4 de junho de 2026

Quando a fé é equivocadamente associada ao crime

O termo "narcopentecostalismo", usado por setores da mídia e da academia, é impreciso e promove uma associação indevida entre crime e religiosidade
Reprodução/TVGGN

Num país marcado por profundas desigualdades e pela forte presença da religião no espaço público, nota-se a associação da fé — especialmente a evangélica — a grupos criminosos. Para a pesquisadora Magali Cunha, do Instituto de Estudos da Religião (ISER) e do Conselho Mundial de Igrejas, esse fenômeno exige atenção e deve ser analisado com cuidado, sem simplificações.

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Em entrevista ao programa TVGGN 20 Horas desta sexta-feira (23/05), Magali critica o termo “narcopentecostalismo”, usado por setores da mídia e da academia. Segundo ela, a expressão é imprecisa e promove uma associação indevida entre crime e religiosidade.

“É um grande erro a gente chamar esse fenômeno de narcopentecostalismo. Não se pode atribuir a um grupo religioso o prefixo ‘narco’, dizer que esse grupo é relacionado ao narcotráfico. Isso não é verdade”, afirma a pesquisadora.

Segundo a pesquisadora, o que de fato ocorre é a adesão individual ou familiar à fé evangélica por parte de pessoas envolvidas com o crime. Em muitos casos, essa conversão acontece dentro das prisões, onde grupos evangélicos têm forte presença histórica. “Há uma tradição evangélica de trabalho social nos presídios, de visitar, acolher, apoiar. Isso vem da própria leitura bíblica: ‘Estive preso e me visitaste’”, lembra Magali, citando o Evangelho de Mateus.

Prisões loteadas por religiões

Mas esse trabalho social, que por vezes resulta em transformações reais na vida dos detentos, também pode ser distorcido por uma lógica de controle. Magali denuncia que hoje, especialmente no sistema carcerário do Rio de Janeiro, há uma espécie de “loteamento religioso” das prisões. Detentos são separados conforme sua filiação religiosa, e aqueles ligados a igrejas evangélicas — especialmente as mais alinhadas com lideranças que gozam de prestígio dentro do sistema — recebem tratamento diferenciado.

“Quem é evangélico ou católico tem um tipo de acolhimento. Quem é ligado a religiões de matriz africana, por outro lado, é visto como cidadão de segunda classe”. Essa seletividade, segundo ela, reforça desigualdades religiosas e raciais dentro do sistema penal e se converte, na prática, em mais um instrumento de poder.

“Limpar o território”: intolerância como justificativa

Um aspecto especialmente alarmante desse cenário é a ligação entre crime, fé e intolerância religiosa. Há registros de grupos criminosos destruindo terreiros de religiões afro-brasileiras, motivados por uma suposta “missão de purificação espiritual”.

Magali aponta que isso frequentemente ocorre em nome de uma fé adotada pelos próprios criminosos, ou pelas famílias a que pertencem. “É comum ouvir que estão ‘limpando o território de religiões demoníacas’. Isso se deve à demonização histórica das religiões afro, vistas como ‘do mal’ por uma leitura fundamentalista”, explica.

No entanto, essa lógica tem raízes mais profundas. Para Magali, há uma afinidade histórica e emocional entre fé e crime que não é nova, e tampouco exclusiva do mundo evangélico. Ela cita o exemplo dos bicheiros cariocas, frequentemente ligados ao catolicismo, e da máfia italiana, que historicamente cultivou laços com a Igreja Católica. “Não se fala em ‘narcocatolicismo’ quando se trata disso. Por que então rotular os evangélicos?”, questiona.

A instrumentalização política

Além do crime, a religião também é amplamente instrumentalizada no campo político, e muitas vezes as duas esferas se cruzam. A presença de líderes religiosos na política brasileira, especialmente da chamada “direita cristã” pode ser ilustrada com influenciadores digitais e pastores celebridades usando sua visibilidade para conquistar espaço no Congresso e em outras esferas de poder. Personagens como Pablo Marçal, Nikolas Ferreira e o Pastor Mirim são exemplos dessa nova dinâmica.

“Quando se mistura religião com política ou com o crime, a fé deixa de ser apenas um espaço de transcendência e se transforma em ferramenta de domínio”, adverte.

O cenário descrito por Magali Cunha revela que o entrelaçamento entre religião e crime no Brasil é muito mais complexo do que parece à primeira vista. Trata-se de uma disputa por poder simbólico e territorial, em que a fé é apropriada, distorcida e usada como ferramenta de legitimação.

“Precisamos olhar com cuidado para esse fenômeno, sem cair em rótulos fáceis. É preciso entender que são pessoas, histórias, contextos diferentes. E que a religião, como tudo, pode ser usada para o bem ou para o mal”, conclui a pesquisadora.

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Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

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Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

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10 Comentários
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  1. Rui Ribeiro

    24 de maio de 2025 1:06 pm

    Pequenas ingrejas, grandes negoços

    1. evandro

      24 de maio de 2025 3:22 pm

      Não só as pequenas. Em tempo, esse neopentecostalismo já é um crime,

    2. Eduardo Pereira

      25 de maio de 2025 4:48 pm

      Pequenas mutretas, grandes negociatas.

  2. AMBAR

    24 de maio de 2025 2:38 pm

    Magali, miga, não hã local onde o diabo mais se sinta bem DO que na igreja crente. Satanás dorme na igreja e os crentes quando chegam têm que expulsá-lo todos os dias: faz parte do espetáculo. A igreja é o paraíso do pecador e do criminoso. Só na igreja o crente o tarado estupra uma menina de 5 anos,mata, joga, na lixeira, vai ler a bíblia e depois vai para a igreja (aconteceu no RJ.O crente inventa carteiras falsas de doutores, defesas e perdões para todos os pecados e acobertamento de toda e qualquer malfeito no seu seio. O crente que enriquece e dá testemunho é o mesmo que vende comida estragada sem remorso, que expĺora o incrédulo (é assim que eles chamam os não crentes), que mata, que extorque, abusa da filha e dos filhos, mente, usurpa. Ah! como o crente adora ursurpar. Estando na fé tudo se perdoa. Então, miga, chamar de narcoevangélico o narcocrente não é equívoco, é realidade. O crente fiel só obedece. crê e contribui, esse, nunca precisa ser perdoado porque não peca. O crente que se converte e pede perdão todo dia é aquele que nunca se arrepende. Só perde perdão para voltar a pecar. Esse prospera, e a igreja dele também, porque tem o dom de explorar o próximo.

    1. evandro

      25 de maio de 2025 1:07 pm

      Muito bem dito. É o ditado, o pior cego é o que não quer ver.

  3. ERNESTO GALVAO RAMOS DE CARVALHO

    25 de maio de 2025 10:52 am

    Cara Magali, quem colocou o nome de complexo de Israel e obriga a conversão foi o narcotraficante Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Arão, inclusive transmite orações via rádio, ou seja…

    1. AMBAR

      26 de maio de 2025 1:58 pm

      Repare no nome do cidadão: Malaquias (nome de crente) e o apelido, naturalmente, Arão, para não sair da bíblia.” Ide pois anunciai o evangelho ” levado a ferro e fogo, como sempre. O que as pessoas não entendem é que o bandido convertido não deixa de ser bandido, ele apenas aceitou uma crença. O psicótico pode ser um bom cristão, mas continua psicótico. Religião não converte ninguém: quando muito, adestra. Por isso as guerras santas.

  4. ERNESTO

    25 de maio de 2025 11:10 am

    Na verdade não exclusivo do neopetencostalismo, já que o catolicismo também teve a participação de setores ultra conservadores, mas aquele compôs uma maioria avassaladora na cooptação de uma massa catatônica pra uma extrema direita raivosa, desembocando no período caótico que vivemos no passado recente. Massa essa abandonada pelo poder público e vítima de uma desigualdade abissal há séculos? Verdade! Mas isso não isenta da associação inequívoca dessas agremiações à mentira, exploração de vulneráveis, charlatanismo barato e demais picaretagens. Infelizmente fica difícil dissociá-los da condição de zumbis em transe. Compete aos próprios evangélicos de real “boa vontade” (e católicos também) a árdua tarefa de desmonte por dentro, já que as fronteiras de joio e trigo são difusas, dessa fábrica de equívocos e farsas “em nome do senhor”. A quem está de fora compete cobrar essa coerência dos que defendem que “não é bem assim”.

  5. João

    25 de maio de 2025 11:56 am

    salário mínimo
    o salário mínimo é pessoal
    transporte público
    preparo do alimento em sua residência
    substituir
    café
    achocolatado
    apti
    italac
    três corações
    muky
    bolo
    fruta
    verdura
    legume
    ovo
    Ironizar
    fechadura eletrônica
    a vida é humildade
    estabilizar
    reduzir o valor

  6. Eduardo Pereira

    25 de maio de 2025 5:00 pm

    Pra se ter religião é preciso acreditar sinceramente em Deus , e mais que louvar e se dizer fiel, é necesária a pratica.

    No segmento evangelico, do grande mercado de religiões , aparentemente, a questão da “prosperidade” se dirige mais a quem é o dono da Igraja, o nobre Pastor ou Bispo, que as “ovelhas” do imenso rebanho.

    E ninguem ali, do Diretor ao presidiario , quer saber de Deus. Vale mais o “Deus” celular

    Papo de religião em presidio pra mim não cola. Se acreditassem pra valer a maioria não estaria ali. No presidio vale a facção e , as vezes ate o time de ffutebol. Deus nunca esta lá. Não deixam ele entar pra valer.

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