https://www.youtube.com/watch?v=CwfqNzl-iPQ
Na manhã da sexta-feira passada (11) foi realizada, no plenario da Assembléia Legislativa da Bahia, sessão especial para homenagear o Movimento da Quixabeira, organização musical de trabalhadores rurais que existe há cerca de 20 anos, reunindo lavradores/cantadores de 10 municípios do sertão da Bahia: Serrinha, Araci, Valente, Lamarão, Biritinga, Conceição do Coité, Ichu, Santa Bárbara, Feira de Santana e Alagoinhas. Os cantadores entraram no plenario da AL puxados pelo cordão do Lindroamor, o samba-de-roda reverberou no ambiente, os cantadores ocuparam o espaço defronte à Mesa Diretora, formando a roda de samba, antes do início dos trabalhos formais.
A sessão foi realizada por iniciativa de dois deputados, ambos do PT, Marcelino Galo e Gika Lopes, contou com a presença de dois prefeitos, Ismael Ferreira, de Valente e Dival Medeiros, de Lamarão; mobilizou autoridades estaduais e federais vinculadas ao setor de patrimônio cultural, vereadores e mais de 100 lavradores/cantadores.
Da tribuna da Casa, Zeca de Tapuio (Araci), primeiro presidente da Associação do Movimento, foi porta-voz do desejo de reconhecimento oficial e, ao mesmo tempo, reafirmou a necessidade de independência e autonomia “para tocar a caminhada” levando alegria às pessoas “com nossa diversidade de culturas”. Zeca de Tapuio e seus companheiros acreditam, com justa razão, que o registro como patrimônio cultural significará mudanças positivas em relação ao quadro atual. Por isso fala “em nome deste povo, que veio aqui em massa buscar melhores condições para continuar nosso trabalho”.
Qual o valor do “reconhecimento oficial” para garantir “melhores condições” de afirmação da cultura e memória populares? De que modo a “patrimonialização” impacta no movimento dessa cultura? É uma questão muito complexa e cada caso é rico em especificidades. Um balanço sobre as experiências de registros de patrimônio cultural imaterial pelo Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), p. ex., indicará perdas e ganhos relevantes – em vários casos mais perdas do que ganhos, sobretudo porque ao “patrimonializar” a expressão cultural popular, cria-se forte vinculo simbólico entre seus portadores e os designios estatais, tendendo a gerar sem-número de imprecisões e mal-entendidos.
O caso que conheço mais de perto é o do samba-de-roda do Recôncavo da Bahia, na medida em que atuei na equipe responsável pela pesquisa de campo para a montagem do Dossiê do IPHAN remetido à Unesco, por meio do qual se logrou o título de Obra Prima do Patrimônio Oral e Imaterial da Humanidade, conferido pelo órgão da ONU. Foram enormes os impactos produzidos pelo registro do samba-de-roda para o bem e para o mal, todos insuficientemente acompanhados pelas instituições que promoveram a patrimonialização.
É inegável que o título patrimonial é um modo de atrair a atenção de diferentes segmentos sociais para aquela expressão reconhecida e, inclusive, favorecer captação de apoios para a sustentação de atividades culturais. Este é um dos aspectos da questão que está na base do desejo de reconhecimento, que é de legitimidade inquestionável. Assim como Zeca de Tapuio e seus parceiros do Movimento da Quixabeira, entendo que o reconhecimento deva se traduzir em medidas eficazes, capazes de melhorar a qualidade de vida daquelas pessoas – este deveria ser o objetivo da política pública.
O desejo de registrar o movimento como patrimônio cultural em níveis estadual e federal, a presença de membros do movimento em conselhos e outros órgãos estatais traz consigo, contudo, a tendência de institucionalização que, em última instância, poderá conduzir o movimento a tornar-se instituição, logo uma máquina burocrática tal como ocorre com a maioria, senão todas as instituições.
Ora, quando o Estado isenta de impostos e cria infra-estrutura para grandes empresas, em nome da geração de empregos e desenvolvimento sócio-econômico, está sinalizando que seu papel é induzir e proteger. Em muitos casos, no Brasil, patrimonialismo significa a apropriação do público pelo privado, fato recorrente na nossa história.
Quando se trata de “patrimonializar” expressões culturais populares, estamos diante de situação totalmente diferente. Ao contrário dos poderosos grupos econômicos que submetem o Estado aos seus interesses, os grupos de cultura popular são infinitamente mais frágeis e, muitas vezes, a aproximação com o Estado e seus representantes – seja do poder Executivo e/ou Legislativo – tende a gerar a cooptação e/ou submissão dos seus próprios interesses aos interesses oficiais. Afinal, esses grupos apesar de detentores de saberes e fazeres de imenso valor simbólico, são descapitalizadas em termos financeiros e articulam-se precariamente com a parafernalia burocrática.
Zeca de Tapuio revelou ter plena consciência dessa situação. A responsabilidade do Estado perante a cultura do povo deve ser cobrada com toda a vêemencia, sem que isto signifique, contudo, que os portadores dessa cultura devam, a fim de angariar apoio institucional, abrir mão da independencia, da autonomia e da liberdade frente aos poderes oficiais. Lucidamente, Zeca marcou sua posição ao afirmar que a independencia é indispensável para preserver a vivacidade e criatividade dos gestos e ações dos grupos do Movimento da Quixabeira.
Defendemos que a gestão oficial da memória popular deve ser problematizada e contraditada pela auto-gestão dos seus próprios portadores, com a colaboração de seus amigos e apoiadores, inclusive do Estado (prefeituras, governos estaduais e União).
Homenagem póstuma – Durante a sessão prestou-se justa homenagem a Bernard von der Weid, criador do Movimento da Quixabeira, pesquisador e produtor executivo do long-play Da Quixabeira pro berço do rio (1992), falecido em 2014. Uma irmã, a esposa e dois filhos de Bernard participaram da sessão, emprestando ao evento um tom ainda maior de emoção. O LP reuniu 40 músicas da zona rural dos municípios de Feira de Santana, Serrinha, Araci e Valente, cantadas pelos próprios lavradores, com arranjos e regência do maestro Afonso Machado.
Em 1996, o LP “Da Quixabeira pro berço do Rio” foi convertido em CD e três de suas músicas viriam a ser reunidas, por meio de adaptação feita pelo cantor e compositor baiano Carlinhos Brown, na faixa única “Quixabeira”, do CD “Alfagamabetizado” (1997) cantada por Caetano Veloso, Maria Bethânia, Gal Costa, Gilberto Gil e pelo próprio Brown (que pode ser ouvida aqui: https://www.youtube.com/watch?v=3QjsedRXg9Q).
Em 1997, o movimento, por iniciativa de Bernard, realizou a 1a. Festa da Quixabeira, na cidade de Valente. Na oportunidade, a festa foi registrada pela TV Educativa da Bahia e serviu como base para a montagem do documentário “Quixabeira – da roça à indústria cultural” (60 min, 1998), exibido diversas vezes na própria TVE-Bahia, em rede nacional pela TV Cultura e em festivais no Brasil e no exterior.
Link documentário “Quixabeira – da roça à indústria cultural”(1998, 60 min) https://www.youtube.com/watch?v=q_0-WbvYWGI Parte 1/4
Link do LP/CD “Da Quixabeira pro Berço do Rio” (1992)
http://www.acervoorigens.com/2010/12/da-quixabeira-pro-berco-do-rio-23122010.html
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