se nos grandes centros a onda verde, do discurso ambiental, de sustentabilidade, mas sem conteúdo fortemente social, problema básico do país. E ao mesmo tempo, veio o ressurgimento do discurso conservador – numa social-democracia, do ponto de vista teórico, expresso pelo PSDB. No limite do pouco que PT e PSDB expressam programaticamente, o PT em tese é social-democrata, mas muito mais operador da máquina – levou-nos a um discurso um pouco mais populista contra outro um pouco mais elitista, com pequenas nuances na forma de abordar o Estado. Não vejo muita diferença entre privatizar uma empresa ou instrumentalizá-la em favor dos interesses privados. Portanto, nesse sentido, os projetos são parecidos, tanto que não geraram entusiasmo.

 

Correio da Cidadania: Os votos nulos, brancos e abstenções nesta eleição são significativos deste quadro que o senhor ressalta, de mais semelhanças do que diferenças entre os blocos de poder representados por PT e PSDB?

 

Ildo Sauer: Sim, é importante notar, para simplificar essa análise inicial: os votos brancos, nulos e abstenções atingiram 28%, dentro de um eleitorado de 135 milhões. O candidato que ficou em segundo, teve 32%; 32 mais 28, já se vão 60%, enquanto os restantes 40% ficaram com a candidata vencedora. De modo que esse é o quadro resultante da longa metamorfose do projeto que nasceu socialista e progressivamente virou gestor dos interesses da burguesia nacional, do setor financeiro, industrial, do setor contratista de obras públicas, expressos no Brasil e no exterior. A grande diferença para o PSDB é que o PT ainda conta com a enorme confiança e esperança dos setores mais distantes, das cidades mais periféricas e mais pobres. O futuro mostrará, no entanto, as semelhanças entre ambos os partido, à medida que o debate evoluir e isso for decantado, com a transparência e capacidade de mobilização aparecendo. Os movimentos sociais têm uma clara identificação histórica, assim como as regiões que citei, com o PT. O movimento ambiental se ancorou na Marina, mas se dividiu. Esse é o quadro brasileiro.

 

Para definir, o governo Lula foi aquele que consolidou as relações sociais de existência e de trabalho capitalistas com a hegemonia capitalista no país. Até Lula chegar ao poder, havia a dúvida se aqui poderia nascer um experimento de caráter social-democrata, mas profundamente transformador, que apropriasse socialmente os excedentes econômicos provenientes das rendas, com controle público sobre o petróleo, telecomunicações, potenciais hidráulicos, sobre tudo que é patrimônio da nação, inclusive a terra, cujo resultado econômico seria apropriado para fins públicos. Mais do nunca, vemos uma privatização e internacionalização da terra; ao invés de fazermos a reforma agrária, nós estamos internacionalizando cada vez mais o agronegócio e o acesso à terra.

 

Portanto, o governo Lula foi o que consolidou o capitalismo no Brasil, gerando a tal falta de diferença na campanha.

 

Era nítido que todos procuravam mostrar quem tinha feito mais disso ou daquilo no passado. Mas não se discutiu a reforma da educação, necessária, com conceito e amplitude, horizontalização; não se discutiu a reforma agrária, que ficou escondida; não se discutiu a reforma urbana, a questão da moradia, do planejamento, abarcando onde as pessoas vivem, trabalham, circulam, enfim, a mobilidade de um transporte público de qualidade; não se discutiu a questão da reforma da saúde, e não há um brasileiro que queira estar submetido ao nosso sistema de saúde público, muito bem concebido e mal implementado. Ninguém deseja circular nos transportes públicos nas grandes metrópoles; ninguém acredita que a proteção ambiental hoje, da qualidade do solo, ar e água nas cidades e em termos globais, seja aceitável; ninguém está satisfeito com o volume de investimento em ciência, tecnologia e pesquisa.

 

E, no entanto, o país parece feliz, o que é um paradoxo. De onde vem isso? Creio que da pequena sensação de bem estar, promovida por uma conjuntura econômica, externa e interna, favorável.

 

Com a situação pós 2ª. Guerra, a visão cepalina da economia, de Celso Furtado e tal, denunciava o subdesenvolvimento em parte como produto da deterioração dos termos de troca, em que a produção primária – essencialmente minérios, agricultura –, por ser de baixo grau de manufatura, exportada pelos países latinos, se defrontava com o enorme valor atribuído às importações de produtos de maior conteúdo tecnológico e industrializados.

 

Houve uma reversão desse processo comandada a partir do dinamismo da economia chinesa, que passou a ter a necessidade do afluxo de alimentos, matérias-primas etc., para poder incorporar 40, 50 milhões de chineses todos os anos ao processo modernizado de produção, saindo da atividade camponesa, braçal, de baixo nível de apropriação energética, para o nível de produção industrial urbanizada. Portanto, acho que essa situação da China e da Ásia comandou tal transição, fazendo sua revolução industrial e urbana, iniciada nos anos 70, com uma grande quantidade de empresas estatais planejando estrategicamente e implementando. Na China, a renda da terra não existe. Os solos urbano e rural pertencem ao Estado. Assim, o preço da terra e da moradia, como custo de reprodução da força de trabalho, são bem menores, propiciando o acúmulo de enormes excedentes.

 

O dinamismo chinês, e em parte indiano também, permitiu, mesmo com a crise de 2008 que afetou Europa e EUA, que não se afetasse a valorização progressiva dos produtos primários brasileiros. Porém, ao mesmo tempo, assistimos à deterioração da nossa balança de pagamentos, porque a taxa de câmbio é muito valorizada em função da alta taxa de juros, devido à necessidade de atrair dólares para nossas reservas – as quais, por si só, já custam muito, pois implicam em ampliação da dívida pública interna para a compra e manutenção dessas reservas, com um custo de 12% ao ano sobre os 270 bilhões de dólares de reservas. A dívida pública não pára de crescer desde o governo FHC, já tendo alcançado R$ 2,2 trilhões, parcela significativa do PIB, de maneira que tal quadro deixa a preocupação com a desindustrialização futura.

 

De qualquer maneira, tal período de prosperidade comandado por essa conjuntura internacional foi determinante para a pequena sensação de bem estar, que permitiu dar um pouquinho mais para os que nada tinham, e muito mais para aqueles que já tinham muito, configurando a partilha do governo Lula, consolidando definitivamente as relações sociais capitalistas e abafando a expectativa de um movimento social que propunha outro quadro. É isso que foi revelado. O discurso tradicional da esquerda foi seqüestrado, e de certa forma também foi seqüestrada a prática da direita. E o Lula, com uma mão de cada lado, emplacou sua candidata, ainda que de forma muito mais apertada do que podia supor a dita popularidade de seu governo.

 

Assim, o que vejo no próximo governo é o aprofundamento do capitalismo nessa trajetória e, a partir daí, talvez, um espaço para o novo debate. É a minha percepção.

 

Correio da Cidadania: Portanto, Dilma levará adiante o legado de Lula, reforçando as tendências neoliberais, como a continuidade da política econômica, ao lado das tendências sociais/assistenciais do governo Lula, com eventual ampliação do Programa Bolsa Família.

 

Ildo Sauer: É muito claro. Mais assistencialismo, mais Bolsa Família, quando o caminho necessário para mudar a sociedade é criar autonomia, promover independência, que só se faz com as reformas da educação, urbana, da mobilidade, agrária, da infra-estrutura… Falo reforma, não revolução; reestruturar o que existe, dando novos sentidos, direção e conteúdo.

 

Como o produto social é único no PIB, é preciso escolher em que direção vão os recursos, que caminho teremos. E o que está aí é mais do mesmo. Grande parte da poupança é canalizada pelos bancos públicos, e muito pouco se reverte em investimento público, como se viu, por exemplo, no programa Minha Casa Minha Vida. Todos reconhecemos a enorme carência da habitação, mas não só isso. Além de casa, as pessoas precisam de transporte, escola, morar menos distantes do trabalho… A reforma urbana tem de ser mais ampla.

 

E o que esse programa engendrou? Um enorme movimento de especulação imobiliária, em que a renda do solo urbano acabou enriquecendo pequenos grupos especuladores. E mais ainda: hoje temos uma longa ironia sobre a promessa de ‘minha vida’ e ‘minha casa’. O que se criou? Dinheiro dos fundos públicos, dos fundos de garantia, do FAT, que são poupanças mandatórias da força de trabalho e que recebem uma remuneração abaixo do valor capitalista, de 3% ao ano de juros sobre o fundo de garantia, sendo apropriado pela Caixa, que empresta esse dinheiro muitas vezes a empresas estrangeiras, muitas das quais fracassaram no mercado imobiliário dos EUA e agora estão aqui. Elas tomam esse dinheiro, compram a força de trabalho dos trabalhadores, construindo a casa com a força de trabalho e a poupança deles, com mediação dos bancos e lucro enorme, terminando por criar uma dependência de 20, 30 anos do trabalhador com as prestações sobre aquilo que foi uma valorização extraordinária do capital originalmente do próprio trabalhador, que o poupou compulsoriamente via fundo de garantia.

 

Nesse caminho, o que houve? A especulação do solo urbano, que explodiu de preço, um sobrepreço enorme no custo do trabalho incorporado aos insumos e mão-de-obra. Aí se expressa o verdadeiro caráter capitalista desses projetos ditos sociais. Há outros modelos, desde os mutirões, cooperativas e uma estrutura planejada, com o planejamento urbano retomado da localização urbana em relação à escola, trabalho, planejando também a mobilidade.

 

De repente, isso permitiria não soltar da garrafa com tanta força o espírito da especulação e da acumulação quase primitiva sobre o solo urbano e a construção. Digo isto pra mostrar como projetos que ancoraram grande parte da aprovação ao governo são na verdade mais do mesmo, significando cada vez mais acumulação capitalista para quem controla os meios. E, claro, enquanto a economia continuar crescendo, haverá uma sensação de bem estar.

 

Podemos dizer que temos um enorme peleguismo político, para não chamar de populismo, paternalismo, agora maternalismo. A única solução é a busca de um grande debate de projeto nacional, sobre quais as propostas concretas para as reformas citadas anteriormente, os planos de proteção ambiental e, acima de tudo, para o setor do mais extraordinário excedente econômico: as rendas do petróleo e o setor de energia, temas varridos pra baixo do tapete, que só voltaram à campanha após provocações de gente externa, que mostrou claramente que o rei estava nu, pois ambos se acusavam de privatistas e ambos estavam corretos.

 

O governo FHC iniciou a entrega do petróleo como um todo, dando razão a ambos em suas acusações – e não se pode diferenciar o petróleo do Pré-Sal daquele das demais camadas, pois são qualitativamente pouco distintos, com diferença raramente acima de 10% em seu valor; portanto, tanto faz 60 ou 70 dólares no preço do barril, pois de toda forma são valores astronômicos. O governo Lula exerceu por muito mais tempo, e talvez com mais gosto, o modelo de concessões criado por FHC, e no final propôs uma mudança já obsoleta, a da partilha, ao invés de um novo modelo.

 

O que está no horizonte (aliás, a grande ameaça política que vejo ao país)? Se olharmos as experiências de México e Argentina, vemos dois paradigmas que inspiram cautela com o futuro. Se houver um crescimento econômico, a tendência é que a “pax lulensis”, da mão direita grande e esquerda pequena (mas que afaga o coração e a consciência dos mais humildes com redistribuição), se mantenha e o capitalismo floresça no Brasil. Se houver crise, o governo talvez lance mão de um recurso que remete à história mexicana… O México fez uma revolução muito sangrenta no início do século passado, que se institucionalizou no chamado processo da Constituição de 1917; em 1938, a nacionalização do petróleo e a criação da Pemex passaram a gerar um fluxo de excedente econômico comandado pelo Estado e pelo PRI, que o permitiu ficar no poder de 1917 a 1994, quando, por corrupção, exaustão e crise econômica, acabou varrido por um governo mais conservador ainda. A partilha do excedente econômico do petróleo mexicano é algo que está no horizonte e merece atenção, porque o Projeto de Lei que tramita no Congresso delega ao presidente ouvir do conselho nomeado também por ele a definição sobre quase tudo que será feito; o ritmo em que o Pré-Sal será colocado em partilha, quem vai participar do processo e quem vai dirigir tudo.

 

Nesse sentido, a experiência mexicana é o exemplo de como a apropriação do lucro do petróleo, comandada pelas instâncias do governo, permitiu uma partilha entre as elites, fortalecendo-as e mantendo-as no poder. Ao mesmo tempo, temos um movimento sindical no Brasil que perdeu seu rumo classista histórico; teve um período de discurso socialista de enfrentamento ao capitalismo, mas busca hoje a conciliação, à semelhança da Argentina, onde a principal tarefa das grandes centrais e sindicatos – que se enfrentam mutuamente, mas se abrigam no governo, que lhes dá recursos, espaço político, mantendo a corrente sindical ativa – é conferir uma aura de legitimidade social aos governos.

 

Portanto, se olharmos as duas experiências, podemos vislumbrar a enorme dificuldade, mesmo em situações de crise daqui pra frente, que a esquerda brasileira terá em se reorganizar, pois está claro que o atual governo não é mais de esquerda; seqüestrou boa parte do discurso de esquerda, mas sua prática é nitidamente conservadora.

 

Dessa forma, é o desafio que sobra: compreender o que está em jogo, buscar, talvez, uma frente de esquerda e amplificar os debates públicos. Uma frente que, a exemplo de outras ondas, consiga se multiplicar, para, na medida em que as contradições ficarem mais claras, se agrupar em uma iniciativa política.

 

Acho que a esquerda, com seus méritos específicos, está muito fragmentada, em muitos partidos. Creio ser hora de pensar, como saída para o debate, e o atual quadro de enfrentamento, numa frente de esquerda que abrigue tais partidos, abrindo discussões sobre todas as questões em jogo, elaborando propostas concretas em torno dessas reformas e de como apropriar socialmente os recursos, disputando-os com o governo de turno. Certamente, se não houver tal pressão, a partilha será pior ainda, e creio que esse é o nosso papel.

 

Correio da Cidadania: Acredita, de todo modo, que a futura presidente possa, de alguma forma, caminhar do foco mais assistencialista das políticas sociais sob o governo Lula – a exemplo do Bolsa Família – para um programa mais abrangente de distribuição de renda – incrementando, por exemplo, as políticas de valorização do salário mínimo e se contrapondo aos aspectos do projeto de reforma tributária, já em fase de discussão no Congresso, e que são prejudiciais à seguridade social?

 

Ildo Sauer: A campanha eleitoral deixou como ironia paradoxal um xeque-mate no governo que entra. A partir do momento em que a oposição conservadora propõe aumento do Bolsa-Família e do salário mínimo, o governo entrante não terá outra saída a não ser acompanhar a idéia. Paradoxal que tenha vindo do movimento conservador essa proposta de redistribuição. O alcance vai depender das contas públicas, da dívida pública e da taxa de juros extremamente elevada, promovendo uma dilapidação do valor do trabalho, na medida em que os impostos são arrecadados e encaminhados para bancar a usura do sistema financeiro, já que temos uma das taxas mais altas de remuneração financeira do mundo.

 

Nos EUA, tem até um movimento em curso de aumento da liquidez com injeção de dólares a custo muito baixo. É uma tendência natural que parte significativa desses dólares saia, chegue ao Brasil, aprofunde a queda da taxa de câmbio daqui, aumente as reservas, ou venha fazer investimentos como comprar terras, desnacionalizar mais empresas na área econômica, eventualmente até para forçar o governo a abrir mais espaço a empresas estrangeiras na exploração do petróleo, quando o projeto devia ser o contrário.

 

Devia se proceder a um maior conhecimento e delimitação das reservas e só produzir petróleo no ano para custear os investimentos das reformas da saúde, urbana, educacional, da infra-estrutura, mobilidade (inclusive de longa distância), agrária, viária, dos portos, da proteção ambiental, de ciência e tecnologia. E ficar com uma reserva de petróleo de valor debaixo da terra, não sendo administrada por uma oligarquia política que vai disputá-la a ferro e fogo dentro dos conceitos que descrevi antes. Não acredito que não haja nenhum investimento.

 

Há uma pressão no modelo que o governo discute agora de promover uma rápida licitação dos contratos de partilha, para abrir espaço econômico de investimentos em plataformas e infra-estrutura, capturar finanças e converter tudo em dinheiro. Tirar o petróleo debaixo da terra e convertê-lo em dinheiro.

 

Nesse processo, todo mundo vai ganhar. O governo vai acumular algum capital financeiro lá fora no fundo social, não se sabe em que moeda, porque todas estão em xeque hoje. Vão investir em títulos da dívida americana? Em euro, que não tem muita estabilidade, em função de sua credibilidade não estar ancorada em nenhum tesouro nacional (é uma confraria que tem uma moeda)? E os EUA estão em franca decadência. Em que moeda vamos verter o petróleo, em que país, na América Latina, África, EUA, Europa? É muito mais simples deixar o petróleo debaixo da terra e só produzir o volume necessário!

 

Correio da Cidadania: E controlar de verdade a exploração.

 

Ildo Sauer: E, antes disso, saber quanto tem de reserva, pra saber em que ritmo produzir ao longo do tempo. Por duas razões: em primeiro lugar, para tirar de lá apenas o excedente econômico necessário ao financiamento do projeto nacional de desenvolvimento econômico e social nos paradigmas que acabei de citar; e, em segundo lugar, para poder participar. O governo brasileiro não pode criar motos-contínuos, que, uma vez assinados os contratos, vão cumprir as etapas automaticamente.

 

Encontrou petróleo? Vão fazer o plano de avaliação, saber se é comercial, e, se for, vão começar a produzir e, o mais rapidamente possível, converter em dinheiro, no interesse daquele contrato. Isso se choca com a necessidade de ver qual o volume de reservas disponíveis para financiar as prioridades nacionais e, em segundo lugar, com o controle da participação brasileira no mercado internacional. Porque, sem o Pré-Sal do novo modelo, a produção anunciada hoje, só pela Petrobrás, prevê quase 6 milhões de barris por dia em 2020. Só por parte de outro empresário, que recebeu desse governo em 2007 o volume que agora já está entre 2,5 a 5,5 bilhões de barris, valendo de 27 a 55 bilhões de dólares como patrimônio, já se anuncia que em 2019 estará sendo produzido 1,4 milhão de barris por dia, sendo que a Petrobrás não produz 2 milhões atualmente.

 

E vão exportar tudo que se refere ao que está fora do novo modelo do Pré-Sal, mas como parte do que FHC e Lula entregaram. O Brasil vai ser o 3º. maior exportador do mundo. Em primeiro lugar, vem a Arábia, com 10 milhões de barris/dia; depois a Rússia, com 8 milhões; o Brasil estará em mais de 5 milhões de barris possivelmente em 2020, enquanto os demais não passam de 4 milhões. Isso apenas com o que se tem hoje entregue somente a dois grupos, Petrobrás e OGX, leia-se Eike Baptista – fora os outros que estão entrando. E note bem que este grande empresário já resolveu ser parcimonioso. Deu 1 milhão de reais pra cada campanha, de Serra e de Dilma, dizendo ser necessário não ser mal tratado por nenhum dos dois.

 

Desse modo, veja como é grave o risco da mexicanização. Uma enorme economia petrolífera, comandada por um governo na forma como vem se configurando: um condomínio de partidos e líderes com parca, digamos assim, capilaridade entre as forças sociais, e, ao mesmo tempo, sob pressão, do outro lado, dos grandes grupos econômicos, com enorme capacidade de influência.

 

Para quem produz tantos bilhões de barris, e sabendo como é comprável o financiamento das campanhas eleitorais e a lealdade dos eleitos a esses interesses – dentro do conceito second life, do discurso público diferente da prática nas entranhas do poder -, este é o caminho.

 

Correio da Cidadania: Isso é o mais impressionante. Hoje em dia o sujeito afirma abertamente o que pode ser entendido, sem distorção alguma, como a ‘aquisição particular’ do mandato – ironicamente, privatização do próprio parlamentar. Paga-se a propina na campanha e alguns interesses privados são escancaradamente atendidos por sobre outros.

 

Ildo Sauer: Essa é uma parte das questões políticas e econômicas que se colocam, porque no fundo eu vejo as limitações, no atual estágio da sociedade brasileira, de um partido que no discurso mantenha a realidade, mas com propostas práticas. Veja que até agora só falei de reforma, não de revolução, pois não vejo espaço para tanto. Talvez não fosse um sonho, mas não vejo como possível. Nem essas reformas estão na agenda! Essa é a tragédia resultante da consolidação da hegemonia política.

 

Por isso que PT e PSDB, que teoricamente teriam essa convergência social-democrata, mutuamente se excluem. Eles não querem um projeto, querem um espaço de poder, para manejar os recursos econômicos e serem gestores e líderes dessa partilha. Não há espaço para ambos fazerem a mesma coisa, que não é a reforma social-democrata. É gerir o capitalismo tal como ele está, com sua crueza, virulência, mascaramentos, contradições.

 

Nesse sentido, o processo político brasileiro lamentavelmente está subordinado à hegemonia dos grandes grupos econômicos, que estão se convertendo em meros síndicos do grande condomínio econômico. Como disse, o governo Lula avançou ao consolidar grandes grupos brasileiros dos vários campos da economia.

 

Consolidou alguns bancos, com fusões, principalmente após a falência de vários deles em 2008. Na área de eletricidade, o grupo Rede e a Camargo Correa ficaram hegemônicos na distribuição, grupos europeus e nacionais na transmissão e as estatais do sistema Eletrobrás foram convertidas em muletas voltadas a dar confiança às empreiteiras e ao capital privado. Tanto que a tarifa elétrica hoje é uma das mais caras do mundo ao consumidor cativo, e uma das mais baratas do mundo para os 600 consumidores privados do mercado dito livre, mas que na verdade é apenas usurpador. Na área da petroquímica, a Braskem se tornou hegemônica, com a Petrobrás servindo de âncora, por imposição do governo. Na área do petróleo, o caso mais notório é o da OGX, mas há outros grupos nacionais e internacionais crescendo muito aqui, na única das três grandes fronteiras mundiais do petróleo que lhes permite.

 

Além disso, o grande patrimônio brasileiro hoje na área de petróleo é duplo. De um lado, os recursos naturais estão debaixo do sal e da terra, valendo quase o mesmo. A organização social capaz de convertê-los em riqueza quando necessário e a Petrobrás estão, ambas, sendo alvo dessa mediação da entrega. Como exemplo, a OGX, como já ressaltado, criada em meados de 2007 – informação já confirmada pelo governo -, com ajuda de ex-integrantes dos governos Lula e FHC, arrancou lucros estratégicos sem nenhuma resistência e ação do governo. E logo depois de comprar os blocos em novembro de 2007, vendeu 38% das ações por 6,7 bilhões de reais, 11 meses depois de criada.

 

Portanto, ela já valia 17 bilhões e, ao fazer os primeiros furos, conforme previsto e denunciado previamente em 2009, já anuncia reservas de 2,6 a 5,5 bilhões de barris. E cinco bilhões de barris equivalem a tudo que o governo incorporou da Petrobrás pra aumentar seu capital, no valor de 42 bilhões de dólares hoje. O valor de mercado hoje seria dessa ordem, o que colocou um senhor como o mais rico do Brasil e um dos mais ricos do mundo, tornando-o generoso em filantropia. Vai às favelas, duplica a generosidade do presidente da República, ao arrematar o seu terno de posse em um leilão por 500 mil. E ainda o devolve ao presidente, dobrando a aposta. Vai ao Teatro Municipal e vira mecenas da arte e cultura, com migalhas do que herdou num lance articulado nos bastidores do governo, que não reagiu.

 

Esse é o indicador claro do risco que falo da articulação em torno do petróleo como mecanismo aglutinador de forças e recursos para manter a hegemonia político-eleitoral. É um exemplo concreto e aconteceu agora. Os mesmos atores estão vivos, reavivados e abençoados nas urnas.

 

Correio da Cidadania: Em entrevista ao Correio, o sociólogo Chico de Oliveira afirmou que, na medida em que o governo Lula tem consolidado no Brasil o ‘capitalismo monopolista de Estado’, chega a ser mais privatizante do que o de FHC. Ao mesmo tempo, o senhor ressaltou há pouco que não há muita diferença entre privatizar uma empresa ou instrumentalizá-la em favor de interesses privados, e que está se consolidando no Brasil uma partilha do espaço produtivo entre grandes grupos econômicos, entre eles Camargo Corrêa, Odebrecht, Eike Baptista, sob patrocínio do governo e com a ajuda do BNDES e dos fundos de pensão. Essas duas assertivas não estão bem associadas entre si?

 

Ildo Sauer: Sim, e caso não haja uma resistência popular organizada, com capacidade de entendimento da dimensão política, compreendendo que uma onda de mudança hegemonizada pelo PT não mais está em curso – em função da metamorfose do partido –, corre-se um sério risco de se consolidar esse curso econômico.

 

Mas os movimentos sociais ainda estão presos a isso, e é difícil recriar e mudar tal compreensão. É o desafio político: ter uma proposta e a capacidade de fazê-la compreendida em seus conceitos pelas bases, os verdadeiros interessados, ou seja, os trabalhadores, os grupos sociais, estudantes, todos aqueles excluídos da grande festa; aqueles que habitam a senzala da esperança, enquanto a Casa Grande faz a festa. E o padrinho, e também a madrinha, tem uma mão muito gentil na Casa Grande, enquanto a outra, pequenina, apenas acaricia o povo que mora na senzala.

 

Correio da Cidadania: O grande patrimônio brasileiro na área do petróleo está, como dito pelo senhor, submetido a uma mediação perversa para entrega a grandes grupos econômicos. Haveria alguma chance, mínima que fosse, de a presidente eleita negociar a volta do monopólio do petróleo, revertendo a Lei 9478/97 de FHC – já que se trata de uma reivindicação de vários movimentos sociais, bem como de estudiosos, que consideram que a substituição do modelo de concessão pelo de partilha da produção não é satisfatório, já que o setor privado continuará com presença maciça e determinante?

 

Ildo Sauer: Essa discussão tem dois papéis. Um de tentar de fato retomá-la, porque tecnicamente é possível se apropriar do excedente econômico do petróleo por vários meios: tributários, sobre a partilha, imposto de renda, há vários mecanismos. Mas o problema é que, embora possíveis tecnicamente essas várias apropriações, quem controla a reserva outorgada, quem controla a produção na partilha ou concessão, tem um poder econômico enorme na mão pra convencer o governo e o Congresso, como ficou claro nessa eleição e com o que já foi entregue. Isso está patente e claro!

 

Por isso a defesa do monopólio, da necessidade de delimitar, certificar e conhecer as reservas, definir publicamente o debate do ritmo de produção, do que fazer e onde aplicar o excedente econômico, em que reformas sociais. E tal idéia pode se tornar hegemônica, pois também tenho percebido nos vários campos estudantis, de operários, profissionais liberais e até de empresários, que, quando compreendem o que está em jogo, refloresce a idéia da necessidade do controle político da sociedade sobre esse recurso. Não é questão que se delegue a qualquer governo eleito, pois o transcende. Portanto, esse é um discurso que acho que chama a atenção e permite mobilizar parte da sociedade.

 

O outro ponto é a destinação, sem dúvidas. Todo mundo reconhece a necessidade da reforma da educação, da saúde, urbana, da mobilidade, da recuperação ambiental, do aprofundamento da ciência e tecnologia, de toda a infra-estrutura de circulação da produção nacional. É uma agenda que, conciliando os dois debates, pode mobilizar as forças. Mas não seria tarefa fácil. Até porque temos de reconhecer que qualquer governo tem um ano de graça, a não ser que aconteça um escândalo muito grande ou uma desgraça, o que é improvável.

 

Correio da Cidadania: Um governo Serra não seria, nesse sentido, ainda mais privatizante do que o governo Dilma poderá ser no que diz respeito ao nosso petróleo – afinal, ex-ministros do governo FHC criticam explicitamente a substituição do modelo de concessão pelo de partilha, sob o argumento de que o Estado não tem condições de levar adiante os investimentos astronômicos necessários ao Pré-Sal?

 

Ildo Sauer: Eu não afirmaria isso porque acho que ambos foram privatizantes. O que mudou foi o instrumento, a modalidade e a configuração da privatização. Entregar de 2,6 a 5,5 bilhões de barris de petróleo e uma hegemonia tecnológica do núcleo da Petrobrás a um grupo privado, sem nenhuma resistência, foi algo brutal contra o interesse público. Portanto, são vários formatos de privatização.

 

O que deve ser discutido é como o excedente econômico e a riqueza nacional são colocados a serviço das elites, e como poderiam ser colocados a serviço das reformas fundamentais na sociedade, pra criar a autonomia de todos os brasileiros.

 

Não vou ser repetitivo, mas é que se desgastou muito o debate da educação, saúde, nas eleições. “Sou o gerentinho que vai fazer tantas APAS, AMAS, Escolas Técnicas, não sei o que…”. Cadê o conteúdo do debate? O SUS como conceito é excelente, mas está às traças. Basta dizer que poucos brasileiros que têm condições de evitá-lo se submetem aos seus serviços. Lamentável, mas é a tragédia do Brasil. A primeira delas, a educação.

 

Nesse sentido, são dois formatos semelhantes da mesma prática. Com nuances diferentes, mas conteúdo semelhante, e conseqüências também semelhantes. Interessante que tanto os grupos financeiros como empresariais são os mesmos, o que denota claramente que esse é um governo a serviço dos interesses dos grandes, como seria o outro, um com um estilo mais populista, outro mais elitista, o que é a grande diferença entre eles.

 

Evidentemente, para o grande empresariado e a burguesia, o governo sucessor do Lula é melhor, pois tem mais aceitação popular, além da confiança de tais setores, o que se cristalizou nas eleições. Eles devem estar muito felizes, pois fizeram a aposta certa. Tudo que vier de fora de tal expectativa será da mobilização popular, o que é uma tarefa gigante que se coloca diante daqueles que ainda têm uma concepção de sociedade diferente da que hoje é hegemônica – não no discurso, mas na prática real.

 

Correio da Cidadania: Pensando no setor elétrico, citado pelo senhor, o governo Lula tinha entre seus objetivos iniciais uma reorientação do modelo do setor relativamente ao modelo privatista de FHC. Vários estudiosos entrevistados por este Correio confirmam sua avaliação de que esse objetivo foi alcançado de modo muitíssimo limitado, na medida em que continuam a prevalecer grandes consumidores e sua lógica de lucro, a descapitalização das estatais e a influência de interesses de poderosos setores eletro-intensivos sobre o governo. Como ficará, a seu ver, o setor elétrico sob um governo Dilma? Diante de suas conjecturas políticas, tudo indica que não será nada menos privatizante do que o seria um eventual governo Serra.

 

Ildo Sauer: Ela é a madrinha do que foi feito, eu dizia que ela criou o Bolsa-energia para o ‘mercado livre’, que valeu cerca de 20 bilhões de reais de 2003 pra cá… Por que haveria de alterá-lo? Eles têm tido alguns dissabores porque periodicamente aparece, como neste ano, a ameaça de garantia do suprimento. Exatamente porque o mercado livre não contrata transparentemente sua demanda a futuro, vivendo de especular, do que o governo entendia como sobras e que não eram, e sim energia firme, que custava capital e recursos às estatais, vendida como se fosse energia de sobra, secundária, sem garantia e segurança.

 

Por isso, de vez em quando aparece, como agora, a idéia que chegaram a cogitar de operar todas as usinas de gás, e fora da ordem de mérito. Portanto, o consumidor cativo que paga, em beneficio dos livres, especuladores. Assim, nesse último ano até se chegou a cogitar operar as usinas a diesel, pois os reservatórios chegaram próximo ao limite mínimo de confiança. Em caso de crescimento econômico no ano que vem similar ao deste ano, podemos chegar ao fim de 2011 com muito risco, se a hidrologia dos dois anos acabar sendo desfavorável. O que mostra a instabilidade, pois a única reforma feita foi a da necessidade de contratação de longo prazo, uma proposta nossa, mas como veio junto da idéia de que parte do mercado não precisa registrar contratos de longo prazo, já veio fraudada no seu objetivo por conta dessa não contratação.

 

O restante do modelo ficou igual, com algumas pioras, como a não recuperação das estatais como empresas autônomas, sendo colocadas de muletas de parceria com empreiteiras e investidores privados na transmissão e geração; continuamos privatizando os potenciais hidráulicos; aliás, não fomos capazes de escolher os melhores nos últimos anos, tampouco de fazer os estudos sociais, ambientais, obter as licenças, negociar de maneira civilizada com as populações atingidas. Nada disso foi feito, repetimos o que era feito desde os governos militares. Como ela (Dilma) comandou tudo, talvez um pouco mais distante a coisa ande melhor, mas não há uma expectativa muito positiva de que isso aconteça…

 

E, de novo, como grande parte dos movimentos sociais atingidos por essas ações todas nos últimos momentos se posicionaram a favor dela, na falta de outra alternativa, chegamos a uma desmobilização diante do que vem por aí.

 

Correio da Cidadania: Dessa forma, a gestão do setor, um dos mais rentáveis de toda a economia nacional, é uma síntese do aparelhamento do Estado por interesses privados, além de uma pista de que tal modus operandi será mantido.

 

Ildo Sauer: O setor elétrico foi, sim, colocado a serviço dos interesses do grande capital. O BNDES financia tudo, os empresários privados comparecem de um lado com a muleta da estatal e do outro lado no mercado cativo para garantir a compra, além da pequena porção que vai para a especulação do ‘mercado livre’.

 

De forma que criamos um quadro onde a idéia anterior do PT de que o excedente econômico possível no setor elétrico (a diferença entre custo de produção e o valor na esfera do mercado da circulação na eletricidade), e mesmo em outros, como nas telecomunicações, poderia ser usado como alavanca para resolver as assimetrias na área das carências sociais, inclusive na infra-estrutura energética para todos, foi para as calendas. Fizemos o Luz Para Todos, com muita propaganda, mas nem todos têm luz, e muitos a têm precariamente. Além de muitos escândalos.

 

As estatais foram canibalizadas pelo mercado livre e colocadas a serviço dos novos investimentos desejados pelas empreiteiras; deixou-se de fazer a manutenção, o que levou a dois apagões notórios: o da linha de Itaipu e outro no Nordeste, mostrando a precariedade em que se encontra a manutenção. Depois de 20 anos operando com plena confiança, Itaipu caiu em descrédito, operando abaixo do nível de projeto, usando usinas a gás para segurar, por falta de manutenção e, claro, gestão do setor. Eis o quadro advindo da submissão da gestão das empresas aos contratos que as empreiteiras demandam. As estatais têm poucos recursos porque venderam grande parte de sua energia muito abaixo do custo.

 

Ademais, grande parte de suas gestões foi loteada entre interesses de base partidária, de despachantes de interesses empresariais e políticos, cuja demanda e atenção não eram voltadas à plena manutenção, confiabilidade e operação no nível máximo. Os gestores estavam lá, mas voltados a novos projetos, investimentos e a tais demandas políticas. Tanto que o sistema Eletrobrás tem uma rentabilidade abaixo do custo de capital médio, enquanto os grupos privados têm uma rentabilidade enorme no mesmo sistema produtivo. Os consumidores cativos pagam as tarifas mais caras do mundo, ao passo que alguns grupos privados e comercializadores têm à sua disposição a energia mais barata do mundo.

 

Eis a contradição criada nesses oito anos de governo. Se não acontecer nenhuma tragédia – que é muito improvável, mas não inteiramente descartável -, a festa vai continuar.

 

Correio da Cidadania: E Belo Monte, uma das jóias da coroa do PAC, mas tão criticada e combatida por ambientalistas e movimentos sociais pelos impactos ambientas e sociais, vai entrar nessa festa também?

 

Ildo Sauer: Já está fazendo parte. Belo Monte é uma empresa concebida no governo militar e a essência do que se previu fazer naquele tempo foi executada agora. Assim como no rio Madeira, com as usinas Santo Antonio e Jirau, gestadas no governo FHC com a Furnas e a Odebrecht. Apenas partilharam uma das duas com outro grupo, pra não ficar tudo com a Odebrecht.

 

De forma que, concretamente, há o processo de submissão desse espaço econômico, dos recursos naturais e da estrutura empresarial estatal, ao interesse da acumulação capitalista dos grupos privados. É a essência do que vem sendo feito.

 

Tal lógica vale para o petróleo e por isso a afirmação de que o governo Lula é o que mais instrumentalizou, de maneira mais eficaz, com mais aceitação social, a submissão do espaço econômico dos recursos do Estado em favor da acumulação capitalista privada.

 

É o que está em jogo. É nesse sentido que vai minha afirmação, e de muitos outros, de que o Lula consolidou o capitalismo e instrumentalizou o Estado no Brasil.

 

Correio da Cidadania: Correm especulações de que serão tomadas medidas fiscais duras já nesse fim de mandato de Lula, para evitar desgaste de Dilma em início de gestão. O que pensa a respeito?

 

Ildo Sauer: Primeiro, é preciso ver que reformas são essas. Note que há reformas e reformas, e quem clama por elas quer reduzir direitos trabalhistas, sociais, previdenciários. É isso que está em jogo. São contra-reformas na verdade, o aprofundamento do modelo concentrador de privilégios e riquezas. É difícil avaliar, pois acho que o Congresso estará mais dócil, a não ser que a disputa pela partilha de cargos seja muito violenta.

 

Mas o governo o tem ao seu lado hoje, embora nenhum partido tenha significado. Ou seja, está tudo pulverizado e todos buscam uma fatia. De maneira que, se a partilha for promovida no estilo anterior, vai ter uma maioria pra fazer qualquer coisa no começo do governo. Vai ser mais fácil a aprovação de projetos no novo governo, tanto que já se cogita concluir o modelo do Pré-Sal depois. Isso porque do Congresso atual sobra pouco; os derrotados têm expectativa relativamente baixa e os reeleitos estão olhando o futuro. Assim, no início do governo, vão tentar colocar as principais questões na mesa e resolvê-las na medida em que se consolidam as promessas de entrega da barganha.

 

Não sei se me faço entender, mas é algo como “vamos fazer essa e essa reforma no começo e votá-las. À medida que vocês forem confirmando os votos, vamos confirmando o espaço no governo pra vocês”. É um pouco jogo de gato e rato, porque ninguém mais confia em ninguém, uma desconfiança mútua generalizada.

 

Correio da Cidadania: Vão fazer troca de reféns.

 

Ildo Sauer: É uma boa figura de imagem, é o que está em jogo neste processo político.

 

Correio da Cidadania: Quanto a estas facilidades referidas do novo governo no Congresso, Chico de Oliveira, na entrevista ao Correio acima citada, afirmou também que as bancadas majoritárias, e agora aumentadas, da base governista nas duas casas farão o próximo governo mais conservador do que o de Lula. O que pensa a respeito de tal idéia?

 

Ildo Sauer: Creio que sim, porque será mais fácil trabalhar. E é preciso compreender o papel secundário que lamentavelmente o Congresso tem tido ultimamente, de mero carimbador. Grande parte da representação eleita se converte muito mais em despachante do interesse de grupos, muitas vezes com forte conteúdo econômico e até empresarial. Foram eleitos de forma genérica, com apoio de recursos e a profissionalização da campanha…

 

Nesse sentido, entendo que o Executivo detém o poder real. O Congresso é um espaço de legitimação formal da democracia, mas os grandes debates nacionais estão em outros campos há muito tempo (no campo econômico), os quais o Congresso apenas legitima. Seus líderes buscam um tentáculo, algum espaço em órgão de governo, acima de tudo alguma estatal, onde poderão nomear o despachante de interesses e mediar e proteger o jogo econômico dos grupos que os apóiam.

 

De maneira que novamente se manifestam as duas mãos. Acho que há uma figura de imagem muita apropriada do processo político do Brasil: o Second Life, ao qual já me referi, criado há algum tempo, em que o sujeito, além de cuidar de sua vida real, programa e vai comandando uma vida no computador. Eu temo que o típico agente político brasileiro tenha sua second life; uma pública, e a outra que fica nesse compromisso permanente, que não aparece, mas é com quem vive mais intensamente, o verdadeiro âmago do que ele faz: as articulações com o poder econômico. Ao mesmo tempo, tem a necessidade de aparecer diante de setores amplos da população como representante de algum interesse popular. Mas, na verdade, se expressa de um jeito ao público, enquanto, na articulação interna, inclusive em alianças interpartidárias na base do governo, busca avidamente nomear dirigentes de órgãos públicos, que por sua vez são colocados lá como mais que despachantes de interesse. Servem a essa correia de transmissão montada pra promover, de fato, a partilha daquele excedente econômico que cabe ao Estado e às empresas públicas gerirem. E as empresas de grande porte são muito visadas, porque direcionar contratos, organizar e legitimar esse processo é uma das tarefas. Tanto que grande parte da competência atribuída a dirigentes é a de ser o preposto político capaz de escapar dos órgãos de fiscalização e das áreas corporativas da empresa.

 

Inclusive, e de certa forma, isso é uma tragédia que diminui um pouco o alcance da Lei Ficha Limpa. Porque se, de um lado, ela surgiu de um sentimento público contra a prática de ilícitos contra a economia popular e o patrimônio público, por outro lado, grande parte dos dirigentes políticos terceiriza e nomeia despachantes para praticar tais atos. Eles não os cometem mais diretamente, pois têm seus prepostos para tal.

 

E ironicamente, em muitas corporações, já se criaram elites, que são como jogadores de futebol, cujo passe é comprado e vendido. São bem treinadas tecnicamente a serviço da nomeação política. Um exemplo notório foi com o ex-presidente Collor, cassado, capaz de ter um preposto, que nem conhecia de antigamente, que alugou o crachá de um técnico da Petrobrás para ser seu diretor da BR Distribuidora. É típico exemplo de como o alcance da Lei Ficha Limpa, efusivamente saudada, tem seu papel limitado, na medida em que a deterioração do papel político do Congresso, dos eleitos, faz com que estes não desempenhem papel direto, mas ‘apenas’ de influenciar diretamente, nomeando prepostos que nunca vão ser candidatos. Se forem pegos e condenados, o preposto lava as mãos. Esse é o processo político pós-mensalão.

 

Correio da Cidadania: O que acontecerá e como reagirá um futuro governo Dilma, e os movimentos sociais, caso uma nova crise econômica bata às nossas portas?

 

Ildo Sauer: Só vai ter recurso pra minorá-la, a não ser que bata profundamente e as contradições aflorem; aí pode ser difícil. Mas já passamos pela experiência do Jânio, de estilo voluntarioso, personalista, que renunciou; passamos pelo governo Collor, que tentou promover a partilha entre diferentes grupos econômicos, mas foi ejetado do processo, retornando agora nas asas do socialismo moreno e do caudilho do ABC… É difícil prever o grau de coesão e coerência. Enquanto houver o que partilhar no plano institucional e com os movimentos sociais…

 

A nova cartada que está na mão com o modelo do Pré-Sal é o poder autocrático e unilateral do presidente, que pode ouvir um conselho nomeado por ele e tomar a decisão de quanto vai produzir e como gerar as expectativas em torno disso. É um elefante na cartola da presidente eleita. Volto a olhar para o México, sendo importante lembrar que, no período de hegemonia da Pemex, o petróleo valia pouco – o excedente era pequeno, na diferença entre custo e preço, pois sua apropriação se dava em outras etapas, não na de produção, como agora. Portanto, acho que o grande coelho da cartola será sempre a partilha do Pré-Sal. No caso é trocadilho, já que o modelo de partilha permitirá… a partilha – não só entre governo e produtores, como também entre os vários produtores. É um recurso de que o governo dispõe pra manter a correia de transmissão andando.

 

Havendo uma degradação muito forte da chamada moralidade e probidade, já notoriamente degradadas, tal percepção talvez possa chegar às bases se a crise for muito violenta, sem que se consiga manter a pequena mão esquerda fazendo a redistribuição e um pouco de carícia. Talvez, a mão do Lula seja percebida por sua história; o pouco que ele dava aos pequenos provocava enorme sentimento de reconhecimento e esperança, o que talvez não venha pela outra mão.

 

É difícil fazer previsão do que vai acontecer numa crise. As conseqüências reais aqui dentro vão depender da capacidade da esquerda em se reorganizar em cima de uma nova compreensão do que está em jogo, numa clara plataforma de reformas possíveis no atual estágio de compreensão e mobilização política. Organizar, criar um movimento mais amplo, buscar espaço nos sindicatos e movimentos e recuperar seu espaço de atuação.

 

Aí, qualquer crise econômica lá fora vai se refletir numa possível mudança da trajetória política do Brasil. Do contrário, é mais do mesmo: mexicanização e justicialismo.

 

Correio da Cidadania: Pensando um pouco na nova equipe de governo, o que imagina da hipótese de a atual ocupante do cargo de diretora de Energia e Gás da Petrobrás (cargo no qual substituiu Ildo Sauer no segundo mandato de Lula), Graça Foster, ir para a Casa Civil?

 

Ildo Sauer: Entendo que a Casa Civil sob um José Dirceu era uma Casa Civil com conteúdo político, isto é, tinha um ator com densidade, que operava nas articulações, negociações, em detrimento da hegemonia do próprio presidente. Quem cumpriu à risca os ditames de ser operador em campo, de segurar a máquina estatal, dominá-la, quem negociava com grau de gentileza maior conforme a nobreza do interlocutor nos estamentos da Casa Grande, e tratava com rudeza o povo da senzala, isto é, funcionários públicos, de estatais, era a Dilma. Criou um estilo que é a antítese do que dizem os manuais de gestão, mas foi operativamente, do ponto de vista político, muito instrumental ao Lula, que ficou preservado, tendo alguém que lhe era fiel e operava todos esses campos da maneira descrita, tanto que ele acabou premiando-a com a candidatura e apoio, carregando-a na eleição com seu prestígio.

 

Para tal paradigma se repetir, talvez não seja impensável uma clone da ex-chefe da Casa Civil e atual presidente, no método e estilo, ocupando o espaço praticando os mesmos métodos. E seria alguém (Graça) ‘liberado’, de muito baixo conteúdo político, baixa densidade pessoal, sem história de liderança no partido, pois é um enxerto já da era da metamorfose petista plena, que chegou muito mais como operadora. Ter no seu entorno, para negociar as concessões aos demais partidos e grupos, alguém de mais densidade política talvez não seja a opção de quem quer manter a hegemonia, o comando a ferro e fogo. Melhor ter alguém que compartilhe sua personalidade, que execute a ferro e fogo o serviço necessário, para que a grande mediação seja feita pelo primeiro mandatário, que só intervém lá na frente, após mandar fazer as coisas.

 

Foi assim que operou o Lula no pós-Zé Dirceu. Ele estava confinado ao núcleo duro do partido, pois até 2005 quem mandava no governo era o núcleo duro do PT. Três ministros e um presidente que pensavam quase igual: o da Casa civil, o das Comunicações, o da Fazenda e o da Secretaria Geral de governo. Os quatro ministros originários da articulação histórica do partido chefiavam o governo, formando quase uma junta. Mas ela foi degolada e o príncipe emergiu sozinho. Passou a usar subalternos para domar a classe política em seu entorno e promover a partilha, o que tornou Dilma conhecida como gerente eficaz, na medida em que executava à risca os acordos, independentemente dos princípios em discussão. Impunha-os e salvaguardava a figura do presidente.

 

Esse é o modelo que está posto. Agora, vamos ver o superpríncipe – afinal, não há “rei morto, rei posto”, há um muito ‘vivo’ que vai sobreviver – e depois também os comportamentos. Criador e criatura sempre têm conflitos.

 

Correio da Cidadania: Acredita que, conforme dita o padrão histórico, Dilma poderá se voltar contra Lula? Ou ela veio com a serventia de possibilitar a volta de Lula em 2014?

 

Ildo Sauer: Depende da conjuntura. A natureza intrínseca do processo levaria a uma possibilidade de afirmação definitiva de que Lula tem a última instância, o poder máximo. Só que exercê-lo às vezes exige uma conjuntura política, articulação, e de vez em quando há erros de avaliação.

 

A tendência natural seria essa. Mas ninguém aceita de bom grado ser um preposto ocupando o posto máximo. É estratégia de jogo de poder. É melhor ler Maquiavel pra explicar o que vem por aí, ele é capaz de explicar melhor que eu.

 

Correio da Cidadania: Lula, como os jornais noticiam, “sugeriu” a Dilma que mantenha Meirelles, Guido Mantega e o restante da sua equipe econômica em seus lugares. Dilma vai acatar as sugestões de Lula? No geral, o que o senhor espera da montagem do novo staff? Haverá um arco de líderes e ministros dos mais variados matizes, como fez Lula?

 

Ildo Sauer: Acho natural que sim. Aquilo que deu certo tem tudo pra ser mantido – a grande mediação. Assim como as questões do comando do governo, e de toque pessoal, de hegemonia interna, ou do comando da Casa Civil com alguém que seja um fiel executor de tarefas, mais do que um articulador de grande porte.

 

No restante, o governo tem de afirmar que ele vem para ser a continuidade do que já está aí. E, portanto, todos os compromissos com taxa de câmbio, juros altos, toda a lógica que prosperou e fez o que fez prosseguirá, de modo que não há muito a esperar com relação à mudança. Pode até trocar o nome do ator, mas o papel a ser exercido é o mesmo.

 

A partilha está aí na configuração de toda a equipe, tendo de ser um pouco ampliada, uma vez que o equilíbrio eleitoral é um pouco maior; são quase equivalentes PT, PMDB, PSB e os outros que estão lá, o que aumenta o poder de mediação do príncipe, ou da princesa, que em última instância é quem poderá arbitrar o dote que caberá a cada um.

 

Trata-se disso, partilha dos dotes. Este é o socialismo! Não o que criamos desde os anos 80, na fundação do PT. Trinta anos depois, vemos o socialismo: a socialização dos espaços do governo entre os grupos políticos, que por sua vez estão lá subservientes a interesses em geral empresariais, do capital, não ao que diz o discurso, voltado aos movimentos sociais. A eles, as migalhas.

 

Correio da Cidadania: Diante do quadro geral aqui traçado, qual a sua opinião quanto ao apoio que a candidata petista acabou por angariar junto à esquerda e aos movimentos sociais – estes mesmos que partilham as migalhas! -, especialmente no segundo turno? Acredita que fará algum jus a este apoio?

 

Ildo Sauer: Vendo que ambos, PT e PSDB, são muito parecidos, e com a imagem histórica do PSDB claramente vinculada ao neoliberalismo, apesar da trajetória de Serra – digamos que ele era a esquerda da direita, enquanto a Dilma a direita da esquerda -, havia pouca clareza para a esquerda e os movimentos sociais.

 

À medida que o Serra assumiu uma agenda conservadora de direita, não deixou espaço aos movimentos sociais que se vêem como esquerda, a não ser se vincular à mão esquerda do Lula, deixando de olhar a mão direita, que também estava lá. Agarraram-se à mão a esquerda do Lula, sem se perguntarem o que a mão direita, a hegemônica, fará depois.

 

Portanto, creio que no tabuleiro político faltou um pouco de percepção do xadrez, dado que propostas e práticas são muito parecidas. Aqueles que foram para a candidatura do PSOL ou ambiental no primeiro turno, ou anularam ou se dividiram no segundo; um pouco mais para o Serra, mas não o suficiente para consolidar a vitória eleitoral, mesmo com pouco mais de 40% dos votos do eleitorado. Grande parte dos movimentos optou por tapar as narinas e votar na candidata herdeira de uma história de esperança, especialmente porque o discurso exageradamente conservador do candidato tucano assustou. De certa forma, ele encurralou essas correntes entre a Dilma e o voto nulo.

 

De qualquer maneira, evidencia-se um imenso vazio político. Falo assim apesar da agenda verde e nova no 1º. Turno, mas com baixo conteúdo social para responder aos anseios nacionais, e do discurso socialista, que não conseguiu se sustentar, em parte porque as regiões que mais se beneficiariam de tal discurso ainda estão prisioneiras do discurso da esperança e da mudança que vem da construção do PT. Uma construção que só agora, após uma longa onda de 20 anos, chega lá, onde talvez só chegue o discurso, porque nas práticas só temos tênues mudanças.

 

O Bolsa Família, por mais necessário que fosse para extirpar a fome, que grassava, não é suficiente como processo político de criação de autonomia, participação efetiva, tornando os brasileiros mais iguais; ao contrário, aprofunda e cristaliza uma situação social e política inaceitável. Como instrumento de arrancada, é necessário. No entanto, cristalizá-lo cria uma situação política de dependência permanente do paternalismo, outra coisa invocada nessas eleições, de um lado pelo conservadorismo e de outro pelo populismo paternal e agora maternal.

 

E veja como é contraditório: afirma-se uma mulher presidente como inovação, ao passo em que ela é apresentada como uma mãe, herdeira de um pai maior, criando não afirmação da independência, autonomia e igualdade entre mulheres, homens, regiões etc., mas aprofundando uma relação de dependência, herdeira de uma sociedade injusta, contra a qual foi criado um partido e muitos movimentos sociais. Eis o quadro.

 

Correio da Cidadania: Finalmente, ainda acredita em um projeto democrático-popular para o Brasil, nos moldes antes pregados, e abandonados, pelo PT, ou imagina que este seja um caminho que se tenha esgotado, devendo ser substituído por um outro projeto de nação?

 

Ildo Sauer: Eu acho que o PT tal como criado não existe mais. É um partido convencional que busca tirar o máximo possível da herança memorial de esperança, ainda retendo em suas prisões, seqüestrado, o imaginário de mudanças dos movimentos sociais, com um discurso longa e arduamente construído, ainda que grande parte dos precursores hoje esteja longe. Aqueles que se apoderaram deste patrimônio de mobilização social ainda vão querer tirar o máximo de proveito. Como seus escrúpulos já não eram muitos antes, certamente não terão os mínimos agora, depois da metamorfose, buscando arrancar o máximo dessa etapa, que os próprios vêem como os estertores de um projeto que começou cheio de sonhos, solidariedade, esperança, transformação, e virou uma disputa quase igual à da Noite dos Cristais, dentro e fora do partido.

 

Temos de fazer uma autocrítica. Muitos de nós partilhamos tal projeto, em detrimento de um outro mais ortodoxo, de exame das reais contradições que habitavam a sociedade brasileira, conseguindo estruturar movimentos sociais capazes de compreender estas contradições e articular um poder real. Um poder em que os líderes que ajudaram nas formulações e se afirmaram no debate dentro das bases fossem os líderes do projeto, criando estruturas orgânicas fortes e indissolúveis, capazes de chegar ao poder e exercê-lo.

 

Fizemos o contrário: delegamos a agentes simbólicos, com baixo grau de comprometimento, uma agenda real de esquerda. E que puderam, nessa estrutura tênue de correias de transmissão, de laços de cobrança, numa estrutura de partido com forte inserção social, fazer tudo que vimos. E a figura principal foi a cabeça do projeto, que tinha um grande legado histórico, simbólico. Como disse alguém um dia, “a qualquer chefe de esquerda lhe falta o dedo, perdido por um operário na fábrica”. Isso é altamente simbólico. Para qualquer líder de esquerda ocupar um lugar hegemônico, vai lhe faltar o dedo perdido na labuta operária. Esse forte simbolismo não se traduziu em compromissos concretos, com a compreensão das contradições da sociedade.

 

É muito simbólica a afirmação do presidente da República de que ele “chegou lá”. Parece que é um Pelé, um jogador ou modelo que chega longe na carreira. Como se fosse possível ter 190 milhões de Pelés, 190 milhões de Lulas, 190 milhões de Giseles Bündchen no Brasil, como se a estrutura social permitisse.

 

Esse grau verbalizado no discurso mostra claramente a ausência de compromisso com a realidade das contradições dentro do âmago da sociedade brasileira, que é a estrutura social de produção e distribuição do produto social entre os grupos da população. Isso é que precisa ser rearticulado: aumentar as forças produtivas, produzir mais e garantir que a distribuição seja melhor. Mas não se leva a cabo tal tarefa com populismo, assistencialismo, paternalismo, maternalismo, pra onde tudo descambou.

 

É a autocrítica que faço. Muitos intelectuais participaram do processo e, embora tendo uma compreensão maior, acabaram delegando poder. O símbolo maior foi o sindicalismo. Toda a base, que tinha um baixo entendimento do significado político do que estava em jogo, preferiu depois se servir do espaço de poder e dessa nova partilha com o sistema econômico dominante. E se subordinou a esse capitalismo, aqui no Brasil dependente, mas com um pouco mais de autonomia hoje em dia pela nova inserção internacional do país, criando até asas para um sub-imperialismo na África e América Latina.

 

Foi o que fizemos, creio que deva ser essa a autocrítica. A estrutura partidária tênue que o PT representava, com facções e diversos grupos, permitiu que quem mais lançasse asas às alianças com a burguesia se tornasse a articulação hegemônica, terminando por desempenhar todo esse papel. É um aprendizado duro, mas vamos ver o que emerge daqui em diante.

 

Meu último lampejo de esperança é que tudo que disse nesta entrevista não seja verdadeiro. Lá no fundo ainda sobra um pouquinho, um milionésimo, de esperança de que não seja.

 

Valéria Nader, economista, é editora do Correio da Cidadania; Gabriel Brito é jornalista.

Ildo Sauer: Governo Federal é o responsável pela deterioração do sistema energético brasileiro

 

 

 

 

 

 

Em meio aos descaminhos nos setores econômicos mais proeminentes da nação saltando à vista, regados a obscuras negociações e consolidações monopólicas, o engenheiro e ex-diretor de Petróleo e Gás da Petrobras na gestão de Lula até 2007, Ildo Sauer, concedeu entrevista exclusiva ao Correio da Cidadania sobre o setor elétrico. Sauer não poupa nenhum ente governamental nos recentes e seqüentes apagões que temos vivenciado.

 

Ildo atribui ao atual governo sérias responsabilidades pelo que considera uma má gestão do setor, com graves conseqüências para as empresas estatais, a cada dia mais descapitalizadas, na medida em que são utilizadas indevidamente por um modelo que beneficia grandes consumidores e as distribuidoras privadas. A eventual retomada da Eletrobrás seria apenas outro capítulo de uma estatal entrando como sócia minoritária em um negócio regido por atores privados.

 

Sauer aponta a ex-ministra de Minas de Energia do governo Lula Dilma Roussef como a maestra de grande parte do que seria uma ‘concertação’ de interesses do setor (obreiros e especuladores) em total desfavor dos consumidores, que pagam tarifas dentre as mais altas no mundo. Por conta de tal ‘conluio’, o professor desacredita também o Plano Nacional de Banda Larga, dizendo que o governo já tinha tais diretrizes, dentre outras, desde antes da eleição, tornando duvidosos os motivos que agora o estimulariam a investir na empreitada. Com as linhas de fibra ótica dos dutos e gasodutos da Petrobras e as da Eletronet, ele explica que já se poderia ter uma ótima base para universalização da banda larga desde 2003.

 

Segundo o Sauer, o setor elétrico se encaminha para mais uma configuração de monopólio em setor chave da economia e para políticas tão nefastas que não poderiam ser levadas adiante sem a cumplicidade do governo.

 

Correio da Cidadania: Desde começo de 2008 os paulistanos estão diante da intensificação das panes elétricas, com mini-apagões que se repetem a cada ventania mais forte ou a cada nova tempestade. O Rio de Janeiro, outra grande metrópole, também vem apresentando situações semelhantes. Qual a responsabilidade das distribuidoras de energia nessas situações?

 

Ildo Sauer: Há uma cadeia de responsabilidade, que é seqüencial, na indústria da energia elétrica. Temos um sistema elétrico brasileiro muito positivo, desde que administrado adequadamente, graças a enormes vantagens comparativas do aproveitamento da diversidade dos recursos hidrológicos, de horários e tipos de consumo, em várias regiões e segmentos. Exige uma coordenação estruturada que vem desde o planejamento da expansão e vai até todas as demais etapas, passando pelas capacidades de geração e transmissão e também distribuição da energia elétrica aos consumidores finais.

 

Dessa forma, há uma responsabilidade integrada entre o governo federal em sua atuação na área, o Ministério das Minas e Energia (MME) a Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), o Operador Nacional de Sistema (ONS), o Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico e a Câmara de Comercialização de Energia, para citar só os órgãos envolvidos. Todos têm papéis e funções resultantes do modelo criado pelo governo FHC e ajustado em pequena monta, mas mantido em sua alma e espírito, pelo governo Lula e sua ministra de Minas e Energia de então, em 2003/04.

 

CC:O apagão nacional do final do ano passado associa-se de alguma maneira a esta situação de mini-apagões, no que se refere, por exemplo, à falta de investimentos ou deficiência operacional nas linhas de transmissão e distribuição?

 

IS: Nesse sentido, o que vem acontecendo – tanto nesses mini-apagões, assim como no caso dos apagões de novembro passado no Brasil todo por conta de falhas de transmissão, e também no Nordeste, em fevereiro, causando enormes transtornos – provavelmente tem grande parte de seus problemas ligados à falta de investimento adequado em verificação e manutenção do Estado no sistema de transmissão.

 

Sabe-se que, além de São Paulo e Rio, em outras regiões do país, muitas vezes a energia chega pela transmissão, mas sem uma estrutura adequada de distribuição, muitas vezes em estado de manutenção e operacionalidade inadequado e incapaz, portanto, de manter a continuidade dos serviços de energia elétrica para os consumidores finais. E isso está nitidamente ligado à falta de investimentos para fazer valer a qualidade dos serviços contratados.

 

Portanto, há uma seqüência de responsabilidades. É evidente que a distribuidora elétrica contratada em regime de monopólio pelo governo federal através da ANEEL para prestar tal serviço é a primeira responsável. Mas sabendo-se que o regime de regulação e controle dos serviços é responsabilidade da ANEEL. E no cumprimento das leis, regulamentos e políticas públicas, a seqüência de responsabilidades fica integrada. É da distribuidora, da ANEEL e, acima de tudo, do próprio governo federal.

 

CC: O governo Lula tinha entre seus objetivos iniciais uma reorientação do modelo do setor elétrico relativamente ao modelo privatista de FHC. Vários estudiosos entrevistados por este Correio avaliam que esse objetivo foi alcançado de modo muitíssimo limitado, na medida em que continuam a prevalecer grandes consumidores e sua lógica de lucro, a descapitalização das estatais e a influência de interesses de poderosos setores eletro-intensivos sobre o governo. O senhor concorda com esta avaliação, na medida em que disse que Lula manteve o espírito do modelo FHC?

 

IS: O modelo de regulamentação que define as responsabilidades desse serviço foi estabelecido principalmente nos anos 1990, 1995, até 2002, sob a filosofia da privatização e regulação por incentivo, isto é, haveria a definição de uma tarifa teto e, a cada dois, três anos, deveria ser feita uma verificação sobre ganhos de produtividade, o que seria suficiente para induzir a distribuidora a prestar um excelente serviço.

 

Criou-se, inclusive por normas da ANEEL, a chamada empresa de referência, que é uma empresa de papel, modelo pelo qual a ANEEL se preocupa unicamente em verificar qual seria o custo atual equivalente em prestar o serviço numa determinada região, ao invés de visitar e controlar o mundo real, olhando transformadores, postos, redes, consumidores, o estado físico do sistema. Isso é a chamada regulação por comparação por empresa de referência. Veja o quanto é drástico acreditar apenas em uma teoria e implementá-la. E a grande responsabilidade do governo lula, sob comando da então ministra, foi acreditar que essa teoria era suficiente.

 

Todos nós sabíamos e alertávamos, em 2003/04, que parte da responsabilidade pelo racionamento de 2001/02, pelos contínuos apagões que se verificavam desde 1997, 1998, 1999 e pela qualidade do serviço de distribuição daquele período estava vinculada a essa estrutura de regulamentação e controle do serviço público de energia – com enorme ausência da participação pública e do controle social, popular, sobre tais serviços.

 

O modelo foi mantido no atual governo. As distribuidoras se preocupam exclusivamente se o poder público, que tem a responsabilidade de fiscalizá-las e controlá-las, concede mecanismos de regulação que lhes permitam cobrar essas tarifas que são as mais caras do mundo… Nos EUA, só o Havaí, de parcos recursos energéticos, tem tarifas mais caras ao consumidor. Todos os outros estados americanos têm tarifas mais baixas, embora tenham condições estruturais de suprimento muito superiores às nossas. Na Europa inteira, a nossa tarifa também seria das campeãs. Portanto, é assustador. A tarifa aumentou estrondosamente e o serviço se deteriora. Onde está o buraco? Na ausência do poder público na condução do comportamento das empresas privatizadas – e às vezes até estatais, por falta de recursos – para garantir a continuidade e qualidade dos serviços elétricos.

 

Sabe-se que distribuidoras elétricas brasileiras com sede no exterior, como a Telefônica, são as que mais remetem lucros e sustentam as matrizes desde a crise de 2008. É óbvio que será assim enquanto o pessoal ficar apenas olhando papel em seus gabinetes em Brasília, sem fazer planos de investimento, expansão, de cada distribuidora, para saber qual o número de consumidores, os investimentos físicos necessários, acompanhando toda essa atualidade e o sistema de manutenção. É todo esse buraco regulatório, pelo qual o governo é responsável, pois não mudou suficientemente o modelo, sabendo na ocasião, desde 2003/04, que precisava mudar.

 

Portanto, são solidários na culpa. Deve ser responsabilizada não só a distribuidora local, como também o conjunto de órgãos, o Conselho Nacional de Política Energética, o MME, a ANEEL e o governo, por falta de iniciativas de, por meio de leis, criarem mecanismos de controle e regulação capazes de garantir que o serviço pudesse ser prestado e fiscalizado adequadamente, e com qualidade. Eles criaram a empresa de referência de papel, pela qual fixam as tarifas, mas não olham os planos concretos de investimentos. E, evidentemente, para uma empresa que se apresenta de frente para os consultores com uma estrutura de custo com referência no papel, quanto mais aumentar a tarifa melhor; e quanto menos impelida a investir na expansão do serviço à população, maior será seu lucro. É o processo que temos visto.

 

Esse processo é também o responsável, nos últimos anos, pela remuneração abaixo dos custos de capital das estatais de geração e transmissão de energia elétrica do Brasil – em 2008, essa remuneração foi da ordem de 6% ao ano, quando este custo estava superior. Enquanto isto, a maior parte das distribuidoras, e algumas geradoras privadas, tem tido lucros médios acima de 30% ao ano, com algumas obtendo lucros 100% acima de seu capital próprio, o que configura claramente uma distorção. As tarifas são generosas, a fiscalização é ausente… É a única explicação.

 

Para sintetizar, a deterioração do sistema energético brasileiro resulta de um problema estrutural, de organização e gestão desse sistema, cuja responsabilidade maior é do governo federal, que tinha a obrigação, depois dos apagões dos 90 e do racionamento, de tomar as medidas, reavaliar o que existia e intervir drasticamente. Isso não foi feito e agora colhemos os frutos desastrosos dessa ausência de ação concreta.

 

CC: Teríamos então ficado diante de um paradoxo: o governo que pretendia reorientar o modelo privatista de FHC acabou por descapitalizar ainda mais as estatais, além de elevar as tarifas a valores astronômicos.

 

IS: Sim, e é preciso dar os nomes aos bois, pois havia propostas durante a campanha eleitoral de 2001. Elas foram jogadas no lixo, para que, no âmbito do MME, pudesse ser feito um acordão entre os chamados agentes do setor elétrico, que, além de permitirem essa lacuna regulatória no serviço de distribuição, permitiram também que se ampliasse o mercado livre de energia, pelo qual grandes consumidores – acima de 3MW e acima de 69.000 volts de suprimento, cerca de 600 consumidores – e um conjunto de comercializadoras, algumas pertencentes a distribuidoras elétricas, comprassem a maior parte de sua energia elétrica por preços equivalentes a 20% do custo estrutural de geração. Assim, promoveu-se uma transferência econômica que sangrou as estatais de geração e transmissão ao longo desse período, num valor que, de 2003 pra cá, excede os 10 bilhões de dólares.

 

Isso faz parte do fenômeno anterior que citei. As estatais têm tido uma remuneração muito baixa sobre o seu capital investido, e os outros se beneficiam dessa grande transferência econômica. Tudo isso em favor de alguns grandes consumidores, cerca de 600, que correspondem a cerca de 25% do consumo elétrico brasileiro, além de muitos intermediários comercializadores, alguns pertencentes às próprias distribuidoras.

 

Portanto, essa sangria deteriorou as condições das estatais, pois não sobra capital. De outro lado, o mercado cativo, aquele que não faz parte do mercado especulativo, ou seja, nós, o mercado regulado, temos tarifas exponencialmente crescentes, serviços deteriorados e ausência sistemática de investimentos em grande parte das distribuidoras para garantir a qualidade do serviço, pois os órgãos do governo não criaram as políticas necessárias.

 

Não se preocuparam também, como já disse, em olhar como o mundo real opera. Preferiram ficar com mecanismos de controle e regulação teóricos, que são resultado da grande reforma neoliberal, que, além das privatizações, promoveu essa forma de olhar o mundo. Insuficiente e inadequada.

 

Esse é o panorama geral. Nesse mesmo quadro se coloca a descoberta feita pelo TCU, o Tribunal de Contas da União, algo de que há muito suspeitava, de que os próprios contratos de concessão continham gravíssimas falhas no mecanismo de reajuste tarifário, fazendo com que a população, desde o fim da década de 90, venha sistematicamente pagando aumentos de tarifa superiores aos preconizados, porque a fórmula usada no contrato está contra a lei. O que significa uma transferência de mais de 1 bilhão de reais por ano pagos pela população.

 

E o governo, sabedor disso desde 2006, 07, 08, nada tem feito para restaurar a situação.

 

É necessária a atuação de movimentos de defesa do consumidor na tentativa de se instaurar uma CPI das tarifas, forçando a ANEEL a entrar em cena. No entanto, ela nada tem feito, provando claramente ser o mesmo órgão que foi criado no governo anterior, com o objetivo de proteger os interesses dos investidores, dos capitalistas, do capital financeiro internacional, em detrimento da qualidade do serviço e do bem estar da população.

 

CC: Desde o apagão de 1999, muito já se falou a respeito da possibilidade de novos apagões por insuficiência de geração de energia, problema que parece ter sido minimizado, dentre outros motivos, por causa das chuvas. O que pensa sobre isso? Diante de todo o quadro traçado pelo senhor, mesmo com as chuvas deste ano, podemos ter novos problemas de geração a curto e médio prazo?

 

IS: São duas coisas distintas. Chuvas têm de ser vistas de duas formas. De um lado, são importantes para a geração, pois os reservatórios ficam armazenados com as chuvas. Mas não podem causar a ausência de energia, pois o cálculo do projeto das usinas e do sistema é integrado de tal forma que elas operam adequadamente, complementadas pelas usinas térmicas, que devem ser planejadas e construídas de forma a garantir confiabilidade superior a 95%. A ausência de capacidade de geração não deveria ser problema nem em período seco, embora, quanto mais umidade, menor o risco.

 

Não vejo problema nesse momento na capacidade de produção de energia, pois tem havido investimentos em novos projetos tanto de geração como de transmissão. O que é muito preocupante é que, apesar de terem sido gastos, em investimentos hoje em curso, quase 25 bilhões de reais em geração e 25 bilhões em transmissão, os investimentos anteriores e mais antigos foram relegados por falta de manutenção adequada na transmissão e geração, o que ajuda a explicar aqueles apagões de transmissão no Nordeste em fevereiro e em Itaberá em novembro do ano passado.

 

A outra questão que as distribuidoras alegam não tem fundamento algum, de que chuvas e ventos ocasionam perda na capacidade de distribuição. Essa desculpa não serve, pois chuvas e ventos são condições naturais presentes. E a engenharia, já há quase um século, desenvolveu um sistema que é adequadamente planejado. Construído, operado e mantido, mantém a confiabilidade com vento e com chuva. Essa é uma desculpa que não pode ser aceita, pois as tarifas que pagamos na distribuição – que embute os custos da geração, transmissão, impostos de serviço e mais o custo da distribuição, ou seja, a última rede, que traz energia de fora da cidade e a entrega em casa – são de tal monta que permitem investimentos adequados, manutenção e operação, resistindo a qualquer temporal que ocorra a cada 40, 50 anos.

 

Podas de árvore são culpa da concessionária da prefeitura. Não é desculpa nem nunca foi. Vento ou chuva só causam prejuízo se o sistema não está adequadamente mantido e não é feita a expansão, levando a uma operação acima de sua capacidade. Aí, qualquer situação extraordinária pode prejudicar. Mas, em condições normais, com chuvas e ventos e com tempestades raras, o sistema elétrico, em suas três pontas, tem de ser operado adequadamente. As tarifas que pagamos cobrem regiamente a operação. E os lucros que eles têm mandado para fora e distribuído para seus acionistas provam que dinheiro não falta.

 

Faltam investimentos em expansão, melhoria dos equipamentos, automação, modernização etc. Não o fazem por conta do conluio que os envolve. Não há políticas, legislação e ação do governo federal, via ministério, com novas leis e regulamentos. E a ANEEL, que tem de implementá-los, funciona muito mais como protetora dos interesses de empresas, que são poucas e poderosas e preferem atuar no sentido de se “entenderem” com tais órgãos, ao invés de cumprirem sua obrigação.

 

Assim, a situação que vivemos hoje é de responsabilidade compartilhada, em primeiro nível pelo governo federal, que deveria ter colocado em prática as mudanças propostas a partir de 2001 e não o fez, colhendo os frutos agora. Claro que não vou isentar as distribuidoras, mas elas agem dentro dos limites que são tolerados pelo governo federal e seus órgãos de controle.

 

CC: O senhor citou que os investimentos anteriores e mais antigos foram relegados por falta de manutenção adequada na transmissão e geração. O que pensa, portanto, sobre a construção das hidrelétricas de Santo Antônio e Jirau no Rio Madeira e Belo Monte no Xingu, altamente criticadas pelos ambientalistas? São projetos realmente necessários?

 

IS: Aí temos outro problema. Do ponto de vista natural, as configurações hidrológicas, geológicas e físicas do Madeira e do Xingu sao extremamente interessantes e favoráveis.

 

Mas o problema lá é novamente a questão de organização do setor e gestão da política energética brasileira. Questões previstas no modelo feito em 2001/02, e publicado em 2002, no livro ‘Reconstrução do setor elétrico brasileiro’, que consolidou grande parte das contribuições que foram base para o governo no que seria a reforma do setor elétrico, inclusive tendo na contracapa o endosso do economista Celso Furtado e do advogado Plínio Arruda Sampaio.

 

E lá estava escrito que era preciso planejar a expansão do setor elétrico e fazer um inventário de todas as bacias hidrográficas brasileiras não inventariadas. Sabe-se que até hoje cerca de um terço do potencial hidrelétrico brasileiro foi aproveitado e dois terços, com cerca de 260 mil MW, ainda não foram aproveitados. Aproveitamos uns 80 mil MW e há mais 160, 170 mil disponíveis.

 

Mas, para aproveitar o potencial adequadamente, é necessário fazer três coisas:

 

– o estudo hidrológico e o inventário da bacia;

 

– estudo ambiental, de flora, fauna, ecossistema, bioma;

 

– relatório de passivo social.

 

Se de 2003 pra cá o governo tivesse cumprido tal missão, teríamos à disposição um grande conjunto de escolhas para aproveitamento hidrelétrico. Lembrando que, desses dois terços, nem tudo pode ser aproveitado, porque a geologia e a hidrologia podem não ser adequadas, por questões ambientais muito sérias, que não indicariam seu aproveitamento. Ou ainda por questões sociais que não podem ser superadas através de uma negociação política de modo a compensar adequadamente a população atingida, dando a ela melhores condições de vida em regiões fora das impactadas.

 

Havia uma série de possibilidades concretas, só que o governo nada fez, ficou dormindo esses anos todos para acordar em berço esplêndido e, finalmente, resolver usar o aproveitamento hidrelétrico planejado ainda no governo anterior pela Odebrecht, que ganhou fortunas em Santo Antonio e Jirau. Fez às pressas um leilão, sem estudos ambientais e negociações sociais num patamar digno de um governo que se diz democrático-popular, especialmente por ter surgido com apoio dessas populações todas, que no passado foram barbaramente atingidas pelos aproveitamentos hidrelétricos sem a devida consideração.

 

Pois bem, repetimos mais ou menos a receita do governo anterior no Rio Madeira, com intervenção branca dos órgãos de licenciamento ambiental e uma condução em relação às populações semelhante à que se fazia no passado.

 

CC: E com relação à usina de Belo Monte, no Rio Xingu, hoje tão em pauta, parece que o descaso é também muito grande, a se considerarem os alertas de vários ambientalistas e estudiosos.

 

IS: Sim, mais assustadora ainda tem sido a condução do processo no projeto do Rio Xingu, que é debatido há duas décadas. Do ponto de vista natural, há atrativos, mas desde que se superem, mediante negociação política e estudos ambientais, a própria questão ambiental e, acima de tudo, a social.

 

Portanto, o autoritarismo desse governo novamente se revela ao tentar, açodadamente e às pressas, um projeto que, se tivesse sido adequadamente estudado, poderia estar resolvido há muito tempo, a favor ou contra.

 

Além disso, se tivesse cumprido a obrigação de inventariar os 160 mil MW, teria em carteira, na prateleira, outro conjunto de aproveitamento, do que poderiam resultar projetos a serem colocados à frente. E os projetos hidráulicos poderiam ser acompanhados de um plano de expansão da capacidade de geração eólica e adequada complementação de usinas térmicas, a serem usadas em períodos de hidrologia crítica ao longo dos anos. Teríamos uma carteira de alternativas capazes de expandir certas energias.

 

É certo que seria preciso discutir a finalidade dessa energia, mas haveria ampla possibilidade de atender a qualquer demanda com menores custos, tratando de maneira aceitável, do ponto de vista político e ético, a questão ambiental e social, sempre presentes. No Xingu, as dificuldades poderiam ser superadas, era essa a expectativa, mas ocorreu mais um grande fracasso. O governo resolveu não fazer nada durante anos e, de repente, intervém de maneira arrogante, autoritária, unilateral, desprezando todas as populações e estudos ambientais.

 

Se se critica Itaipu por estar a 1.000 km do centro de carga em São Paulo, o que dizer de Santo Antonio e Jirau, que estão a 2.500 km e vão ter enormes custos de transmissão? Não acho que Itaipu seja problema, mas, se o governo disse isso quando justificava o apagão de novembro, o que dizer de Santo Antonio e Jirau, que ficam a 700 km de La Paz, 2.500 Km de São Paulo e 1.500 Km de Brasília?

 

No caminho, havia muitos outros projetos que poderiam ser viabilizados ao longo do tempo e não foram. Também poderia se investir no aproveitamento maior da biomassa, da energia eólica, programas de uso racional de energia, que permitem reduzir os custos atendendo às necessidades sociais e econômicas. Estava tudo na lista do que deveria ser feito na reforma do setor, mas não foi. Tudo foi varrido para debaixo do tapete em nome da grande concertação e dos grandes interesses, das grandes empreiteiras e investidores privados, todos financiados com dinheiro público e pelo BNDES.

 

Só no Brasil acontece isso: os grandes projetos de geração, transmissão e distribuição são geralmente financiados com dinheiro do FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador), portanto do FGTS e dos trabalhadores, onde os capitalistas são apenas gestores do capital público para privatizar os lucros e muitas vezes deteriorar a qualidade do serviço.

 

CC: Uma outra consideração importante diz respeito à demanda de energia no Brasil, para que e para quem ela está direcionada. A que tipo de modelo econômico e social se destina prioritariamente esta energia, em seu entendimento?

 

IS: É necessário realmente fazer várias indagações nesse sentido. Produzimos essa energia para proporcionar melhorias concretas na condição de vida daqueles que ainda estão em condições de subconsumo, que estão abaixo da linha da pobreza, remediados, que realmente precisam de condições materiais de existência compatíveis com a estrutura social, econômica e cultural de hoje? Ou se trata apenas de gerar energia para dar mais lucro a quem investe na geração e transmissão, e acima de tudo aqueles que, desde 2003, têm comprado energia abaixo de seu custo estrutural, deixando o prejuízo com as geradoras, em geral estatais? O que ocorre de fato é que estes que investem em geração e transmissão acabam por embolsar os lucros de aproveitamento dessa energia na produção de bens e serviços eletro-intensivos, que muitas vezes são exportados e deixam aqui poucos benefícios para a população e os trabalhadores. Mas essa é outra discussão.

 

Entendemos que energia é essencial para o modo de vida criado após a revolução industrial, mas não podemos deixar de apontar uma enorme assimetria entre quem paga o custo e sofre os impactos e quem se beneficia do programa energético e, acima de tudo, dos enormes lucros auferidos no uso de energia elétrica, geralmente os segmentos econômicos monopólicos, hegemônicos. Estes, por sua vez, estão associados diretamente ao projeto concreto colocado em marcha na transição FHC-Lula, que privilegia as grandes empreiteiras, os grandes oligopólios, os grandes consumidores, contra os interesses concretos de grande parte dos trabalhadores e, de modo particular, das populações diretamente impactadas por tais projetos.

 

CC: No caso das hidrelétricas no Rio Madeira e no Rio Xingu, o senhor fez referência à grande distância dos centros de carga de São Paulo, maior até do que a distância de Itaipu. Haveria hoje estrutura de distribuição e transmissão adequada para suportar esses empreendimentos no norte do país?

 

IS: Quanto a Belo Monte, esse não é um problema grave, pois a usina se encontraria a pouco mais de cem quilômetros de Tucuruí, na ligação norte-sul, que vem desde Belém, passa por Brasília e leva energia ao Nordeste. É bem diferente de Santo Antonio e Jirau. Mas, apesar da condição geográfica, geológica e hidrológica e topográfica, Belo Monte naturalmente tem atributos que mereceriam consideração, dada sua favorabilidade.

 

O desastre de Belo Monte é um desastre político de um governo que não fez sua lição de casa, e tinha tempo de fazer um adequado detalhamento da questão ambiental, tomando uma decisão pública consensual e informada. E agiu pior ainda no tratamento desrespeitoso imposto às populações da região, mobilizada há décadas. Vale lembrar que o projeto foi concebido inicialmente apenas como um projeto de energia barata, para aproveitar o alumínio, bauxita e fazer exportações, na década de 70, 80 e 90. Agora mudaram o caráter do empreendimento, dizendo ser o objetivo a ‘energia para os brasileiros’. Mas é preciso ver para quem ficam os lucros, para quem ficam os excedentes econômicos, para quem ficam os prejuízos e impactos negativos. É o balanço que está na mesa, que lamentavelmente precisa ser feito.

 

A respeito da distância, Santo Antonio e Jirau são mais desfavoráveis, o que, no entanto, não exclui Belo Monte dos dois grandes pecados: os problemas ambiental e social, que não foram resolvidos, conduzidos e nem encaminhados de maneira aceitável por um governo que se diz democrático-popular.

 

CC: Pensando nas fontes alternativas de energia, que já foram aqui lembradas, elas poderiam vir a tornar desnecessários dois grandes empreendimentos como os anteriormente citados, com todas as suas conseqüências negativas?

 

IS: O potencial hidrelétrico brasileiro é realmente muito grande. Mas eles fazem esses grandes projetos porque agem no interesse das empreiteiras. A mesma quantidade de energia que vão fornecer pode realmente ser obtida de outras formas, com usinas menores, hidráulicas, com apoio de usinas térmicas com capacidade de reserva para momentos de hidrologia menos favorável.

 

Temos também enorme potencial eólico e os leilões de energia eólica provaram que seu custo é competitivo com a energia nuclear, térmica, que dependem do fornecimento do carvão e gás natural. E para quem produz bagaço de cana e outras formas, como resíduos de vegetais do processo agro-industrial, há possibilidade de fazer geração. Até energia solar fotovoltaica, em algumas circunstâncias, no teto das casas dos consumidores, por exemplo, é economicamente competitiva. Além disso, quando pode haver algum subsídio para criar escala e diminuir custos solidários a médio prazo, isso não é feito.

 

Há uma grande diversidade de fontes, de modo que, no Brasil, o problema não é falta de fontes naturais de energia, de recursos. Falta organização, gestão e, acima de tudo, uma política pública para a área, que concilie os interesses das grandes frações da população excluída.

 

Mais uma vez, nesse governo, todo o espaço econômico, com seus enormes excedentes econômicos em disputa, tem sido manipulado e orientado na direção de favorecer os grandes grupos, empreiteiras, construtores de equipamentos, investidores de energia que usam o BNDES e fundos de pensão para maximizar seus lucros. E também investidores internacionais, que aparecem no ambiente ganhando enormes somas. Por isso, as tarifas do Brasil estão entre as mais caras do mundo e vemos a deterioração da qualidade do serviço.

 

CC: De acordo com algumas especulações, o governo estaria com o propósito de colocar uma mínima rédea no mercado, uma vez que declarou a intenção de abaixar as altíssimas tarifas elétricas. Você concorda com essa compreensão? Acredita no governo determinado a reaver aos consumidores os prejuízos tarifários da última década, retomando parte do papel da Eletrobrás?

 

IS: Não é verdade isso. A Eletrobrás, por exemplo, não planeja nada nesse sentido. Quem planeja é a EPE (Empresa de Pesquisa Energética), mas seus planejamentos nunca são cumpridos porque são meramente indicativos, para orientar os negócios de compra de energia nos leilões. Não servem para orientar políticas públicas em conteúdos tecnológicos, científicos e estudos como os que citei há pouco.

 

É uma ilusão achar que autorizar a Eletrobrás a tirar o acento do nome dela e dotá-la de capital vai mudar a lógica com que ela vem sendo conduzida. Ela foi simplesmente sucateada no governo FHC e tal trajetória foi aprofundada no governo Lula. Oito anos depois de tomar posse vão capitalizá-la para quê? Para fazer investimentos no Peru, nos EUA, como estão querendo? Com quem? Quem são os parceiros? Quais os custos? Quem assume os riscos? Para onde vão os benefícios e qual a lógica disso tudo?

 

Não vejo a Eletrobrás assumir o comando de nada, ela está entrando sempre como parceira minoritária nos projetos. O comando e os lucros vão para os atores privados; custos e riscos são alocados majoritariamente por estatais e públicas, servindo de garantidoras de muitas aventuras.

 

Vejo mais uma vez a intervenção na Eletrobrás, sete anos depois, como parte da mesma trajetória. Segundo nosso colega Aziz Ab’Saber, a esse governo de seu ex-amigo Lula não interessa nem a história de como as coisas foram construídas nos setores elétrico, de petróleo, gás e telecomunicação, nem aproveitar a chance de mudar a história de vida da população brasileira. O que interessa é o que tem na mão para usar na tarefa de promover a conciliação do jogo de interesses do dia-a-dia da base do governo: empresas, bancos e negócios. É uma lição que aprendi recentemente com o professor Aziz, do alto de seus 86 anos, num debate no qual não consegui discordar.

 

De fato, o único interesse concreto que motiva a ação do governo é saber o que tem na mão para usar na partilha dos interesses e na consolidação das barganhas que estão no dia-a-dia na mesa de seus sócios.

 

CC: Sendo assim, a população não vai ver as tarifas rebaixadas tão cedo, não?

 

IS: A geração elétrica corresponde hoje a algo em torno de 110 reais MW/hora e a tarifa está quase em 450 reais, 4,5 vezes mais.

 

E os contratos estão aí. A Eletrobrás não vai fazer nada. Pelo contrário, vai prejudicar as contas do Tesouro Nacional e aumentar os lucros das empresas. Em 2003, havia a proposta de a Petrobras e a Eletrobrás, com ajuda do BNDES, tomarem o controle da Eletropaulo em São Paulo. A proposta estava em negociação com os professores Pinguelli e Lessa, que disseram que ela teria sido sabotada pela ministra das Minas e Energia da ocasião. A ministra considerou a proposta como um péssimo sinal ao mercado, considerando que a Eletropaulo deveria continuar privada.

 

Não mudou nada de lá pra cá. Acredito que intervenção estatal é importante desde que seja planejada e tenha ação eficaz orientada ao interesse público. Se não é assim, ela pode ser mais deletéria do que se não existir. Ou pode ser apenas uma cavalariça de apoio às barganhas, para a intensificação dos lucros.

 

CC: Pensando um pouco na questão das telecomunicações, sabe-se que a Petrobras, na qual o senhor foi diretor de Gás e Energia, era detentora de uma rede fibras óticas. Há algum propósito, a seu ver, na tentativa de expandir a rede de banda larga no país através da empresa Eletronet (antiga empresa estatal, atualmente em estado falimentar, detentora de uma rede de cabos de fibra ótica)?

 

IS: Esse é um outro assunto. Somente estive envolvido nele em 2003, quando era diretor de Gás e Energia da Petrobras, pois tinha também responsabilidade pelas telecomunicações da Petrobras, que na época era a 4ª empresa de telecomunicação do Brasil em função dos milhares de quilômetros de fibra ótica que detinha em seus dutos e gasodutos de operação, com excedentes de fibras capazes de viabilizar uma linha troncal de alta velocidade de banda larga para inclusão digital no Brasil inteiro. Naquela ocasião, 2003, o presidente da Eletrobrás, Pinguelli Rosa, aceitou discutir a possibilidade de usar a rede da Eletronet. Infelizmente, tinham decretado a falência da Eletronet dias antes.

 

As fibras óticas implantadas pelo sistema Eletrobrás, em todo o território nacional, e as grandes linhas de transmissão se complementavam muito bem com as linhas dos gasodutos e, eventualmente, outras em vias térreas e rodoviárias, que também vinham sendo implementadas, conformando uma grande rede pública de informação.

 

A iniciativa foi levada ao ministro Gushiken, que a negociou com o então ministro das Comunicações, Miro Teixeira. Houve negociação com o ministro da Defesa, que queria usar a rede para comunicação de segurança das Forças Armadas. Havia interesse do Banco do Brasil e da Caixa em usar essa rede de comunicação em suas gestões e administrações. E, acima de tudo, permitir uma rede organizada de tal tipo levaria a que se incorresse em menores custos, a mais segurança e a uma base capaz de alavancar a universalização do acesso à banda larga.

 

O projeto foi formulado e ainda hoje segue disponível pela Petrobras, desde 2003. Foi bloqueado pelo MME e talvez pela Casa Civil. Mas foi a ministra da ocasião que o levou a este fim. De 2004 para cá, não prosperou. Havia um contencioso a resolver com os credores, a Alcatel Indústrias, que tinha financiado os equipamentos, e a Furukawa, que financiara as fibras óticas da Eletronet. E tinha outro contencioso com especuladores privados que já metiam o bedelho. O governo não resolveu o problema, sendo que havia na época uma negociação em andamento que permitiria amortizar todas as dívidas.

 

E quando tais investimentos foram feitos por essas empresas, estávamos na época da alta dos custos dos equipamentos, em pleno boom das fibras óticas no mercado americano. Depois, caíram muito. Assim, elas estavam dispostas, já naquela ocasião, a negociar as dívidas por valores equivalentes a 20% do investimento inicial, totalizando uns 40, 50 milhões de reais para arrematar tudo. Mas algo aconteceu no governo e o projeto não prosperou, ficou parado. De repente, em 2010, é ressuscitado como salvação nacional, como se a prioridade da inclusão digital em 2003 não fosse tão grande quanto agora, pra não dizer maior.

 

Então, a pergunta é: por que o projeto ficou parado? Quem o travou, quais foram os empecilhos? Só a ministra das Minas e Energia e a Casa Civil? Ou foi o lobby dos grandes grupos que hoje se manifestam e, já naquela ocasião, queriam paralisá-lo, para, quem sabe depois, convertê-lo em mais uma cavalariça de assalto aos cofres públicos? Esse imobilismo criou um prejuízo enorme a todos os órgãos do governo, que passaram esses anos pagando elevadas tarifas para transmissão de seus dados, inclusive com ausência de segurança para as Forças Armadas, que, com a Embratel, dependiam de uma empresa americana.

 

Acima de tudo, não houve progresso no programa de inclusão digital que era planejado pelo Sergio Amadeu na Casa Civil e outros grupos. Até porque a última mídia, aquele trecho final da rede que chega ao consumidor final, poderia ser feita conciliando a condição da rede de fibra ótica de acordo com cada tipo de moradia. E levando junto gás natural, água, esgoto e energia, o que fazia parte do plano de massificação do gás, que a Petrobras também elaborou, levou ao governo, mas que foi também sabotado pela ministra de Minas e Energia da ocasião.

 

Portanto, esse projeto vem de longe. As perguntas que ficam no ar são: por que foi abandonado? Que vontades se impuserem para que o interesse público não prevalecesse na ocasião? E o que motiva agora os mesmos atores a tentar ressuscitá-lo no meio desse clima sombrio de especulação e negociata que, aparentemente, vem sendo revelado pela imprensa?

 

CC: Dessa forma, você não veria no episódio um propósito verdadeiro de retomar de alguma maneira a Telebrás e, conseqüentemente, a própria atuação do Estado no setor?

 

IS: Não chega a ser nem isso exatamente, pois o projeto deveria ter sido encaminhado mesmo. O que questiono, como disse, é o motivo que leva o governo a levar adiante somente agora um projeto, quando teve uma oportunidade de ouro nas mãos em 2003/04. Que interesses o impediram de fazê-lo antes? Que interesses o motivam a fazê-lo agora? Essas perguntas estão no ar e deveriam ser respondidas.

 

Que a inclusão digital, não só com a rede da Eletronet, mas também com a rede da Petrobras, poderia caminhar, poderia. Tudo que faltou foi apenas coordenação do governo para reconhecer e viabilizar esse enorme benefício.

 

Por que o governo não quis fazer a inclusão digital antes? Por que não teve competência, não se interessou? Qual o motivador básico das ações do governo? Nesse episódio, parece-me que há aquele mesmo denominador comum, onde os beneficiados representam a conciliação de interesses entre grandes empresas, articuladores, especuladores, que se valem do espaço público para privatizar os lucros, inclusive mantendo como estrutura de apoio as estatais.

 

Tão grave quanto privatizar tudo, como no governo anterior, é manter estruturas e custos nas mãos das estatais, fazendo-as assumir riscos, privatizando benefícios e lucros e subordinando-as ao interesse privilegiado de alguns grupos. Qualitativamente é até mais perverso fazer da segunda forma, pois ficamos com a impressão de que o interesse público está sendo preservado. Porém, basta ver os lucros do setor elétrico e o que aconteceu com a política de inclusão digital, abandonada por sete anos devido a barganhas não resolvidas. E basta ver o que acontece na discussão do modelo para o setor de petróleo e gás e o caminho que tem tomado, muito mais grave do que tudo que falamos até agora.

 

CC: Há poucas semanas, foi divulgada pela imprensa a notícia sobre os novos propósitos do governo de montar uma ‘superelétrica’, a ser comandada pela Camargo Corrêa, com recursos do BNDES e também dos sempre presentes Fundos de Pensão Previ (dos funcionários do Banco do Brasil), Petros (Petrobras) e Funcef (Caixa). Qual a sua opinião sobre esse propósito?

 

IS: Esse é um exemplo concreto do que aconteceu no Brasil e foi consolidado com a ajuda do BNDES, dos fundos de pensão e com orientação do governo.

 

Se olharmos a verdadeira partilha do espaço produtivo brasileiro, na base de produção, caminhamos na seguinte direção:

 

– esse grupo econômico (Camargo Corrêa) está progressivamente tomando conta de toda a distribuição elétrica brasileira, que era majoritariamente pública e foi privatizada a partir de FHC, consolidando-se agora ao criar um grande monopólio privado na distribuição elétrica;

 

– na petroquímica, consolida-se a hegemonia do grupo Odebrecht, tendo a Petrobras como muleta de apoio, via Braskem, que também entra no petróleo;

 

– no setor do petróleo, o grande favorecido é o apadrinhado direto do governo chamado Eike Baptista, que em menos de três anos já amealhou 10% das reservas brasileiras de petróleo, o correspondente ao trabalho de cinco décadas da Petrobras, e que foram expropriadas com apoio e conivência do governo federal;

 

– já o sistema de telecomunicações, das tarifas mais altas do mundo, está nas mãos do grupo Andrade Gutierrez, inteiramente consolidado com apoio dos fundos de pensão e do BNDES.

 

Portanto, essa é a partilha do espaço econômico brasileiro, que acreditávamos ser democrático e popular.

 

Gabriel Brito é jornalista; Valéria Nader, economista, é editora do Correio da Cidadania.

 

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