A linguagem é a nossa única chance de liberdade, por Gustavo Conde

A massificação do sentido e da produção do sentido nas redes sociais instalou uma nova e mais complexa gramática que não aceita simplificações convencionais.

Arte Beduka

A linguagem é a nossa única chance de liberdade

por Gustavo Conde

A humanidade está em seu momento “fracasso total”. São vacinas que dão errado por imperícia e pressa, é a desorientação social generalizada em função de pandemia, é o racismo explícito seguido de negação explícita de racismo, é a ausência geral e definitiva de lideranças globais, são eleições inconclusas por protocolos eleitorais obsoletos, são genocídios que se multiplicam, é o ataque final ao meio ambiente, a depredação das já precarizadas instituições, a delinquência judicial, o sucateamento dramático da interpretação de texto… É o ‘jornalismo’ – essa palavra surrada – em seu pior e mais degradado momento.

Não são fatos isolados.

E o que une todos eles?

A linguagem.

A linguagem humana chegou ao seu momento de colapso. A massificação do sentido e da produção do sentido nas redes sociais instalou uma nova e mais complexa gramática que não aceita simplificações convencionais.

A língua explodiu.

Ela, ao mesmo tempo, estilhaça e afunila os domínios da fala. Ao mesmo tempo, democratiza e concentra o controle do dizer. É a era dos contrários, das dicotomias, das aporias. Trata-se de um processo novo de experiência do discurso e dos sentidos para o qual a nossa subjetividade historicamente insegura – estruturalmente insegura – ainda não está preparada – e/ou sequer cogita transitar em terreno tão desconhecido: tem medo, repulsa e preguiça.

Bolsonaro e Trump não são um fenômeno: são um sintoma.

A humanidade fetichizou tanto o imaginário em torno de sua extinção e autodestruição, que, agora, se vê paralisada – semanticamente paralisada – diante da destruição do planeta e si própria.

A língua, domesticada séculos a fio, não tem repertório gramatical suficiente para enfrentar o desafio de traduzir seu próprio tempo e colapso. Estamos todos “dopados” diante da devastação do planeta, com pílulas fragilíssimas de resiliência localizada – em geral, movimentos sociais que são esmagados pela polícia, pelos governos e pela imprensa.

O que fazer?

Recorrer à ciência da linguagem é a única saída – aliada a uma explosão das manifestações artísticas. É preciso reinventar a metalinguagem. É preciso perder o medo da ressignificação. É preciso superar as concepções obsoletas de língua e de subjetividade. É preciso ‘desanimalizar’ o ser humano. É preciso desencadear um processo massivo de ressignificação das dimensões simbólicas que, até aqui, regeram o nosso fracasso enquanto civilização, ‘justiça’ e ‘democracia’ à frente.

Essas palavras foram tão violentadas pelas hostes animalizadas da linguagem cativa que agonizam no solo sangrento do espancamento público inconsciente. Não há semântica tradicional que dê jeito. Tais significantes estão rigorosamente condenados, precisam de um recall não apenas simbólico, mas formal e estético.

É daí – desse cansaço gramatical – que advém o fascismo, com seu deboche, com seu ódio e com seu galope brutalizado e triunfal sobre os escombros de corpos e memórias estirados no chão.

A língua humana, a mais humanizada das dimensões, o vetor que nos torna humanos, a condição única de identificação da espécie, já foi negligenciada demais enquanto origem de nossas pulsões de vida e de morte – negligenciar estratégico, correspondente às moendas perpetuadoras de poder, ferramentas sofisticadas mais conhecidas como ‘neoliberalismo’.

A linguagem é a nossa única chance de liberdade. Ela é sinônimo de liberdade.

Que não se fulanize sua delicadeza estrutural, sua dimensão quase mística de significação subjetiva, que não se a simplifique em nome do bom comportamento social, que não se a mate para sobreviver precariamente à violência paralisante dos dessubjetivados, esse amargo efeito colateral semeado pela atividade simbólica.

É na língua que nos re-encontraremos. É na língua que as identidades nos tomarão de volta para um mundo minimamente passível de contemplação e codificação.

É a língua, enquanto protagonista de todo o processo, que responde por nossa possibilidade de futuro.

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