Quando as Palavras Secam

Por: Eliana Rezende

Há momentos em que as palavras adormecem.
Calam-se, não conseguem dar as mãos para formar uma ciranda de sentidos, sentimentos, argumentos, convicções, ideias, utopias.
Seu silêncio faz-se tão alto que torna-se ensurdecedor e nos põe diante de nossa total incapacidade de com elas travar combate.

Fortes e destemidas as palavras nos auxiliam a pôr em trânsito nossas ideias e sentimentos mais profundos. São ferramentas que materializam o subjetivo que nos habita. São tijolos que constroem: de pensamentos a projetos, de sentimentos a desencantos.

Colocadas lado à lado e numa ciranda perfeita podem estimular e aglutinar pares, atrair sentimentos similares, fortalecer combalidos, dar esperança a desesperançados.
Mas quando elas parecem secar é como um deserto que nos toma. Nele apenas o desconforto das temperaturas, os ventos que mudam tudo de lugar e que possuem poderes de movimentar montanhas inteiras, soterrando e sufocando tudo o que está em seu caminho.
 

As palavras que enchem páginas com seus contornos de símbolos, sinais, formas e ideias são solicitadas em determinados momentos mais do que em outros.
Por exemplo, espera-se, em geral, que transcorrido um ano inteiro e às vésperas do inicio de um novo ano expectativas e esperanças se renovem e encontrem ares para se expandir e contagiar. As palavras aqui deveriam ser veículo de estímulo e de esperança.

Mas especialmente no dia de hoje (1º de Janeiro de 2019) para mim é um dia de palavras silenciosas. A mente, aquela que constrói as palavras pressente tempos de tempestade e obscurantismo. São os ares que matam as palavras ou as fazem natimortas. Nestes tempos não há respeito ou apreciação pela palavra polida, límpida e lapidada. É um tempo de poucos recursos semânticos, de prazer na desconstrução de ideias, pessoas, reputações, com desprezo pelo diferente, divergente. Tempos de ode à ignorância e ao pensamento fácil e populesco.

Mas, como nenhum movimento pode por si só extinguir o que é como rio, as palavras voltarão com certeza ante a diversidade.
É o inverno das palavras, que adormecerão aguardando a sua primavera para florir e grandes botões e explosão de cores. Estarão, nesta fase de hibernação, confortada por mais palavras, só que desta feita escrita por outros pares, outras mentes, outros arquitetos do saber. Armazenadas em relicários, que convencionamos chamar livros e que tornam-se fiéis depositários de séculos de pensamento humano e histórico.
É aí no conforto destas palavras que aguardarei as minhas.

De pronto espero acontecimentos.
Não estou nem esperançosa, nem feliz.
Mas sei também que a História não é feita de um e nem de poucos, e com certeza ela permanecerá, por mais que se tente retirar dela significados, ideias, pessoas. E nesta tarefa da permanência e imanência que as palavras garantem que a História se perpetue, para além de seus detratores.
O que direi portanto aos que como eu sentem-se expropriados de suas palavras?

Desejo que a aspereza dos dias mostrem caminhos criativos para que as mentes se libertem ainda mais. Que os pensamentos se fortaleçam e edifiquem com robustez para que as palavras não deixem de ser pensadas, ditas, escritas, disseminadas. Serão nossa fortaleza em tempos de crueza.

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