Xadrez das suspeitas do doleiro que encantava procuradores, por Luis Nassif

Mas as informações confirmam as suspeitas que o GGN, e outros sites independentes, divulgaram desde 2015, e que foram solenemente ignoradas pela mídia, sobre os advogados da delação premiada. A blindagem da mídia sobre a Lava Jato era tão formidável que passou aos procuradores a sensação da impunidade perpétua. Ganharam poder absoluto, porque as suspeitas contra eles eram jogadas no caldeirão geral do petismo.

Peça 1 – o histórico de Dario Messer

Desde os anos 90, Dario Messer era conhecido como um dos mais influentes doleiros do país, sucessor da Casa Piano, como doleiro dos doleiros.

Algumas referências a ele, retiradas dos arquivos da Folha:

Junho de 2003, a Folha divulgou o envolvimento de Dario Messer com a máfia dos fiscais do Rio de Janeiro.

Agosto de 2004 – com base em um CD enviado pela Promotoria de Nova York à CPI do Banestado, sobre as contas do MTB Bank, de Nova York, entre janeiro de 1997 e 24 de novembro de 2003, mostrou que doleiros brasileiros giraram US$ 2,4 bilhões em 42 contas. A principal operadora era a Depolo Corporation, que se constatou ser de Dario Messer, alvo de mandado de prisão na Operação Farol da Colina.

Junho de 2005 – Justiça Federal decreta bloqueio de bens de procuradores do jogador Ronaldo. Na agenda dos empresários, aparece várias vezes o nome Dario, que a PF constata ser Dario Messer, titular de conta no CBC Bank, em Nova York.

Setembro de 2005 – denunciado por um adversário, Toninho Barcelona, como sendo operador do PT. A denúncia não foi comprovada. Mas constatou-se sociedade de Bruno Messer, sobrinho de Dario, com o senador Ney Suassuna (PMDB-PB). Segundo reportagem da Folha, a PF já considerava Dario Messer o maior doleiro do país, tendo movimentado mais de US$ 1 bilhão. Em outra denúncia, Messer é apontado como doleiro do banco Oportunity.

Nos anos 90, seu nome foi envolvido em escândalos como a dos Precatórios e da Máfia do INSS.

Peça 2 – o relatório Mentor e Dario Messer

Na CPMI do Banestado, houve conflito entre os parlamentares, o que resultou em dois relatórios. Um deles teve como relator o deputado José Mentor (PT-SP). Nele, o nome de Dario Messer é mencionado 276 vezes e apontado como o cabeça central do esquema de doleiros em torno do Banestado.

O relatório se baseou em informações enviadas por autoridades americanas.

Página 180 – menciona as transferências de Messer para o exterior através da Real Cambio, que operava com “autorização especial”  do Banco Araucária, principal instituição do escândalo das contas CC5;

Página 233 – menções a Messer pela diretora de câmbio do Araucária.

Página 327 – a principal operadora externa do caso Banestado, a conta Bacon Hill, da Bacon Hill Service Corporation, da família Anibal Contreras, foi financiada por Messer. A revelação foi do próprio Anibal Contreras. Além disso, Messer controlava as contas Midler e Rigler e participava da Depolo Corporation, empresa com conta no Banco MTB de Nova York, e que recebeu mais de US$ 400 milhões de transferências de contas de diversas agências do Banestado.

Página 340 – identifica os seis doleiros com atuação mais efetiva, entre eles Alberto Youssef, Dario Messer e Toninho Barcelona.

Leia também:  O que é imunidade de rebanho e por que "não se aplica" a Covid-19

Página 342 – aponta Messer como um dos maiores doleiros do país. E diz que seu nome é sempre lembrado quando se trata de contrabando de diamantes e pedras preciosas.

Página 343 – descreve o depoimento de Contreras a autoridades americanas. Diz que ele e Messer foram sócios do Banco Dimensão (de grande envolvimento no Escândalo dos Precatórios). Admite também ter sido financiado por Messer.

Página 345 – reportagem do Jornal do Brasil, de 20/04/2003, sobre o envolvimento de Messer com o escândalo dos fiscais do Rio de Janeiro. A matéria diz que a PF tinha informações sobre contas de Messer nos EUA. Fala de seu envolvimento com o escândalo dos precatórios.

Página 351 – o papel do Banco Dimensão no esquema de doleiros. Depois, seu fechamento e substituição pela FPLM Participações Ltda. Mostra o envolvimento da família no escândalo da Máfia o INSS, no início dos anos 90, que desviou mais de Cr$ 64,8 bilhões.

Página 373 – procuradores da Força Tarefa do Banestado, Vladimir Aras e Carlos Fernando Lima, conseguiram depoimento de ex-gerente do Merchants Bank, na qual ela indica que Messer era sócio de Setton.

“Apesar de ‘Nolasco, ter dito apenas Messer e não Dario Messer, isso não modifica a logica que leva a Dario como líder da maior quadrilha de doleiros do Brasil na última década. Além da historia de Dario e de seu pai, Mordko, publícada pelas colunas ,sociais dos jornais, esta Comissão tem dados que, confrontados com o depoimento de Nolasco, não deixam duvidas quanto a quem é e a importância do papel que, Dario exercia – ou ainda exerce – no esquema criminoso”.

Peça 3 – as suspeitas sobre Figueiredo Bastos

Em 2018 apareceram as primeiras suspeitas sobre Figueiredo Bastos – o mais influente advogado de delações premiadas junto à Lava Jato do Paraná – e procuradores da Lava Jato.

Segundo o doleiro Juca Bala,

Juca Bala contou que em meados de 2005 ou 2006, Enrico, um operador financeiro do esquema comandado por Dario Messer, considerado o doleiro dos doleiros, começou a exigir de Juca e de um sócio uma taxa mensal de US$ 50 mil, a fim de possuir proteção da Polícia Federal e do Ministério Público; que Juca pagava US$ 50 mil por mês, convertidos em reais, hoje cerca de R$ 187 mil, que mandavam entregar em endereços indicados por Enrico; que, além de Juca Bala e do sócio, os doleiros Matalon, Richard Waterloo e outros também pagavam a taxa; que os pagamentos eram destinados a dois advogados de outro doleiro, Clark Setton, o Kiko: Juca disse que os advogados seriam Figueiredo Basto e um outro que não se recordou do nome; que os pagamentos foram feitos de 2005 ou 2006 até 2013.

No início, supôs-se que Figueiredo Bastos tivesse recorrido ao golpe da venda de prestígio. Ou seja, alegaria um relacionamento não profissional inexistente com um procurador, e levantaria mensalmente recursos a título de remunerá-lo.

Leia também:  Manchetes dos jornais dos EUA

Peça 4 – aparece o nome de Januário Paludo

Novembro de 2019 – Durante a Operação Patron, última fase da Lava Jato do Rio, a Polícia Federal do Rio de Janeiro apreendeu o celular de Messer. E localizou mensagens para a namorada, na qual ele afirmava pagar propinas mensais a Januário Paludo, a título de proteção nas investigações a seu respeito. Os diálogos aconteceram em agosto de 2018.

Segundo a reportagem, a mensagem de Messer dizia que “sendo que esse Paludo é destinatário de pelo menos parte da propina paga pelos meninos todo mês.”:

“Segundo a PF, os “meninos” citados por Messer são Claudio Fernando Barbosa de Souza, o Tony, e Vinicius Claret Vieira Barreto, o Juca. Ambos trabalharam com Messer em operações de lavagem de dinheiro investigadas pela Lava Jato do Rio. Depois que foram presos, viraram delatores. Em depoimentos prestados em 2018 à Lava Jato no MPF-RJ (Ministério Público Federal do Rio de Janeiro), Juca e Tony afirmaram ter pago US$ 50 mil (cerca de R$ 200 mil) por mês ao advogado Antonio Figueiredo Basto em troca de proteção a Messer na PF e no Ministério Público”.

Fevereiro de 2020: reportagem da UOL mostrava que procuradores da Lava Jato viram proteção ao doleiro Clark Setton em 2005, e propunham anulação do acordo de delação.

Peça 5 – o que disse o procurador que testemunhou em defesa de Messer

No dia  3 de fevereiro de 2020, reportagem da UOL coloca a peça que faltava no jogo: a informação de que Paludo atuou como testemunha de defesa de Dario Messer, em Ação Penal do Ministério Público Federal, no dia 3 de fevereiro de 2011 – período supostamente abrangido pela mensalidade paga pelos doleiros.

O advogado de Messer era Figueiredo Bastos.

No seu depoimento, Paludo alegou que não foi identificado nenhum envolvimento do doleiro Messer com as contas da Banestado. Paludo informa que não encontrou nenhum indício de ligação entre Messer e o doleiro Clark Setton, “a não ser pelo depoimento de um dos doleiros, que de forma rápida citou até a família Messer”.

No depoimento, desqualifica o relatório da CPMI, pelo fato de não ter sido aprovado de maneira unânime pela comissão.

Confrontado com a reportagem, a assessoria de imprensa do MPF do Paraná respondeu assim:

Testemunhas não estão vinculadas às partes. Quando são apontadas por elas, têm obrigação de depor em juízo e esclarecer a verdade, o que o procurador fez junto com outro procurador e delegado que também foram arrolados e testemunharam. Na ocasião do depoimento prestado, em 2011, o procurador regional da República Januário Paludo limitou-se a relatar os fatos que haviam ocorrido em 2005, da exata forma em que ocorreram. Assim, os fatos referidos no depoimento, ocorridos há 15 anos, já foram devidamente esclarecidos há mais de 9 anos pelo Procurador Regional da República Januário Paludo.

No final do capítulo destinado a Messer, o relatório 2 da CPMI listava 9 indícios de envolvimento dele com o esquema Bacon Hill, nenhum considerado na denúncia final da Força Tarefa:

1) Nome de Dario Messer em agendas de funcionários de Alexandre Martins e Reinaldo Pitta;

Leia também:  GGN Covid Brasil: pequeno recuo na média diária de novos casos

2) Nome de Dario Messer na agenda da Beacon Hill, com seu celular e telefone fixo confirmados pela quebra de sigilo telefônico;

3) O relacionamento estreito da Stream Tour – ou subconta MIDLER – com Dario Messer, via contatos telefônicos diários;

4) A relação entre o ex-Banco Dimensão e o MTB Bank, banco no qual se achavam as contas DEPOLO, KUNDO e SOLID;

5) O volume de transações entre o Dimensão e o MTB, e ao mesmo tempo, a movimentação elevadíssima da offshore Worldtrust com o Banco Dimensão, e da Worldtrust com a DEPOLO, no MTB Bank;

6) O depoimento de ex-funcionário dos empresários Pitta e Martins confirmando que Dario Messer mantinha muitos contatos com os empresários e que fazia a compra e venda de dólares via DEPOLO;

7) O cheque nominal a Dario Messer endossado e creditado na DEPOLO;

8) Relatórios da conta DEPOLO informam que Clark Setton e Mordko Messer participavam de reuniões com gerentes do MTB Bank, sendo que Mordko encontrava-se já com saúde debilitada.

9) Pelo exame dos sigilos bancário e telefônico de Dario Messer e dos empresários Alexandre Martins e Reinaldo Pitta, verifica-se que Dario, Martins e Pitta operam em conjunto. pois ‘Pitta e Martins realizavam pagamentos em reais por meio de seus funcionários (laranjas) a clientes de Dário Messer.

Peça 6 – as investigações sobre Paludo

As informações colocam sob suspeita toda a Lava Jato, já que grande parte dos procuradores atuou no caso Banestado, e suscitam dúvidas consistentes: Paludo agiu sozinho ou contou com a cumplicidade de alguns colegas?

Nota-se que era o mais experiente dos procuradores, com boa ascendência sobre colegas mais jovens, a ponto do grupo do Telegram ser batizado como “filhos de Januário ”. Portanto, pode ter sido uma cooptação individual.

Mas as informações confirmam as suspeitas que o GGN, e outros sites independentes, divulgaram desde 2015, e que foram solenemente ignoradas pela mídia, sobre os  advogados da delação premiada. A blindagem da mídia sobre a Lava Jato era tão formidável que passou aos procuradores a sensação da impunidade perpétua. Ganharam poder absoluto, porque as suspeitas contra eles eram jogadas no caldeirão geral do petismo.

Não há modelo que resista a essa exposição ao poder absoluto.

O caso Paludo poderá ser o doloroso, porém necessário, encontro de contas do MPF com a sua história.

MATE-TI-57369

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora

16 comentários

  1. Correções:
    – tendo movimentado MAUS de US$ 1 bilhão
    – filhos de PALUDO -> filhos de januário

  2. Me diga ..como eu divulgo isso numa rede social que não dá atenção a vídeos maiores que dois minutos ..ou em textos,sem figurinhas, e de mais que dois parágrafos ???
    Entenda, não é uma critica a este seu artigo, mas um pedido de ajuda e reflexão, pois o povão do zapzap, desse jeito, não vai entender essa e outras questões.

  3. Sempre os mesmos: procuradores do paraná, doleiros, desMoronado, antero e rodrigo maia… e a dita grande mérdia que segue colaborando com esse estado apodrecido…

  4. Eu gostaria de saber porque a primeira dama das delações, a catta preta, largou tudo de repente e correu para os lados do tio Sam, ninguém ficou intrigado e foi atrás? Jornalistas quando interessa vão atrás de um pedaço de papel higiênico que o cidadão usou há dez anos, mas em casos contrários se fingem de imbecis que não conseguem fazer o ó com o fundo da garrafa….
    Esse site deve ter mais abrangência, pois é um dos poucos que esmiúça toda a podridão da trolha a jato, até mais que o tal intercept, que talvez o tenha preterido como parceiro justamente por essas qualidades…logo logo virá o xeque mate ….

    15
    • Naldo: penso que por essa meada apontada por você (o da dona CataPreta) se possa chegar ao novelo, inclusive (queira Deus) àquela “cônjuge”, que o escritório era uma autoridade no assunto. Isso, se ela não for “silenciada”, num acidente banal, numa quebrada de Miami. Há precedentes históricos. Vamos torcer para que o pessoal do Intercept possa ajudar no caso.

      3
      1
  5. Os delinquentes da Farsa Jato somente serão julgados e presos com o retorno ao Estado Democrático de Direito. Isso se o Lula não negociar uma conciliação “ampla, geral e irrestrita”, preservando gregos e troianos…

    5
    1
  6. Não eram somente os procuradores que se viam inatingíveis e intocáveis.. há ainda vários elementos da elite que se sentem ainda assim.

  7. hehehe… filhos de Paludo soa meio pejorativo né? hehehe…
    O que se conclui é que o Paludão não recebia propina de qualquer um… só dos maiores.
    O Paludão, quando comentou no Telegran sobre a morte da dona Marisa, decorrente de um aneurisma que se rompeu, disse que se tratava de uma “queima de arquivo”. O que será que ele acha agora sobre a morte do capitão Adriano, amigão do presidente?
    Paludão, Paludão, olha só que coisa inusitada!

  8. Nassif: qualquer que se faça nada estanca essa desgraça. O problema não está em doleiros ou procuradores altamente safados e corruptos. Atacá-los é como bater em rabo de cobra. Enquanto estas verdadeiras quadrilhas estiverem sob o manto sagrado dos VerdeSauvas esta Nação nunca terá esperança de melhoras e progresso (salvo para eles e asseclas). E não me refiro as graduações menores, patentes no braço ou antebraço. A desgraça está nos ombros. São os cabeças, principalmente depois de 15 de novembro de 1889, quando a desgraça de Pindorama foi inaugurada. De lá pra cá, não dá outra. Por isso, ou se corta o mal pela raiz ou esses guardadores de terreno pros donos do Quintal onde moramos darão vivas ao infortúnio de todos nós.

  9. Com todas estas provas passando pelo DoJ americano, decorrente provavelmente de dinheiro lavado em contas americanas, de procuradores (e juiz), se desfaz um importante nó.
    Este foi o motivo (chantagem) que levou a LJ ter trabalhado tão fielmente a serviço dos interesses da cia. E seu viés politico e empresarial tão inusitado até então.
    Lembrando que a globo tem algo parecido com o caso fifa.

  10. Tudo está posto na mesa! Já se sabe de quem subornou, quem foi subornado, toda a patifaria esclarecida e NADA ACONTECE! Dá uma depressão, uma vontade de sumir, de ir para outro país, enfim, não acredito mais em NADA! MPF sustentado pela população e seus membros nos envergonhando e indignando!

  11. + comentários

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome