4 de junho de 2026

Quadrilha versão pocket

Em minha última visita a Pato Branco, um amigo me levou a um café recém aberto na cidade – a cafeteria a que eu estava habituado ele se recusou a ir, depois que encontrou bigatos em sua comida, motivo que me pareceu digno.
Estamos lá, conversando sobre várias coisas, dentre elas relacionamentos, quando a dona do estabelecimento se aproxima, troca duas palavras e sai. Nesse breve diálogo, ele diz seu nome. Apesar de ser ruim pra juntar rosto com nome, me esforcei pra ver aquele rosto como conhecido – o nome era. Perguntei se o sobrenome dela era aquele que eu imaginava – confirmou. Então contei: quase apanhei por causa dessa mulher, uns vinte anos atrás. Acho que foi a única vez que (quase) briguei por causa de mulher.
Eu tinha treze, no máximo quatorze anos. Tinha tido uma paquera que não foi muito além disso com a irmã do meio da dona do estabelecimento, quando freqüentávamos a AABB – adolescente tímido em sociedade machista é uma maravilha! A mais velha, tenho a impressão, também havia me olhado estranho algumas vezes – pouco depois seria miss Pato Branco, mas era a menos bonita, na minha opinião. A mais nova, quem se interessou foi um amigo. Falava e falava e falava dela. Louvores e louvores à beleza da menina (se eu tinha, se muito, quatorze, ele tinha treze e ela, doze) declamados em meus ouvidos já um pouco cansados daquela lenga-lenga, seguidos sempre de lamentos e lamúrias de não conseguir nada com ela. Até que ele resolveu me perguntar o que fazer. Idéia de jacu, como dizíamos na época. Eu não tinha experiência alguma, mas tinha um ano a mais que ele, que tampouco tinha qualquer experiência. Sugeri que parasse de enrolar: “chega, diz que está a fim dela e convida pra ir no cinema” (na época havia um cinema na cidade). Ele fez quase como sugeri, apenas acrescentou um “oi, tudo bem” antes. Recebeu um não da menina, que passou então a evitá-lo, e ele quis descontar o fora pra cima de mim – não chegamos às vias de fato.
Hoje a menina é uma bela mulher, casada com um dos herdeiros da família dona da cidade; adotou, é claro, o sobrenome do marido – não sei se o marido fez o mesmo, desconfio seriamente que não. Suas irmãs, desconheço o paradeiro, nem me interessei em pesquisar. Meu amigo de infância, que há mais de uma década não troco qualquer mensagem, entre coquetéis antidepressivos e inferninhos da Augusta se formou em medicina, conseguiu arranjar uma namorada, até casou – ela trocou o sobrenome, ele, claro que não -, mora nos Estados Unidos, onde é pastor (e eu torço para que ele não seja dos que agradeceram a deus pelo massacre na boate Pulse, nem ache Trump um cara razoável). E eu, bem… eu não casei, mas tentei trocar oficialmente de sobrenome – sem sucesso, por causa do hífen e da minha preguiça -; a única vez que fui líder ou dono de algo foi de um grupo de humor em que eu era o único integrante (ao menos foi divertido), e os domingos, invés de celebrar missas ou encontrar figurões locais, passo escrevendo crônicas bobas.

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07 de agosto de 2016

ps: nesse ritmo de Drummond revisitado, lembrei de um poema de Jefferson Vasques, “Quadrinha revisitada”:

João comia Teresa que trepava com Beth
que não gozava com Carlos que olhava (demais) pro Fred
que enrabou o Fábio que nunca havia transado.

João saiu do Brasil, Teresa, do armário,
Beth pediu o divórcio, Carlos pulou do oitavo,
o Fred purpurinou e o Fábio,
agora é Fábia e descobriu o amor por si própria
(que não tinha entrado na história)

em: Subverso, 2009, p. 74.

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