17 de junho de 2026

Vendeta, seu nome é Mandetta, o Ministro que acabou com o Mais Médicos

O racional Mandetta, o homem que coloca a objetividade e o compromisso com a saúde acima das disputas ideológicas, explica porque promoveu o maior desastre sanitária pré-pandemia, o fim do programa Mais Médicos.

O livro do ex-Ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta é um testemunho precioso desses tempos de loucura. Expõe o hospício bolsonariano por dentro, o Ministro da Educação disputando o título de mais radical, o da Economia sem conseguir sair da frente do espelho, espelho meu, a familia Bolsonaro tresloucada, submetendo o futuro do país às suas pirações tenebrosas e ministros militares submissos a um presidente sem noção. 

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É um livro de auto-defesa, com pouco espaço para a auto-crítica.

Por exemplo, o racional Mandetta, o homem que coloca a objetividade e o compromisso com a saúde acima das disputas ideológicas, explica porque promoveu o maior desastre sanitário pré-pandemia, o fim do programa Mais Médicos. Porque jamais conseguiria admitir o comércio de pessoas, de médicos cubanos trabalhando e a maior parte da renda indo para o governo cubano.

Ideologismo rasteiro da pior qualidade. Primeiro, por não pensar naqueles que estavam sob sua responsabilidade, as populações atendidas pelo programa e que foram abandonadas à própria sorte, enquanto Mandetta enchia a mídia de fake news sobre os médicos brasileiros que substituiriam os cubanos.

Depois, pela supina ignorância de não conseguir entender um modo de vida diferente do seu, de um país que trata a saúde pública como bem público e tem como produto de exportação médicos especializados em saúde pública – a maior parte dos quais com notável espírito público de combater as doenças em países estrangeiros, sabendo que parte relevante dos recursos irá para o bem estar de seus cidadãos.

Em muitos episódios, o personagem que se coloca como o Sir Galahad da saúde tenta curar a infecção da politiquice com mercúrio cromo. Como no episódio em que muda os critérios de distribuição das verbas da saúde para atender seu correligionário Antônio Carlos Magalhaes Neto, prefeito de Salvador. E tenta justificar o ato com um republicanismo de araque.

O segundo ponto é a defesa sincera que faz da Fiocruz, a admissão de que a maior parte dos sanitaristas é de esquerda e o receio de que Bolsonaro boicotasse o programa por conta de sua visão míope de ideologia.

Foge do tema principal: porque, desde o começo, não acatou as recomendações da Fiocruz e antecipou a guerra contra o Covid, com o isolamento e a compra antecipada de respiradores e outros produtos médicos?

Houve o aviso, sim, e Mandetta ignorou solenemente. No livro, atribuiu a responsabilidade à Organização Mundial da Saúde e humildemente conta que foi ele quem alertou a instituição para a dimensão da pandemia que vinha pela frente.

De qualquer modo, assim como o General Della Rovere, no filme clássico de Victorio De Sicca, de Crápula a Herói, em determinado momento Mandetta deu-se conta de que as circunstâncias lhe tinham conferido um papel histórico. E comportou-se com dignidade à altura do personagem que passou a personificar.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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11 Comentários
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  1. Yuri

    27 de setembro de 2020 7:25 am

    General Della Rovere foi inicialmente contratado pelos Nazis para impersonar um herói da resistência e se infiltrar na resistência. Assim são todos os governos e politicos, em menor ou maior grau mas sem exceção, um bando de atores desempenhando um papel social de fachada mas com objetivo primário de manter o status-quo. Se usássemos a ciência ao invés de ideologias com formato de crenças religiosas, já teríamos colocado em questionamento nosso pacto social com governos e sistemas monetários. A única pergunta política que deveríamos fazer é: Por que obedecemos governos?

  2. Ugo

    27 de setembro de 2020 9:54 am

    Reproduzo a síntese do comentário hodierno do Brito:
    No filme “Advogado do Diabo”, o demônio, encarnado pelo ator Al Pacino, diz, várias vezes: “Vanity, definitely my favorite sin!” (“Vaidade, definitivamente é meu pecado preferido!”). O nome do personagem é John Milton, autor de uma poema épico chamado Paraíso Perdido, não por acaso.

  3. 321 321

    27 de setembro de 2020 10:05 am

    O documentário do DCM, Dr. Melgaço

    https://www.youtube.com/watch?v=HdjA6kpLHpc&t=23s

    Melgaço é um município brasileiro situado do estado do Pará, especificamente no Arquipélago do Marajó, a uma latitude 01º48’16” sul e a uma longitude 50º42’44” oeste, estando a uma altitude de 12 metros em relação ao nível do mar. Possui uma área de aproximadamente 6774 km² e uma população estimada em 2016 de 26 642 habitantes, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

    Melgaço é o município com o menor IDH do Brasil.

  4. Luis Fernando

    27 de setembro de 2020 10:37 am

    O Sr. Dr. Mandetta com seu livro não passa de um oportunista político querendo surfar na onda de que era o melhor no meio da escória. Tem mais cara de promoção política do que auto-crítica.

  5. jaciara siqueira coelho

    27 de setembro de 2020 11:18 am

    Ótimo artigo. Mandetta é um oportunista.

  6. Wilson Ramos

    27 de setembro de 2020 11:21 am

    Os médicos brasileiros acham que o investimento que eles e suas famílias fazem na sua formação é suficiente para merecerem altas remunerações e vida privilegiada. Não são capazes de identificar que a maior contribuição para sua formação é a doença do povo. Nada estranho não entenderem como os médicos cubanos podem repartir sua remuneração com quem os fez médicos.

  7. Lúcio Vieira

    27 de setembro de 2020 1:11 pm

    E um presente dele e de Bolsonaro para as crianças, futuro do país é que por volta da data de comemoração do dia das crianças, serão em números oficiais, portanto abaixo dos número reais, cerca de 150.000 óbitos pela Covid-19 no país. E no ritmo que vem tendo, de queda lenta, no Natal, o presente do governo, com sua marca de descaso pela saúde, será os 180.000 que foi “prometido” ao irresponsável na cadeira presidencial. Mandeta, que entrou no governo, por suas ligações estreitas com a saúde suplementar (privada) deixa sua marca impressa, já que até a Índia com sua população mais de 6 vezes maior que a do Brasil, tem hoje um número de mortos, dezenas de milhares a menos.

  8. marcio gaúcho

    27 de setembro de 2020 1:20 pm

    Nesse governo fascista, todos os integrantes são suspeitos nas suas atitudes e ninguém é inocente. O livro do Mandetta é a sua justificativa de ter entrado num hospício, gostado muito dele e, quando passou ser considerado mais um dos malucos, tratou de mudar de tática para sobreviver no sistema e sair dele numa boa, como herói e vítima. Ainda assim, permanece como suspeito e cuspindo no prato em que comeu. Político rasteiro e malandro, esse!

  9. naldo

    27 de setembro de 2020 1:39 pm

    Como esquecer as primeiras entrevistas em que o cidadão aparece irritadiço, arrogante com os jornalistas? E quando percebeu que a coisa ia ficar feia e a reputação fake que havia adquirido ia para o espaço tratou de correr da raia…..

  10. +almeida

    27 de setembro de 2020 8:25 pm

    Mandetta já não era tão confiável antes de ser ministro. Com o jogo da mídia e dos holofotes, eu avalio que passou a ser menos confiável ainda e depois de tudo, se jogou na aposta do oportunismo da história para mostrar a sua verdadeira face conservadora.

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