10 de junho de 2026

A guerra de classes que os ricos estão vencendo, por Bruno Resck

Um assalariado tem a propensão de consumir quase toda sua renda. Por outro lado, quem recebe grandes rendimentos, não consome tudo que ganha
Diego Rivera

A guerra de classes que os ricos estão vencendo

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por Bruno Resck

Imagine uma pessoa qualquer. Ou melhor: imagine alguém com um patrimônio de R$ 220 milhões. Distribuído entre imóveis, veículos, obras de arte, previdência privada, investimentos em paraísos fiscais e aplicações em renda fixa como CDBs, LCI, LCA, CRA, debêntures… Dos R$ 220 milhões, R$ 55 milhões estão aplicados em renda fixa. Renda fixa é uma sopa de letrinhas que, em essência, significa uma promessa: pagar, no mínimo, a rentabilidade da taxa Selic — hoje, uma das mais altas taxas de juros reais entre as grandes economias.

Agora, adicione um novo ingrediente: imagine que essa pessoa já tenha ocupado cargos importantes em grandes bancos até chegar à presidência do Banco Central. O que ela dizia e fazia, portanto, influenciava diretamente o comportamento do mercado financeiro — inclusive os investimentos dela própria, no Brasil e no exterior.

Voltemos aos seus R$ 55 milhões. Com a Selic atualmente em 15% a.a., a taxa básica real é de 9,54%. Sejamos modestos, porém: consideremos uma taxa real de 7% ao ano. Isso representa um rendimento anual de R$ 3,85 milhões. Líquido. Sem esforço, sem produção, sem fornecedores, sem funcionários, sem clientes; apenas por possuir ativos financeiros lastreados em dívida pública. Reparem: nosso personagem nem bilionário é — tampouco dono de banco ou fundo de investimento. Já dizia um velho barbudo: quem tem capital, tem poder político.

Um trabalhador assalariado tem a propensão de consumir quase toda sua renda. Por outro lado, quem recebe grandes rendimentos, não consome tudo que ganha; desta forma, a maior parte, senão a totalidade desse ganho, será reinvestida em novos títulos da dívida do Tesouro – devido à sua liquidez e segurança.

Mas de onde vem o dinheiro que paga o rendimento para nosso personagem? Sai do orçamento público, sendo, portanto, o maior gasto do governo federal – gasto financeiro. Ou seja, sai dos impostos pagos por mim, por você, por toda a sociedade — sobretudo, sobre o consumo, que pesa proporcionalmente mais sobre os mais pobres.

O que os economistas das correntes dominantes fazem, diuturnamente, é focar na contenção dos gastos primários do governo, ou seja, nos gastos que se referem às despesas para prover bens e serviços públicos como saúde, educação e infraestrutura. O gasto primário leva em conta a receita e as despesas, excluindo os gastos financeiros.

Sim, a renda dos ricos, via juros da dívida pública, é sustentada pela tributação regressiva sobre a população. A dívida de um, é a receita de outro. Essa engrenagem de transferência de renda é silenciosa, porém brutal.

E por que a taxa de juros é tão alta? Existe uma frase atribuída à Mark Twain que diz que “quando tudo que se tem é um martelo, todos os problemas começam a se parecer pregos”. Desde a década de 1990, há um domínio ideológico que faz com que o único remédio utilizado para perseguir a meta de inflação seja a política monetária – independentemente da origem do processo inflacionário.

Porém, quem determina a meta de inflação? É o Conselho Monetário Nacional (CMN) – composto pelo Ministro da Fazenda, Ministra do Planejamento e pelo presidente do Banco Central – e operacionalizada pelo Comitê de Política Monetária (Copom). Portanto, existe um alinhamento político e ideológico do CMN ao pensamento econômico neoliberal.

Hoje, a meta de inflação definida pelo CMN é de 3% com intervalo de tolerância de 1,5% para cima ou para baixo. Uma meta historicamente inatingível no Brasil[1], mas cuja manutenção serve como justificativa técnica para manter os juros elevados. A ironia é que essa política vem embalada por uma linguagem hermética e pela crença na neutralidade do Banco Central “independente” – uma espécie de agência reguladora que trabalha para o sistema financeiro. Mas será mesmo que existe neutralidade? É possível haver isenção ideológica em um país profundamente desigual, onde as decisões sobre política monetária beneficiam abertamente os credores da dívida?

Albert Einstein apontava que “quando enunciados matemáticos se referem à realidade, não são exatos. Quando são exatos, não se referem à realidade.” Neste sentido, Erik Reinert[2] critica a forma como a matemática é usada em economia, levando a uma relação introspectiva, apartada da realidade, onde as conclusões decorrem diretamente das premissas. Em outras palavras, os economistas da corrente dominante fazem verdadeiros malabarismos com as premissas econômicas no jogo de poder que mantem pobres as nações pobres A economia, o poder e a ideologia se entrelaçam.

Luiz Gonzaga Belluzzo e Manfred Back[3], ao analisarem os detentores da dívida pública brasileira chamam a atenção para uma profunda contradição: enquanto os economistas do mercado financeiro impõem ao governo uma agenda de austeridade fiscal, alardeando um risco de calote, “as tesourarias se empanturram de dívida pública garantidos pelo Tesouro e pelo Banco Central.” Os autores ainda destacam que em qualquer lugar no mundo, os grandes bancos detêm grandes volumes de títulos públicos na composição de suas carteiras.

Nas últimas quatro décadas, o Brasil tem se tornado um paraíso para os rentistas. Corações e mentes — inclusive da esquerda liberal — foram conquistados pela ideia de responsabilidade fiscal, de ajustes, e de estabilização da dívida como condição para que o mercado privado, finalmente confiante, trocasse os confortáveis juros do Tesouro Nacional pelo investimento produtivo. Conto da carochinha.

Romper com essa engrenagem exigiria mais que decisões internas: trata-se de uma arquitetura institucional e financeira global, desenhada no pós-guerra e consolidada com a financeirização das economias e a hegemonia do dólar. O Brasil não atua isolado — está inserido num sistema que favorece o rentismo internacional, impõe metas fiscais e monetárias e premia o capital especulativo. A autonomia do Banco Central, o Arcabouço Fiscal, as metas de inflação e o livre fluxo de capitais operam como parte de um arranjo funcional aos detentores da dívida, aqui e lá fora.

Como apontou Marx em “A Luta de Classes na França”, a dívida pública surge como um dos instrumentos pelos quais a burguesia recorre para a reprodução do capital e manutenção de seus privilégios. O Estado, nesse arranjo, atua como gerente dos interesses privados do capital. No Brasil, o grande capital sequestra os fundos públicos via juros da dívida, juros subsidiados, concessões, privatizações, isenções fiscais, refinanciamentos generosos e perdões sistemáticos de dívidas.

Como disse Warren Buffett, um dos homens mais ricos do planeta: “Claro que há luta de classes, e é a minha classe, a dos ricos, que está lutando, e estamos vencendo.”

Bruno Resck – Geógrafo – professor no IFMG campus avançado Ponte Nova


[1] Ver: KLIASS, Paulo. A austeridade fiscal estrangula o Brasil. Jornal GGN. 10/06/2025. Disponível em: https://jornalggn.com.br/economia/a-austeridade-fiscal-estrangula-o-brasil-por-paulo-kliass/

[2] REINERT, Erik S. Como os países ricos ficaram ricos… e por que os países pobres continuam pobres. Rio de Janeiro: Contraponto, 2016.

[3] BELLUZZO, Luiz Gonzaga & BACK, Manfred. Os mantras dos economistas. A Terra é redonda. 01/07/2025. Disponível em: https://aterraeredonda.com.br/os-mantras-dos-economistas/

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