Educar para viver a Democracia e transformar o Mundo, por Sílvia Ester Orrú

Em uma perspectiva de educação democrática, é preciso compreender que a diferença não está somente na outra pessoa. Mas sim, que a diferença é uma qualidade própria da espécie e condição humana.

Educar para viver a Democracia e transformar o Mundo

por Sílvia Ester Orrú

Na história da humanidade, percebemos que a intolerância e a não aceitação da diferença como condição humana, fabricaram barbáries e genocídios pelos territórios afora. Pela diferença, os tiranos justificaram e legitimaram a escravidão de negros, a violência e o estupro de mulheres, a condenação sem julgamento justo, a chacina de crédulos e incrédulos, o holocausto pela raça, a segregação pelo diagnóstico médico, as desigualdades sociais pelo capital, as cruzadas sangrentas em nome de deuses. 

Tolerar as diferenças não é a mesma coisa que compreender e aceitar que todos nós somos diferentes. Tolerar, na cultura brasileira, está mais relacionado a suportar, a se conformar, a se sentir sofrido por ter que se sujeitar a uma situação de tolerância. Em tempos de discurso de ódio no Brasil e por toda parte, e nuvens densas de ameaças totalitaristas, a flexibilidade para tolerar aquilo que incomoda, parece minguar. Se havia na alma algum segredo escondido de repelência à diferença do outro, com o eco dos discursos intransigentes e opressores, as ações excludentes ressurgiram em sua forma de se materializar na sociedade e, desta maneira, têm revelado o quanto a tolerância é vulneravelmente frágil e incapaz de sustentar uma sociedade democrática e inclusiva.

Em uma perspectiva de educação democrática, é preciso compreender que a diferença não está somente na outra pessoa. Mas sim, que a diferença é uma qualidade própria da espécie e condição humana. A diferença, não é a oposição entre uma coisa e outra, entre um ser humano e outro. Todos nós, somos, indiscutivelmente, diferentes. Neste prisma, eu não mais tolero o outro que é diferente de mim, mas eu o re-conheço e o aceito como pessoa, e como tal, eu o compreendo como ser merecedor de respeito e consideração.

Educar não se resume a alfabetizar e disciplinar crianças ao estudo para que se tornem futuros empregados e empresários bem sucedidos. Educar é ação complexa e possibilitadora de transformar o mundo em um lugar melhor para se viver. Educar para transformar o mundo transcende à formação de cabeças bem informadas e moldadas para futuras aprovações em processos seletivos e absorvência pelo mercado de trabalho. 

Educar para transformar o mundo, requer um compromisso de luta contra a des-humanização do ser humano que tem sido promovida pelo ato de oprimir o outro para a produção de riquezas e o estabelecimento de poderes na sociedade, custe o que custar. É sair da zona de conforto do ensino tradicional para investir em potenciais, em diferenças, em multiplicidades na forma de ser e de fazer. É romper com repetição do mesmo, no mesmo e para o mesmo em obediência inquestionável. É educar para a constituição de cidadãos críticos e autônomos que sejam mais éticos e solidários tanto na vida diária como nos palcos do mundo do trabalho. É perceber que não há pessoas com inteligências inferiores, mas sim pessoas com inteligências, capacidades e habilidades diferentes e que pessoas, nunca se repetem.

A coragem de quebrar paradigmas em prol de uma educação libertadora cujos fundamentos principais são o diálogo e a democracia, revela a coragem de favorecer a constituição de cidadãos mais generosos e mais cooperadores entre si. Portanto, cidadãos menos egoístas, menos individualistas, menos excludentes, menos violentos contra as diferenças de seus semelhantes.

Educar para transformar o mundo em um local melhor para se viver se inicia quando educamos a nós mesmos para vivermos a democracia e o respeito às diferenças, às liberdades e direitos sociais para o bem-estar de todas as pessoas.

Sílvia Ester Orrú

Sugestão de leitura: “Educar para transformar o mundo: inovação e diferença por uma educação de todos e para todos”. Ebook de acesso gratuito escrito por professores do Brasil, Chile, Espanha, Itália e Portugalhttp://librum.com.br/educartransformar/info/

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