A imprensa internacional finalmente começou a prestar mais atenção ao que está ocorrendo em nosso país, por Fábio de O. Ribeiro

Brasil enfrenta uma tempestade perfeita. De um lado a pandemia que cresce vertiginosamente provocando a falência do SUS, de outro um governo determinado a deixar o vírus se espalhar, sofrer mutações e provocar a maior quantidade possível de mortes.

A imprensa internacional finalmente começou a prestar mais atenção ao que está ocorrendo em nosso país

por Fábio de Oliveira Ribeiro

Brazil began vaccinating priority groups, including health care professionals and the elderly, in late January. But the government has failed to secure a large enough number of doses. Wealthier countries have snapped up most of the available supply, while Mr. Bolsonaro has been skeptical both of the disease’s impact, and of vaccines. https://www.nytimes.com/2021/03/03/world/americas/brazil-covid-variant.html

Tradução: O Brasil começou a vacinar grupos prioritários de pessoas, incluindo pessoas que trabalham em hospitais e idosos no fim de janeiro. Mas o governo falhou em garantir um número suficiente de doses. Os países ricos encomendaram a maior quantidade disponível de suprimentos, enquanto o senhor Bolsonaro se mostrava cético em relação ao impacto da doença e a eficácia das vacinas.

Another day, another unwelcome record-breaker, and a big jump it is, too.

However, President Jair Bolsonaro has said very little on the matter. On Wednesday he once again blamed the press for causing panic, arguing that a lockdown wouldn’t work, that people would die of hunger and depression.

https://www.bbc.com/news/world-latin-america-56264425

Tradução: Mais um dia, mais uma indesejada quebra no recorde e um grande salto também. Entretanto, o presidente Jair Bolsonaro disse pouco sobre o assunto. Na segunda-feira ele uma vez mais culpou a imprensa por causar pânico, argumentando que o confinamento da população não funciona, que as pessoas podem morrer de fome e de depressão.

What happens in Brazil does not stay in Brazil. As epidemiologist Miguel Nicolelis of Duke University told The Post, “If Brazil does not control the virus, it will be the largest open laboratory in the world for the virus to mutate.” That is a problem for everyone.

https://www.washingtonpost.com/opinions/global-opinions/brazils-variant-breeding-ground-is-a-threat-to-the-entire-world/2021/03/04/8c3f7a2e-7c4f-11eb-a976-c028a4215c78_story.html

Tradução: O que acontece no Brasil não fica no Brasil. O epidemiologista Miguel Nicolelis, da Universidade Duke, disse ao Washington Post  “Se não controlar a pandemia, o Brasil se transformará no maior laboratório aberto para o vírus sofrer mutações.” Esse é um problema para todo mundo.

Além de combater a pandemia dentro dos seus próprios territórios, diversos países estão prestando muita atenção ao que ocorre no Brasil. A Embaixada dos EUA, por exemplo, não aconselha viagens ao Brasil em decorrência da pandemia.

Do not travel to Brazil due to COVID-19. Exercise increased caution in Brazil due to crime. Some areas have increased risk. Read the entire Travel Advisory.

https://travel.state.gov/content/travel/en/traveladvisories/traveladvisories/brazil-travel-advisory.html

Tradução: Não viaje para o Brasil em decorrência do COVID-19. Exercite uma especial cautela no Brasil em virtude do crime. Houve aumento de risco em algumas áreas. Leia o relatório inteiro de Advertências de Viagem,”

A avalanche de notícias ruins sobre o Brasil e a determinação do governo brasileiro de continuar a sabotar o combate ao vírus legal obrigou a Organização Mundial de Saúde a fazer uma severa advertência ao Brasil https://www.dw.com/pt-br/brasil-precisa-levar-pandemia-a-s%C3%A9rio-diz-oms/a-56790172. Imediatamente o Chanceler de Bolsonaro veio a público minimizar o que foi dito pela OMS. Segundo ele, o aumento do número de mortes é natural. As demonstrações de vassalagem de Ernesto Araújo, porém, dificilmente conseguirão redefinir a imagem que o Brasil está projetando no exterior.

Em meados do ano passado o genocídio dos índios começou a ser objeto de discussão na imprensa europeia https://www.theguardian.com/world/2020/may/03/eve-of-genocide-brazil-urged-save-amazon-tribes-covid-19-sebastiao-salgado. “The Army is associating itself with this genocide” –  essas palavras do Ministro Gilmar Mendes também repercutiram dentro e fora do país https://cjt.ufmg.br/en/2020/07/29/genocide-bolsonaro-and-indigenous-peoples-in-the-covid-19-pandemic/. Bolsonaro chegou a ser acusado de genocídio no Tribunal Penal Internacional tanto por juristas quanto por indígenas https://noticias.uol.com.br/colunas/jamil-chade/2020/12/14/tribunal-internacional-confirma-que-esta-analisando-queixa-contra-bolsonaro.htm.

À medida que a letalidade da pandemia se torna maior e insuportável, a palavra genocídio começa a ser utilizada com mais frequencia no Brasil não só em relação aos índios https://www.uol.com.br/vivabem/noticias/redacao/2020/08/07/medico-ve-genocidio-na-pandemia-e-diz-nao-tinhamos-que-ter-100-mil-mortes.htm. Esse foi, aliás, um dos fundamentos da acusação formulada por mim contra Bolsonaro no STF https://jornalggn.com.br/editoria/cidadania/genocidio-legal-com-o-stf-com-tudo-por-fabio-de-oliveira-ribeiro/.

Superada a barreira dos 250 mil mortos, as acusações políticas contra Bolsonaro se tornaram mais intensas. Tudo indica que o genocídio será um tema importante nas próximas eleições, pois dois pré-candidatos presidenciais fizeram críticas duras à atuação do governo brasileiro. Doria Jr. chamou Bolsonaro de louco https://www.bbc.com/portuguese/brasil-56301541. Fernando Haddad disse que o presidente brasileiro é um serial killer https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2021/03/05/haddad-diz-que-bolsonaro-e-um-frio-serial-killer.htm. Ao invés de rebater essas acusações, Bolsonaro parece tentado a reforçá-las, pois uma parcela do mercado acredita que o assassinato em massa tem repercussões econômicas positivas https://theintercept.com/2020/04/16/banco-central-presidente-coronavirus-economia/.

O isolamento diplomático aumentou, grandes empresas estão deixando o país e as promessas de recuperação econômica  de Paulo Guedes foram todas frustradas. O necroliberalismo está provocando uma catástrofe humanitária e a destruição da economia.

Uma coisa é certa: o Brasil enfrenta uma tempestade perfeita. De um lado a pandemia que cresce vertiginosamente provocando a falência do SUS, de outro um governo determinado a deixar o vírus se espalhar, sofrer mutações e provocar a maior quantidade possível de mortes. Os evangélicos reúnem milhares de pessoas em seus cultos facilitando a explosão da pandemia. Os empresários rejeitam novas restrições às suas atividades. E para piorar, o funcionamento do transporte público facilita a circulação e o aumento do contágio.

O judiciário adota todas as recomendações da OMS em relação aos seus próprios funcionários, mas profere decisões contraditórias quando é provocado pelas autoridades. Evidente, a falta de coordenação central é um complicador. As pessoas proibidas de circular numa cidade onde há confinamento podem se deslocar para aquelas cidades em que nenhuma medida de restrição foi adotada.

Com Bolsonaro na presidência ninguém, dentro e fora do Brasil, estará realmente a salvo. No limite, a insistência dele em dificultar a vacinação da população e a adoção de medidas indispensáveis à redução do contágio podem causar um efeito devastador duradouro na economia brasileira, algo que evidentemente irá comprometer ainda mais a capacidade do Estado de tratar dos doentes, comprar e ministrar vacinas, etc…

A OMS teme que o Brasil se torne um foco regional de irradiação da pandemia. Todavia, me parece evidente que os esforços feitos pelos governantes dos países ricos serão inúteis se o caso brasileiro não for debatido no Conselho de Segurança da ONU.

O genocídio em curso no Brasil pode se espalhar e provocar uma catástrofe planetária. Bolsonaro é um terrorista e precisa ser tratado como um terrorista. O presidente brasileiro parece estar mais preocupado em impedir que os filhos dele sejam condenados pelos crimes que eles eventualmente cometeram.

Até a presente data o Judiciário brasileiro tem sido compreensivo. Todavia, na esfera internacional as próprias autoridades do Sistema de Justiça brasileiro podem ser acusadas de serem co-autoras de genocídio. Crime para o qual a concessão de anistia é muito improvável.

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