10 de junho de 2026

Secretário do Rio diz que “contexto” basta para afirmar que mais de 100 mortos eram criminosos

Declaração de Victor dos Santos sobre operação mais letal da história do Rio expõe desprezo por provas e reacende críticas
Foto: © Tomaz Silva/Agência Brasil

Após a operação policial mais letal da história do Rio de Janeiro, que deixou 121 mortos, sendo 117 civis e quatro policiais, o secretário de Segurança Pública, Victor dos Santos, afirmou nesta quarta-feira (29) que, diante da ausência de perícia em muitos casos, as autoridades recorreram a “todo o contexto” para concluir que as vítimas eram ligadas ao tráfico de drogas nos complexos do Alemão e da Penha. A declaração, feita antes da identificação de todos os mortos, expôs a distância entre o discurso oficial e os procedimentos técnicos exigidos.

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

Há base para dizer que os 115 mortos são criminosos. Claro que a gente vai fazer a pesquisa, mas não é um fato se, eventualmente, algum deles não tiver antecedentes criminais, se tornar vítima ou inocente”, disse o secretário, em coletiva de imprensa.

Em outro momento, reforçou o argumento: “A gente não consegue imaginar um inocente utilizando um colete balístico, mesmo se não tiver com arma naquele momento. A gente não consegue imaginar um inocente usando um uniforme camuflado.”

Santos acrescentou ainda que “a gente diminui a chance de ter algum inocente ou trabalhador na área de mata, até por conta do horário [5h30]. Dificilmente quem trabalha vai estar numa floresta, numa mata fechada, a não ser para prestar serviço à organização criminosa que domina aquele território”.

Mesmo sem saber quem são todos os mortos, o secretário de Polícia Civil, Felipe Curi, e o próprio Victor dos Santos reforçaram, em coletiva, que se tratava de “narcoterroristas”, “criminosos” e “marginais”. As expressões, repetidas antes de qualquer confirmação pericial, ajudam a construir uma narrativa de vitória, mas também obscurecem o processo de apuração e a obrigação de investigar cada morte individualmente.

No Instituto Médico-Legal, a contagem de corpos ainda estava em curso quando as autoridades já classificavam as mortes como “resultado do enfrentamento”. Enquanto isso, moradores da Penha e do Alemão relatavam cenas de horror, com dezenas de corpos sendo recolhidos em áreas de mata por familiares e vizinhos.

Ao basear a definição de culpa em elementos como o horário das mortes, o local onde as vítimas estavam e até as roupas que vestiam, o governo fluminense adota um critério subjetivo que escapa a qualquer padrão técnico. Essa lógica, apontam juristas e defensores de direitos humanos, é incompatível com o Estado de Direito.

A Defensoria Pública do Estado, o Ministério Público e organizações de direitos humanos já pediram esclarecimentos sobre os critérios usados na operação e o número real de vítimas. Para essas entidades, o pronunciamento do secretário não apenas fragiliza a credibilidade das investigações, como antecipa o resultado de um processo que ainda deveria estar em curso.

LEIA TAMBÉM:

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

4 Comentários
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. Rui Ribeiro

    30 de outubro de 2025 12:36 pm

    “Meninos que nunca portaram fuzis estão sendo contados no pacote como se fossem bandidos. E sabe quem vai saber se são bandidos ou não? Nunca [vão saber], ninguém vai atrás, porque preto correndo em dia de operação na favela é bandido”. – Deputado Otni de Paula

    Ruy Ferraz, entre muitos outras pessoas, usava colete à prova de balas. Porventura, o fato de usar um colete à prova de balas fazia dele um bandido?

  2. Paulo Dantas

    30 de outubro de 2025 12:48 pm

    Muito provável terem ligações com o tráfico mas um Estado não pode simplesmente não investigar.

    O número absurdo de mortes força uma reflexão sobre a sociadade que vivemos.

    Sou do Rio, digo sempre que aqui a gente se acostumos à barbárie.

  3. Rui Ribeiro

    30 de outubro de 2025 2:14 pm

    Que pretexto estúpido. A nossa elite merece bala. Não só a nossa elite, mas toda elite econômica e militar e, em alguns casos, também a elite política e religiosa

  4. emerson57

    31 de outubro de 2025 10:01 am

    emerson57 diz que “CONTEXTO” do governo do Rio de Janeiro abriga assassinos genocidas e BANDIDOS.

Recomendados para você

Recomendados