11 de junho de 2026

Por que a vacina contra herpes-zóster, de alto custo, não está disponível no SUS?

Vacina contra herpes-zóster está entre as mais caras e Ministério não pretende disponibilizá-la no SUS
seringa com vacina
Foto: Fabio Pozzebom/Agência Brasil

A nova vacina contra a herpes-zóster, doença conhecida como cobreiro, começou a ser disponibilizada neste mês em clínicas privadas de todo país, com um dos preços mais elevados do mercado. Indisponíveis nos Sistema Único de Saúde (SUS), as vacinas estão longe de serem introduzidas no Plano Nacional de Imunização (PNI).

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

O novo imunizante chamado Shingrix é fabricado pela farmacêutica GSK, tem 90% de eficácia em pessoas a partir de 50 anos, idade em que o vírus se torna mais suscetível. A vacina também é liberada para os imunossuprimidos a partir de 18 anos – diferentemente da vacina de geração anterior, a Zostavax, da farmacêutica MSD, que tem 70% de eficácia e dose única, custando, em média, R$ 550,00.

Para a imunização completa com a Shingrix, são necessárias duas doses sendo que cada uma delas custa, em média, R$ 843,00. A imunização completa custaria cerca de R$ 1.686,00. Há estados que comercializam uma dose por cerca de R$ 900,00, porque o valor muda de acordo com os impostos de cada região.

A APROVAÇÃO DA ANVISA

GGN ouviu médicos sanitaristas sobre a indisponibilidade do imunizante para adultos no SUS, no momento em que casos da doença crescem na esteira da pandemia de Covid-19.

Todos os especialistas apontaram que para uma vacina ser implementada no SUS, é necessário haver estudos sobre o impacto coletivo da doença a ser prevenida, e este é o principal impasse para as vacinas contra a herpes-zóster para adultos serem implementadas no PNI.

“A incorporação de qualquer nova vacina passa por um processo criterioso de análise. Em primeiro lugar, segue diretrizes gerais da OMS [Organização Mundial da Saúde], que faz recomendações a partir do parecer de painel de especialistas, sobre a eficiência, a eficácia e a efetividade da vacina em coletividades. O principal objeto das vacinas é sempre o de produzir proteção coletiva. E ela deve também não expor quem a toma a riscos e efeitos colaterais graves. Efetividade e segurança são, portanto, os principais critérios”, explica o ex-ministro da Saúde, Arthur Chioro.

“Outro [fator] que não pode ser desconsiderado, é o custo de sua implantação. Uma vez incorporada, tem que ser garantida sua aquisição, e não pode faltar”, acrescenta o ex-ministro.

A médica sanitarista Carla Domingues, coordenadora do PNI de 2011 a 2019, destaca que não necessariamente uma vacina que recebeu o registro da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) será incorporada ao PNI.

“A gente precisa entender que a vacina, quando ela é registrada Anvisa, ela atende aos critérios de eficácia e segurança, mas não necessariamente uma vacina que atenda a esses critérios vai ser incluída na tabela nacional de imunização, porque para ser introduzida no PNI, ela tem de atender a outros critérios”, pontua.

A herpes-zóster é uma doença que geralmente acomete a região das costas, provocando coceira e dor na região

OS CRITÉRIOS PARA INCLUSÃO E DISTRIBUIÇÃO PELO SUS

“Por exemplo, tem que haver um problema de saúde pública importante, uma elevada taxa de morbidade, de casos graves, internações ou óbitos. Além disso, tem que haver um problema nacional – não adianta ser um problema local – porque isso não faz sentido no critério de ser um problema de saúde pública de relevância nacional”, esclarece Carla Domingues.

O médico sanitarista Gonzalo Vecina Neto também aponta que o investimento é levado em conta. “Essa não é a única vacina existente que o SUS não disponibiliza. Existem outras. Qual a razão? Basicamente a questão do investimento versus o impacto coletivo da vacina”, diz.

Domingues vai mais a fundo. “Além de avaliar a magnitude da doença, o Ministério da Saúde vai avaliar o impacto econômico dessa doença para o SUS. Se essa vacina vai diminuir o número de internações, os custos do tratamento e se vai aumentar a qualidade de vida da população”, fala.

A POSIÇÃO ATUAL DO MINISTÉRIO DA SAÚDE

Procurado pela reportagem do GGN, o Ministério da Saúde informou que “a incorporação de uma vacina na rede de serviços do Sistema Único de Saúde leva em conta aspectos como eficácia, acurácia, efetividade e segurança. Além disso, são feitas avaliações epidemiológicas, que incluem a análise de incidência e taxas de hospitalização e morte pela doença”, diz a nota.

A pasta, no entanto, não informou se há discussões em andamento sobre a implementação da vacina no SUS, considerando o aumento de casos.

Para o ex-ministro da Saúde Arthur Chioro, a pauta não é prioridade do governo de Jair Bolsonaro (PL).

“O nosso PNI está destruído. O Comitê de Especialistas está desorganizado e quase não se reúne. Seus pareceres são desconsiderados pelo Ministério da Saúde. Assim, não me surpreendo que sequer o tema esteja em análise ou sendo considerado de forma adequada”, aponta.

“Se forem reunidas evidências que justifiquem sua incorporação, cabe ao Ministério da Saúde ir a campo para negociar preço (já que nenhum país compra tanto quanto nós, e por isso temos como usar o ‘poder de compra público’ para conseguir bons preços). Ou colocar nossos institutos (Fiocruz e Butantã) para desenvolvê-la, a custos suportáveis para o País”, sugere o ex-ministro

Para Domingues, o caminho a ser adotado deve ser o de priorizar a disponibilidade gratuita para grupos especiais.

“Tem a possibilidade que, mesmo que essa vacina não seja implementada no programa de saúde pública nacional, para todas as pessoas, pode recomendar ser colocada nos centros de referência para imunobiológicos especiais [CRIEs], para pessoas imunossuprimidas. Eu acredito que esse possa ser o caminho natural dessa vacina de herpes-zóster. Mesmo que não tenha necessidade de atender todas as pessoas acima de 50 anos, pode tentar introduzir para esses grupos especiais, que têm alguma condição clínica que necessite de vacinação”, explica.

OS SINTOMAS DA HERPES-ZÓSTER

A herpes-zóster é causada pelo vírus varicella-zóster, que também provoca a catapora manifestada na maioria das vezes na infância. Acontece que o varicella-zóster permanece no organismo a vida inteira e pode manifestar-se novamente como herpes-zóster, principalmente naqueles acima dos 50 anos ou em imunocomprometidos, já que a doença é consequência da queda da imunidade.

A doença provoca coceira e, em alguns casos, bolhas de água e inflamações na pele, que causam dor. A herpes-zóster pode ser um fator de risco para AVC e ataque cardíaco. Em casos graves, pode levar à morte.

Diferentemente da vacina contra a herpes-zóster, o SUS disponibiliza a vacina contra a catapora para crianças até dois anos de idade. Carla Domingues explica que o imunizante faz parte do PNI porque a catapora é “um problema importante de doença na infância, não só pela gravidade, mas também pelas sequelas que pode ter durante a vida.”

O médico Gonzalo Vecina pontua que a vacina para as crianças é uma “commodity aplicada através da penta ou da tríplice viral. Bastante baratas, sem patentes e com grande impacto, principalmente devido ao conjunto de vacinas que inclui o sarampo”.

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recomendados para você

Recomendados