Movimento 1 – Supremo Tribunal Federal

Os movimentos vão ficando nítidos no Supremo Tribunal Federal.

O presidente Dias Toffoli minimiza possíveis atritos com o setor militar e com a própria Presidência da República. Conclama a união entre os poderes. Chega a minimizar discursos em favor do golpe militar dois dias depois de Bolsonaro receber no Palácio o mais sanguinário dos torturadores da ditadura.

Mas, ao mesmo tempo, coloca os dois inquéritos mais sensíveis nas mãos de Ministros selecionados e trabalhando de forma articulada: anteriormente, o das fake news com Alexandre de Morais, operacional, trazendo como assessores pessoas de confiança da Polícia Civil de São Paulo; agora, o das denúncias de Sérgio Moro a Celso de Mello, o decano mais identificado com o espírito de contenção do Supremo e menos envolvido no festival de intrigas interno.

Mello ressuscitou a autoridade moral perdida do Supremo e levou ao pé da letra e máxima de que todos são iguais perante a lei. Primeiro, acelerou o prazo dos inquéritos. Depois, ordenou a convocação dos militares do Palácio para depor. E incluiu o alerta convencional, que vale para qualquer cidadão: se não comparecerem espontaneamente, serão conduzidos coercitivamente.

Os militares do Palácio chiaram em off, mas nada fizeram em on.

Provavelmente aí deve ter caído a ficha dos Augustos Helenos de que não estão acima da lei.

Movimento 2 – os militares do Palácio

No momento seguinte, reportagens de Brasilia, em off, reproduziam a fábula dos 7 cegos e os elefantes, sustentando que a menção à condução coercitivas irritara “os militares”, por serem confundidos com cidadãos comuns. E isso em um país em que, pouco antes, o Presidente da República mandara demitir o fiscal do IBAMA que o multara por pesca irregular. Ou que a Lava Jato conduziu um ex-presidente, sem que ele tivesse se negado a depor.

A cobertura cega tratou como elefante o que era apenas a presa do bicho. Quem se irritou foi um grupo que poderia ser definido como “os militares do Palácio”. A reunião de sábado passado, com comandantes das Três Forças, desfez de vez a ideia da blindagem militar às loucuras de Bolsonaro.

Cada vez mais os “militares do Palácio” são vistos como grupo que se valeu  do nome das Forças Armadas para invadir o poder civil, usando como legitimação a ideia de manter Bolsonaro sob controle. Quando os Bolsonaros se descontrolaram, permaneceram no cargo e trataram de lutar pelo seu poder de um modo que causaria inveja aos mais pragmáticos representantes da velha política.

Agora, as notícias dão conta de que o bravo general Braga Neto assina documentos colocando na Secretaria da Cultura o maestro que liga rock a satanismo, no Ministério da Educação o político suspeito do centrão. Tornou-se a pessoa incumbida de distribuir o butim do poder entre os piores políticos da República, afetando, com suas atitudes, a própria imagem das Forças Armadas.

Por todas as indicações, o radicalismo de figuras como os generais Augusto Heleno e Luiz Eduardo Ramos parece não ter repercussão nas Forças Armadas propriamente ditas. E o rompimento com Sérgio Moro rachou o apoio que poderia ter na base das Polícias Militares.

Movimento 3 – as vulnerabilidades fatais de Bolsonaro

Pela resistência no Palácio em entregar o vídeo da reunião de Ministros – mencionada por Sérgio Moro em sua denúncia -, aparentemente o ex-juiz acertou na mosca. Não há o menor sinal de que Celso de Mello vá recuar em suas responsabilidades de juiz do caso.

As alegações do Palácio são conflitantes entre si. Enquanto a AGU (Advocacia Geral da União) alega impossibilidade, devido a temas sensíveis tratados na reunião – mesmo argumento dos advogados de Richard Nixon sobre as fitas de Watergate – a Secretaria de Comunicação explica que não sabe com quem ficou o pen drive. Vão ter que entregar. O Celso de Mello tem em suas mãos a bala de prata: exigir da perícia da PF a totalidade das mensagens de WhastApp do celular de Sérgio Moro, e não apenas as que ficaram na memória do aparelho

Assim como seus assessores, os últimos movimentos de Bolsonaro são puro esperneio.

Conseguiu indicar o delegado geral da Polícia Federal. Mas, pelas primeiras informações, trata-se de um delegado profissional, sem vínculos maiores com a família, assim como o novo superintendente do Rio de Janeiro.

Para Bolsonaro, o único resultado positivo foi demonstrar que o Presidente pode nomear o delegado-geral da PF – aliás, prerrogativa que ninguém negou.

Em troca:

  1. Acendeu todos os sinais amarelos da PF em relação a tentativas de interferência nos seus trabalhos.
  2. Chamou a atenção geral para todos os processos e suspeitas envolvendo sua família no Rio de Janeiro.

Nesta 5ª, repetiu os movimentos destrambelhados, arrastado – sem aviso prévio a nenhuma das partes – grupo de empresários para pressionar o STF. Ouviu do presidente Toffoli os conselhos de que a guerra contra o coronavirus têm que se dar de forma coordenada com os estado. Aliás, a maioria dos empresários se protegia com máscaras, incluindo o próprio Bolsonaro.

Movimento 4 – as próximas semanas

Nas duas principais frentes públicas – a saude e a economia – não há a menor chance do governo dar certo.

Na Saúde, o Ministro Nelson Teich é um completo jejuno em gestão. Não conseguiu até agora sequer dominar os temas centrais da operação anti-coronavírus. Ou seja, não comanda e não domina os temas. Tornou-se apenas um porta-voz titubeante de conceitos genéricos de saude pública. Hoje foi divulgada a informação de que técnicos de carreira do Ministério da Saude estão sendo substituídos por militares. Vão conseguir desmontar até a incipiente integração conquistada pelo ex-Ministro Luiz Henrique Mandetta com a máquina da saude, que passa a ser comandada por um general especializado em logística e sem nenhum conhecimento das relações federativas, da rede de saude, dos instrumentos que a máquina pública dispõe.

Do lado da economia, Ministério da Economia e Banco Central continuam com as viseiras ideológicas impedindo qualquer solução prática para a crise. Não conseguem articular políticas eficazes de crédito, continuam presos a dogmas monetários há muito revogados pelos fatos.

Tentam contornar sua profunda incompetência gerencial, e incapacidade de diagnóstico eficaz, no isolamento social, sabendo que – pela experiência internacional, quanto menor o isolamento, maior será o período de pandemia, e mais radical será o segundo tempo de isolamento.

Nas próximas semanas, haverá o ápice das mortes de pessoas, empregos e empresas deixando mais nítidas as responsabilidades de Bolsonaro e sua política genocida.

Movimento 5 – próximos capítulos

Os seguintes movimentos centralizarão as atenções nos próximos dias:

  1. As decisões de Celso Mello, que caminham em direção ao cumprimento estrito da Constituição e das leis. Atenção total a uma possível decisão de ordenar ao departamento técnico da Polícia Federal a perícia total do celular de Sérgio Moro, e não apenas às mensagens dos seus últimos 15 dias de Ministro. Seria a pá de cal no governo.
  2. Os movimentos do Procurador Geral da República Augusto Aras. A rapidez com que encaminhou ao STF a denúncia, mal Sérgio Moro formulou-as, mostra uma preocupação em não incorrer em atos de prevaricação. E, para tal, terá que ser um cumpridor dos pedidos do STF. A prova decisiva será mais à frente se, à luz dos fatos apurados, formulará ou não denúncia contra Bolsonaro. Se persistir a corrosão do poder de Bolsonaro, como nas últimas semanas, vai haver denúncia.
  3. Os movimentos do Congresso. O centrão é limalha de ferro, atraído pelos imãs do poder. Será uma linha de resistência ao impeachment até determinados limites, e obviamente não se deixará arrastar para o fundo do mar com o capitão Nemo-Bolsonaro. Por isso, o ponto central é a disputa jurídico-penal.
  4. Os movimentos internacionais, as condenações dos organismos internacionais e, especialmente, a postura de Donald Trump em relação ao seu discípulo, em um momento em que a imagem de Bolsonaro se tornou internacionalmente o sinônimo do genocida irresponsável.

A esta altura, procuradores de todo o país já devem estar ênfase de colheita dos indícios de malfeitos praticados pela troupe de Bolsonaro, um bando de terraplanistas mal informados.

Encerrada a hora do pesadelo, não haverá como escapar das malhas da lei figuras como o Ministro do Meio Ambiente, da Educação, da Família, da Cidadania, assim como responsáveis diretos pelo genocídio, como Osmar Terra, até chegarem, em um ponto qualquer do futuro, à família Bolsonaro.

 

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