As cenas lamentáveis vistas nesta terça-feira (21) no Estádio Mário Filho, o Maracanã, entre torcedores do Brasil e da Argentina, e na sequência a violência da Polícia Militar contra centenas de pessoas, incluindo mulheres e crianças, vão além da incompetência da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) em não separar as torcidas e do que se tornou o estado do Rio de Janeiro.
O estopim da briga teria sido o histórico recente de ataques racistas de torcedores de clubes argentinos contra seus homônimos brasileiros, que, por sua vez, decidiram taxar todo e qualquer argentino de racista e promoveram cenas de desrespeito ao hino da Argentina e aos torcedores do país vizinho presentes no Maracanã.
Jogadores da seleção argentina, liderados por Lionel Messi, tentaram intervir, se dirigindo ao local do conflito, para logo em seguida tomarem a decisão de voltar aos vestiários.
Os jogadores brasileiros, por sua vez, se mantiveram em campo contrariados com a tomada de decisão dos rivais, chamando-os de covardes por desistirem do jogo.
O triste espetáculo poderia ser encaixotado em mais um capítulo da antiga rivalidade entre as duas seleções, mas não só as motivações da violência vista no Maracanã dizem o contrário, como há alguns milhares de quilômetros dali, em Lima, algo semelhante ocorreria horas depois.
Peru x Venezuela: racismo e xenofobia
A Federação Venezuelana de Futebol (FVF) informou nesta quarta-feira (22) que irá tomar medidas “perante os diferentes órgãos competentes, dentro e fora do futebol” para que “as agressões sofridas tanto pelos jogadores venezuelanos como pelos torcedores não fiquem impunes”.
Na terça-feira (21) à noite, em Lima, capital do Peru, aconteceu o jogo entre as seleções dos dois países pela sexta rodada das eliminatórias sul-americanas para a Copa do Mundo FIFA de 2026.
Ao término da partida, os jogadores venezuelanos foram saudar a torcida, atirando as suas camisas aos presentes, e foram impedidos de forma violenta pela polícia local. Dali por diante, até o aeroporto, a delegação venezuelana sofreu todo tipo de constrangimento e agressões.
Com o comunicado intitulado “A Venezuela se Respeita”, a FVF “condenou veementemente as agressões, tanto verbais como físicas, bem como os “atos de discriminação e xenofobia sofridos” pela seleção e por seus torcedores.
“O futebol deve ser sempre um espetáculo que promova a união e a competição saudável entre os países, um lugar onde não haja espaço possível para atos de discriminação, nem para situações de violência ou repressão”, declarou o órgão federativo.
Ataques racistas e xenófobos
Conforme os meios de comunicação informam, os jogadores e torcedores venezuelanos afirmam terem sido xingados e ofendidos tanto por policiais como por torcedores peruanos. Diziam que os venezuelanos tinham que ir embora do país, faziam referência pejorativa à “raça” deles e, no caso dos policiais, não houve espaço para conversa e os agentes logo partiram para a agressão.
O ministro da Juventude e Desportos da Venezuela, Mervin Maldonado, rejeitou “os ataques sofridos pelos atletas”, acusou a Polícia Nacional do Peru de agir motivada pela “xenofobia contra venezuelanos” e pediu ao governo peruano e para a Conmebol “uma investigação aprofundada” dos fatos.
Além disso, afirmou que a ação policial “não é surpreendente”, uma vez que os controladores de imigração já “estressaram” o ambiente. Nesse sentido, também denunciou os “comentários depreciativos carregados de violência contra as mulheres venezuelanas feitos por supostos comunicadores do Peru”.
Ações hostis desde antes do jogo
A FVF também condenou e denunciou ações “fora de campo” ocorridas antes da partida, como “os comentários sexistas e pejorativos de um grupo de jornalistas às mulheres venezuelanas”.
No programa de televisão peruano ‘A Presión’, os participantes e o seu apresentador zombaram e falaram sobre o aumento do “preço” das mulheres venezuelanas em caso de vitória da seleção da Venezuela, fazendo alusão direta à prostituição.
“Esse tipo de ação ataca diretamente o espírito esportivo e de harmonia que sempre deve reger o futebol e nossa federação irá combatê-los até as últimas consequências”, diz o comunicado.
As autoridades do futebol venezuelano denunciaram ainda que o avião que transportava a delegação da seleção e os torcedores de volta para a Venezuela ficou retido no Aeroporto Internacional ‘Jorge Chávez’, em Lima, durante horas a fio, sob a alegação de abastecimento da aeronave.
O caso se tornou um incidente diplomático. O ministro das relações exteriores da Venezuela, Yvan Gil, foi às redes sociais oficiais do governo para denunciar que o governo do Peru seguia impedindo o regresso da delegação venezuelana e torcedores ao país, mantendo-os detidos em Lima.
“O Governo do Peru realizou um sequestro vingativo de nossa seleção, que ontem disputou um jogo extraordinário. Exigimos a cessação imediata dos ataques contra nossa seleção e o povo venezuelano, assumindo suas obrigações no marco do respeito ao Direito Internacional e descartando práticas xenófobas”, disse Gil.
Governo Boluarte lava as mãos
Conforme a agência RT, o Ministério das Relações Exteriores do Peru informou por meio da rede social X que lamentava a situação do avião que transportava a seleção venezuelana.
Indicou que o governo da presidente Dina Boluarte “não ordenou nenhuma medida que proíba o reabastecimento do referido navio”. Em relação ao avião, o governo afirmou que “a referida aeronave sofre restrições de fornecimento de natureza comercial privada” que seriam “estranhas à vontade do Estado peruano”.
No entanto, as autoridades peruanas indicaram que estavam “tomando medidas para resolver a situação do avião encalhado o mais rápido possível”.
Com informações da agência RT
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