Um país brutalizado

” ‘O País Da Delicadeza Perdida’ é um especial que Chico Buarque estrelou para a televisão francesa em 1990. Se nos perdoarem a redundância, um especial realmente especial. E praticamente inédito. Nele, o compositor, letrista, cantor, personagem maior da música popular brasileira, passa em revista 25 anos de Brasil, ‘um país leve e sempre em movimento’ no início da década de 60, quando ele começou a fazer música, mas ‘um país sem inocência’ nos anos seguintes, como se mergulhado na ‘noite da grande fogueira desvairada’. São entrevistas, canções de época, show comemorativo (dos 25 anos de carreira) na Fundição Progresso, cenas de filmes, tudo costurado para que se conheça, através de sua poesia em música, um primeiro Brasil, o do futuro, o do otimismo, o da Lapa dos pais musicais de Chico, o da Copacabana que olhava para o alto, promovendo o encontro dos jovens compositores cá de baixo com as raízes africanas lá de cima (contraste sim, mas não confronto), e também o da Ipanema de João Gilberto, o de Brasília, o de Rio 42, o dos astros e estrelas que nos visitavam, o da delicadeza. E depois, no Brasil que se segue, ficção e realidades confundidas. Não se chega a descer no inferno, mas perde-se o paraíso. A poesia, pouco a pouco, faz-se suja. E Chico Buarque, através dela, sintetiza o grito poético de uma época.” (João Máximo)

PARA REENCONTRAR O PAÍS DA DELICADEZA PERDIDA
Do Blog Outras Palavras


Mais de duas décadas após lançado, documentário em que Chico Buarque
lamenta fim do “homem cordial” sugere novos sentidos para o Brasil

Por Arlindenor Pedro

O país da delicadeza perdida é nome do documentário dirigido por Walter Salles e Nelson Mota sobre a carreira de Chico Buarque, feito especialmente para a televisão francesa FR3 e lançado em 1990, há 25* anos. O tema e a performance do compositor e cantor convidam a revê-lo, à luz da atualidade.

Na época, Walter Sales ainda não era o premiado diretor internacional de Terra Estrangeira (1995), Central do Brasil (1998), Abril Despedaçado, ou mesmo do internacional Diários de Motocicleta, sobre a odisseia do jovem Che Guevara nos confins da América Latina. Mas já demonstrava seu talento, trazendo para as telas a contradições dos Brasis de Chico Buarque, que se expressavam através do seu repertório e sua visão sobre um novo país, que ali despontava.

Produzido para dialogar com um público internacional, O país da delicadeza perdida procura explicar quem somos e o que desejamos nesse mundo globalizado. O compositor segue certamente as premissas que um dia eu vi expostas por Caetano Veloso: um país não existe meramente por existir; tem um sentido intrínseco, de trazer algo original para o conjunto da humanidade. Por isso, paira no ar a pergunta: qual é realmente o sentido da nossa existência? Que trazemos de novo, para o conjunto da humanidade?

Sérgio Buarque de Holanda, pai do compositor Chico Buarque, nos diz no clássico Raízes do Brasil, de 1936, que ”… a contribuição brasileira para a civilização será de cordialidade – daremos ao mundo o ‘homem cordial’. A lhaneza no trato, a hospitalidade, a generosidade, virtudes tão gabadas por estrangeiros que nos visitam, representam, com efeito, um traço definitivo do caráter brasileiro, na medida, ao menos, em que permanece ativa e fecunda a influência ancestral dos padrões de convívio humano, informados no meio rural e patriarcal”. (Sérgio Buarque de Holanda, in Raízes do Brasil.)

Mas, para não deixar dúvidas sobre o sentido da palavra, ele continua: “Seria engano supor que essas virtudes possam significar ‘boas maneiras’, civilidade. São antes de tudo expressões legítimas de um fundo emotivo extremamente rico e transbordante”. (idem). Opondo-se ao conceito de polidez encontrado em outras civilizações, o professor nos diz que: “Nenhum povo está mais distante dessa noção ritualista da vida que o brasileiro. Nossa forma ordinária de convívio social é, no fundo, justamente o contrário da polidez. Ela pode iludir na aparência – e isso se explica pelo fato de a atitude polida consistir precisamente em uma espécie de mímica deliberada de manifestações que são espontâneas no ‘homem cordial’: é a forma natural e viva que se converteu em fórmula. Além disso a polidez é, de algum modo, organização de defesa ante a sociedade. Detém-se na parte exterior, epidérmica do individuo, podendo mesmo servir, quando necessário, de peça de resistência. Equivale a um disfarce que permitirá a cada qual preservar intatas sua sensibilidade e suas emoções.(…) No homem cordial, a vida em sociedade é, de certo modo, uma verdadeira libertação do pavor que ele sente em viver consigo mesmo, em apoiar-se sobre si próprio em todas as circunstâncias da existência. Sua maneira de expansão para com os outros reduz os indivíduos, cada vez mais, à parcela social, periférica, que no brasileiro – como bom americano – tende a ser o que mais importa. Ela é antes um viver nos outros. Foi a esse tipo humano que se dirigiu Nietzsche, quando disse: ‘Vosso mau amor de vós mesmos vos faz do isolamento um cativeiro’.” (ibidem).

Durante o documentário, Chico Buarque, o filho, recorre ao pai, e a sua tese do ”homem cordial” para fazer menção às mudanças vividas pela sociedade brasileira. À época do show – realizado e filmado na Fundição Progresso, para comemorar seus 25 anos de carreira – esta apresentava um grau de violência aparente diverso da sociedade esperançosa dos anos 1950 e 60, na qual o compositor viveu sua infância e juventude. Daí o título, que procura mostrar as diferenças entre uma sociedade com traços de ingenuidade — “um país leve e sempre em movimento” – e aquela que observa naquele momento do show: uma nação embrutecida.

Segundo João Máximo, que faz a apresentação da obra (comercializada pela BMG, em 2003), “o primeiro Brasil é o que caminhava para o futuro, o do otimismo, o da Lapa dos pais musicais de Chico, o da Copacabana que olhava para o alto, promovendo o encontro dos jovens compositores cá de baixo com as raízes africanas lá de cima (contraste, sim, mas não confronto), e também o da Ipanema do João Gilberto, o da Brasília, o do Rio 42, o dos astros e estrelas que nos visitaram, o da delicadeza. No Brasil que se segue, ficção e realidade se confundem. Não se chega a descer ao inferno, mas perde-se o paraíso. E a poesia, pouco a pouco, faz-se suja”.

O documentário entremeia imagens dessas épocas e apresenta, para mostrar o presente (estamos falando dos anos 1990) imagens do filme Uma Avenida chamada Brasil, de Otávio Ribeiro (que, diga-se de passagem, estão hoje banalizadas pela sofisticação e modernização dos esquemas de violência em que convivemos).

Para fixar bem as diferenças, o documentário faz um corte entre os dois momentos: é a chegada dos militares ao poder, em 1964, quando se inicia o processo de modernização autoritária do Estado brasileiro. Vende-se a imagem do “Brasil Grande”, potência emergente que precisa de infra-estrutura e obras faraônicas, como Itaipu e a Transamazônica. O Estado se centraliza: leva eletricidade ao interior, desenvolve pesquisa nuclear e promove o chamado “Milagre Brasileiro” – tudo isso com a banalização da violência e o conceito excludente de patriotismo.

Todas as estruturas são mexidas, adaptando-se aos novos tempos. E é nesse contexto que se faz a música de Chico Buarque, jovem estudante de arquitetura que conviveu na infância com um Brasil e vive a maturidade em outro país – onde a cordialidade da emoção, do coração, não tem mais lugar. Torna-se, então, arauto da liberdade e da igualdade social.

E hoje: depois de 25* anos, poderíamos falar em um terceiro momento, diferente daquilo que Chico chamou de “inocência perdida”?

Após a falência do modelo militar de 64, o país vive um novo momento. Adapta-se a um mundo que se globalizou de forma acelerada e às transmutações do capitalismo (a chamada 3ª revolução industrial) – que nos impuseram novos conceitos e novas formas de convivência.

Num mundo globalizado onde os demais modos de produção antes existentes foram totalmente derrotados pelo capitalismo, reina absoluta a mercadoria, acentuando para todos o seu valor de troca. Um mundo homogêneo que exige fluxo constante de mercadorias e a subordinação de todos ao desígnio único: consumir. Para isso tem-se que adequar todas as economias a esse sentido, de uma forma em que o particular subordine-se ao geral.

Nas novas condições, a felicidade é equiparada a posse de objetos. O consumo rege o modelo de vida, definida pelo excesso de ofertas, demandas vorazes e liquidez. O sistema oferece objetos customizados para todos os gostos. O “ter” que já tinha substituído completamente o “ser”, dá lugar ao “parecer”. Ou seja: não é mais necessário possuir um produto, se uma cópia perfeita dá a mesma sensação de satisfação, dentro do grupo social que frequento.

O brasileiro teve, em consequência, de modificar o seu modo de vida, assumindo uma forma de viver mais racionalizada, onde a economia e o consumo estão no vértice da sua existência como ser social. Um mundo mais complexo se impôs: impessoal, regido pelos sistemas, onde cada vez menos se pode interagir com o semelhante. Onde as negociações tornam-se impessoais e as relações entre amigos, baseadas na emoção, já não prevalecem. Todos buscam um lugar ao sol, e competitividade, numa relação darwiniana, só premia os mais fortes. Solidariedade, hospitalidade, generosidade eram, além de virtudes presentes no pensamento de Sérgio Buarque, o que ele via como nossa contribuição à civilização. Mas não são capazes de se impor no mundo contemporâneo: complexo, múltiplo e impossível de ser compreendido, embora pautando pelo racionalismo…

Seguimos o curso de perdermos nossas particularidades diluindo-nos no mundo global. Adotamos novas formas de comer, de passar o tempo, de nos vestir, de ouvir músicas, de trabalhar e de pensar – muito mais semelhantes ao conjunto da aldeia global. Nossos shoppings são idênticos aos de qualquer pais no exterior. Engordarmos com os mesmos carboidratos e morremos das mesmas doenças — além de ouvirmos e assistimos às mesmas noticias.

O cidadão tem cada vez menos entendimento da realidade que o cerca. Sucumbe ao fato de que a realidade lhe aparece de forma cada vez mais fragmentada, em esferas cada vez mais separadas. Num mundo separado em compartimentos estanques, o indivíduo isola-se cada vez mais no espaço em que foi confinado. Resulta que cada um consegue reconhecer apenas parte ínfima desse mundo. Mas sente, ainda assim, necessidade de tomar consciência do todo. E só pode fazê-lo por meio de outros – de intermediários que passam traduzir-lhe essa totalidade, permitindo-lhe aproximar-se de uma visão mais próxima do real. Surge a figura do especialista, que tem, nos mais diversos ramos, a função de “explicar” essa realidade fora da sua compreensão. Enxergando a realidade com os olhos de outros, como num espelho invertido, assume uma postura de espectador, abdicando da vida vivida.

Como esse estado é, em última instância, o contrário da vida – que exige intervenção constante – forma-se um ser social alienado, na verdadeira acepção da palavra. Ele detesta, por exemplo, a ação política, delegando o poder para os políticos profissionais que, julga, estão mais capacitados para intervir na administração pública. Vemos então, mesmo no campo da política – próprio das utopias e do confronto de pensamentos – a subordinação à economia e o fim da ideia de inovação.

Em tal contexto, tornou difícil ao poeta tocar o coração dos outros com a delicadeza de suas palavras. Perdura a brutalidade da existência social, aquilo que Chico chamou de “a noite da grande fogueira desvairada” A arte, assim como tudo, transformou-se em mercadoria e as relações tornaram-se diretas e agressivas. Mesmo na contestação, exige-se um linguajar preciso, contundente e condensado, numa sociedade do twiter, onde não se tem tempo a perder.

Entendo a concepção do documentário como um lamento do artista, diante de um mundo em que sua contestação e denúncia foram banalizadas pela sociedade. Que importa? Somos a 5ª economia do mundo! Temos um dos maiores milionários do planeta…

Mas teríamos perdido nosso sentido por completo? Talvez não. Sérgio Buarque acreditava que as características do “homem cordial” foram adquiridas num longo processo da nossa formação, dentro da sociedade rural e patriarcal. Serviriam tanto para o bem como para o mal. Portanto, seriam elementos fortes da nossa forma de ser. Não seriam extirpadas facilmente.

Ao assistirmos à falência do modelo construído pela burguesia liberal, e ao olharmos as grandes manifestações de contestação que ocorrem pelo mundo – cujos atores buscam novas formas de relacionamento humano – surge um novo cenário. Nele, recuperar e acentuar nossa característica perdida já não é um ato inocente e fora de sentido. Torna-se imperativo. É o que permite dar sentido a nossa própria existência, como contribuição que poderá ajudar a vencer a barbárie – esta tendência concreta que põe em risco até mesmo nossa existência como espécie.

A história não se repete, já nos falou o filósofo**. Não voltaremos ao lado positivo dos anos dourados. Mas, podemos tê-los como sentido na construção de um mundo novo, onde as relações sejam efetivamente humanas. Por isso, a arte continua jogando um importante papel. Acredito que essa “fogueira desvairada” será apagada por dentro do sistema, na falência da sua própria existência, que não nos aponta para lugar algum. Cabe aos artistas – que todos somos – descobrir no dia-a-dia, plenos de sensibilidade, novas forma de viver, que nos removam da Caverna de Platão.

Serra da Mantiqueira, fevereiro de 2012


Arlindenor Pedro é professor de História e especialista em projetos educacionais. Anistiado por sua oposição ao Regime Militar dedica-se na atualidade a produção de flores tropicais na região das Agulhas Negras.
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(*)
atualização
(**) grifo nosso: exceto em Karl Marx – “A história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”.
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Chico ou o País da Delicadeza Perdida, documentário produzido pela Videofilmes para a televisão francesa em 1990. Dirigido por Walter Salles, o vídeo possui depoimentos de Chico Buarque sobre música brasileira, sobre as condições sociais e políticas no Brasil e sobre a própria carreira. Também há trechos do show que Chico apresentava na época, em paralelo a um ensaio que mostra a violência e miséria no Rio de Janeiro e no Brasil. 

Faixas:
01. Estação Derradeira
02. Eu Quero Um Samba / Essa Moça Tá Diferente
03. Brejo Da Cruz
04. Joana Francesa
05. O Que Será (À Flor Da Pele)
06. Olhos Nos Olhos
07. Samba Do Grande Amor (Part. Especial: Gal Costa)
08. Baticum (Part. Especial: Gilberto Gil)
09. Morro Dois Irmãos
Bônus Inédito:
10. Rio 42 / Não Existe Pecado Ao Sul Do Equador
11. Mil Perdões
12. Sem Compromisso / Deixa a Menina
13. A Volta Do Malandro

https://www.youtube.com/watch?v=ZABzTWUcQ8c align:center
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5 comentários

  1. A perda da delicadeza

    A perda da delicadeza coincide com o ganho da rede globo.

    Será que foi ganho mesmo? Penso que ganhamos um  cancro que já passou da hora de sofrer cauterização.

  2. Assisti ao documentário com

    Assisti ao documentário com sentimentos variados. Nostalgia, tristeza pela crueza de algumas imagens, felicidade por ouvir algumas músicas ótimas das quais já havia até me esquecido, a percepção  de  que já evoluimos daquele miserê todo, mas ao mesmo tempo me lembrando das manchetes de hoje, com uma criança morta no morro, por pessoas que ali estavam para protegê-la. A dor de seus pais me mostra que se algo mudou, ainda falta muito para que todos tenham o respeito que merecem. Ao mesmo tempo também me vieram à mente os textos cheios de ódios dos blogs de direita e um projeto de melhoria que está sendo jogado contra as cordas por entes que se escondem nas sombras e que visam unicamente a riqueza pessoal de meia dúzia. Ainda há muito o que fazer. Envelhecemos o Chico, o Lula, eu e talvez  estejamos próximos demais do fim de nossas caminhadas, e ainda falta tanto… Tomara que essa nova geração tão despolitizada e tão cheia de ódio, consiga superar tudo isso e seguir caminhando para o progresso e o conhecimento com um pouco mais de leveza e esperança. 

  3. O extremo da violência é a
    O extremo da violência é a negação dela reproduzida de maneira acrítica pela imprensa. “A PM nega… ” é uma fórmula utilizada pelos telejornalistas para indiretamente legitimar a brutalidade policial. E está fornece o padrão de relacionamento entre os cidadãos. A espiral de violência cresce e ao invez de ser combatida na origem (ou seja dentro das redações) é transferida para o povo, vítima contumaz da brutalidade policial. Os comandantes das PMs nunca são confrontados publicamente com a violência praticada por seus comandados. Quando entrevistados eles são tratados como heróis. Da-se no jornalismo brasileiro o inverso do que ocorre no exterior. Digo isto pensando no que ocorreu com um dos responsáveis do massacre de Mai Mai, levado a negar na TV as imagens que eram projetadas atrás dele sem ele saber. Nada disto ocorre na TV brasileira, que se diz livre e defende sua liberdade e paradoxalmente não a utiliza quando se trata de confrontar a violência policial.

  4. Chico

    Comentar Chico, é usar todos os predicados, é o Brasil…..

    é o teatrógo,  é na literatura…. é um todo…. é o Genio q Jobim já dizia único no Br.

    Oh Deus !!! é o nosso ídolo…. nosso caminho !!!

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