21 de maio de 2026

A guerra silenciosa pelos minerais e a oportunidade estratégica do Brasil, por Maria Luiza Falcão

O diferencial chinês está na capacidade de transformar minério em tecnologia, o que escapa a muitos países ricos em recursos naturais.
Reprodução

China detém 44 milhões de toneladas de terras raras; Brasil é segundo com 21 milhões, superando EUA e Índia.
EUA buscam reduzir dependência da China, mas Brasil ainda depende de tecnologia estrangeira para processamento.
Brasil pode ser protagonista global na mineração, mas precisa desenvolver capacidade industrial e tecnológica.

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A guerra silenciosa pelos minerais e a oportunidade estratégica do Brasil

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Por Maria Luiza Falcão Silva

A geopolítica desce ao subsolo

O grande debate que hoje mobiliza Washington não é apenas comercial. Está em disputa o controle da base material da economia do século XXI. Em um mundo cada vez mais eletrificado, digitalizado e tensionado por rivalidades estratégicas, minerais críticos deixaram de ser um tema técnico para se tornar um vetor central de poder.

Durante o século XX, o petróleo estruturou alianças e guerras. Agora, terras raras, lítio, níquel, cobalto e grafite começam a desempenhar papel semelhante. Sem esses insumos não há baterias, semicondutores, inteligência artificial, armamentos sofisticados nem transição energética. Não há, portanto, soberania tecnológica.

A geopolítica, literalmente, desceu ao subsolo.

Quem realmente controla as reservas?

Convém começar por um dado que ajuda a desmontar muitas percepções apressadas: a China é, de fato, a maior detentora de reservas de terras raras do planeta, com cerca de 44 milhões de toneladas — algo próximo de metade do total mundial.

Mas o segundo lugar não pertence aos Estados Unidos. Pertence ao Brasil.

O país reúne aproximadamente 21 milhões de toneladas, o equivalente a cerca de um quarto das reservas globais.

Já os Estados Unidos aparecem muito atrás, com algo em torno de 1,9 milhão de toneladas, atrás inclusive da Índia e da Austrália.

Esse ranking deveria provocar mais debate do que provoca. Porque altera completamente a narrativa tradicional segundo a qual o poder mineral estaria concentrado apenas nas grandes potências.

Na realidade, ele está muito mais distribuído — e isso muda o tabuleiro.

A polêmica inevitável surge aqui:
se o Brasil é uma potência geológica, por que ainda não é uma potência mineral-industrial?

O despertar tardio dos Estados Unidos

A movimentação americana revela uma inquietação estratégica profunda. Após décadas confiando na globalização e na fragmentação produtiva, Washington percebeu que terceirizou etapas industriais decisivas — justamente aquelas que hoje definem autonomia econômica.

A China não apenas expandiu sua mineração. Fez algo muito mais relevante: construiu um ecossistema industrial integrado, dominando refino, processamento químico e transformação tecnológica — precisamente onde se concentra o valor.

Extrair é importante.
Transformar é decisivo.

Ao tentar organizar alianças para reduzir sua dependência, os Estados Unidos sinalizam uma mudança histórica: a globalização baseada exclusivamente na eficiência perde espaço para uma globalização orientada pela segurança.

Nem Guerra Fria, nem alinhamento automático

Apesar da pressão americana, o mundo não demonstra disposição para escolher lados. O comportamento predominante é pragmático: cooperar com Washington sem romper com Pequim. Isso não é ambiguidade. É racionalidade estratégica.

Não caminhamos para uma nova Guerra Fria, mas para uma multipolaridade flexível, na qual países ampliam margens de manobra.

E esse ambiente favorece atores dotados de recursos estratégicos como o Brasil.

Uma vantagem chinesa — mas não absoluta

Reconhecer a liderança chinesa não significa aceitar sua inevitabilidade. Ela resulta de planejamento de longo prazo, política industrial e forte coordenação estatal.

Mas reservas, por si só, não definem hegemonia.

Se definissem, o mapa do poder seria outro.

O verdadeiro diferencial chinês está na capacidade de transformar minério em tecnologia — algo que ainda escapa a muitos países ricos em recursos naturais.

E aqui reside uma advertência importante para o Brasil.

O Brasil entra no tabuleiro — e não como figurante

Poucos países estão tão bem posicionados quanto o Brasil nesta nova geoeconomia. Ser o segundo maior detentor de reservas muda nossa densidade estratégica.

Isso significa algo muito concreto: o Brasil pode sentar-se à mesa com os pesos pesados.

Não como convidado protocolar, mas como ator necessário.

Contudo, há um paradoxo que precisa ser enfrentado com lucidez. Embora tenhamos os recursos, ainda dependemos de tecnologia estrangeira — em muitos casos, chinesa — para etapas críticas do processamento mineral.

Temos a matéria.
Ainda não dominamos plenamente o poder de transformá-la.

Este é o verdadeiro desafio do desenvolvimento brasileiro no século XXI.

Não seremos apenas uma nova fronteira de commodities

Uma coisa precisa ser afirmada sem hesitação: não interessa ao Brasil repetir, no campo das terras raras, o padrão histórico de exportar recursos brutos e importar produtos sofisticados.

Minerais críticos não podem ser tratados como tratamos commodities tradicionais.

O horizonte estratégico deve ser outro:

refinar no Brasil,
industrializar no Brasil,
agregar valor no Brasil.

Caso contrário, correremos o risco de possuir o subsolo — enquanto outros capturam o futuro.

O clube fechado de Washington não nos serve

Também não parece prudente aderir automaticamente a qualquer arranjo concebido como instrumento de contenção geopolítica.

O clube mineral que os Estados Unidos de Donald Trump ensaiam estruturar pode ser funcional para sua segurança econômica — mas não necessariamente para a nossa estratégia de desenvolvimento.

Alinhamentos rígidos costumam reduzir autonomia.

O que nos interessa é uma política externa madura o suficiente para dialogar com todos e depender de ninguém.

Parcerias são bem-vindas.
Subordinação, não.

Quando gigantes competem, surgem oportunidades

A rivalidade entre China e Estados Unidos tende a ampliar o poder de barganha de países que possuem recursos estratégicos.

Momentos de transição na hierarquia global frequentemente produzem esse efeito: as grandes potências passam a disputar acesso, e quem detém os ativos ganha margem de negociação.

Talvez estejamos exatamente nesse tipo de momento histórico.

A questão não é escolher lados.

É escolher interesses.

O teste será diplomático

Nesse contexto, o posicionamento do Itamaraty será observado com lupa. A tradição diplomática brasileira sempre valorizou autonomia, pragmatismo e capacidade de diálogo com múltiplos polos.

Esse pode ser um dos maiores testes dessa tradição.

Transformar recursos naturais em instrumento de desenvolvimento exige coordenação entre política externa, política industrial e estratégia tecnológica.

Não é tarefa simples — mas raramente foi tão necessária.

Uma oportunidade que não aparece duas vezes

Quando uma potência teme depender materialmente de outra, algo profundo está mudando na estrutura do poder global.

A corrida pelos minerais críticos mostra que a globalização está se metamorfoseando: menos ingênua, mais estratégica, mais politizada.

E é justamente nesses momentos de inflexão que surgem oportunidades para países como o Brasil.

O subsolo brasileiro guarda mais do que riqueza mineral.

Guarda uma possibilidade histórica de reposicionamento internacional.

Desta vez, não precisamos pedir lugar à mesa.

Temos peso para ocupá-la.

A pergunta — inevitavelmente incômoda — é outra:

teremos clareza estratégica para agir como protagonistas ou aceitaremos, mais uma vez, um papel secundário em um jogo cujo valor finalmente começamos a compreender?

Maria Luiza Falcão Silva – MSc em Economia (University of Wisconsin–Madison), PhD (Heriot-Watt University), Professora aposentada da Universidade de Brasília (UnB), membro da ABED e do Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC/NEASIA).

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Maria Luiza Falcão Silva

Maria Luiza Falcão Silva – MSc em Economia (University of Wisconsin–Madison), PhD (Heriot-Watt University), Professora aposentada da Universidade de Brasília (UnB), membro da ABED e do Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC/NEASIA).

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  1. Mário Mendonça

    7 de fevereiro de 2026 5:41 pm

    Esqueceu ou omitiu a Missivista que o USA não quer comprar, quer tomar as riquezas da América, afirmando que tudo que possuímos nesse continente é deles! Como vamos evitar a rapinagem, se num passado rescente agimos como lacaios concordando com um famigerado tratado de nunca construirmos artefatos nucleares?

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