21 de maio de 2026

A Venezuela sob Cerco, por Maria Luiza Falcão

A crise que se desenrola no Caribe expõe, de forma brutal, os limites da soberania latino-americana diante do poder militar dos EUA.
Reprodução TV Globo

A Venezuela sob Cerco

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por Maria Luiza Falcão Silva

The Washington Post noticiou  que um ataque militar dos EUA contra supostos traficantes de drogas no Mar do Caribe matou 11 pessoas na terça-feira (2). A fonte foi o próprio presidente Donald Trump, que alegou que os “narcoterroristas” alvos da operação eram afiliados a uma gangue criminosa que age sob as ordens do presidente venezuelano Nicolás Maduro.

A crise que se desenrola no Caribe expõe, de forma brutal, os limites da soberania latino-americana diante do poder militar dos Estados Unidos. O presidente venezuelano  afirmou na segunda-feira (1) que o país enfrenta “a maior ameaça que nosso continente viu em cem anos”, em referência à escalada naval norte-americana diante de suas águas territoriais.

Não se trata de retórica vazia. O deslocamento de oito navios de guerra com 1.200 mísseis a bordo, além de um submarino nuclear, marca um salto qualitativo na política de “pressão máxima” de Washington. Antes concentrada em sanções financeiras e isolamento diplomático, a estratégia agora assume feição militar explícita, que beira uma provocação de guerra.

O cerco militar e a resistência

Maduro classificou a movimentação como uma ameaça “injustificável e criminosa”. A resposta do governo foi anunciar estado de máxima prontidão e um programa nacional de treinamento civil, com a criação de Unidades de Milícia Comunais de Combate. O gesto tem simbolismo: a defesa da soberania não será apenas tarefa das Forças Armadas, mas um compromisso compartilhado pela sociedade.

O discurso venezuelano se ancora, também, em uma contra-narrativa: enquanto Washington acusa Caracas de cumplicidade com o narcotráfico, o governo afirma ter interceptado grandes carregamentos de drogas e neutralizado centenas de aeronaves utilizadas por organizações criminosas. A disputa pela verdade é parte da guerra híbrida em curso.

O silêncio da região

Talvez o aspecto mais preocupante seja a passividade regional. Onde está a voz da CELAC, da UNASUL, do Mercosul? O silêncio diante de uma ameaça militar em nosso continente soa ensurdecedor. O Brasil, maior país da América do Sul e vizinho da Venezuela corre riscos contra qualquer aventura bélica que comprometa a paz hemisférica.

A presença ostensiva da frota norte-americana às portas da Venezuela não é apenas um problema local: ela reabre feridas históricas da Doutrina Monroe, que sempre tratou a América Latina como quintal dos Estados Unidos. Se a lógica da imposição militar prevalecer em Caracas, nenhum país da região poderá se sentir seguro.

A ameaça em perspectiva histórica

A escalada contra Caracas não é um fato isolado. O século XX já conheceu momentos de extrema tensão: o desembarque norte-americano na Baía dos Porcos em Cuba (1961), a derrubada de governos no Chile (1973) e em várias nações centro-americanas. Ainda assim, a configuração atual tem um diferencial: ocorre em pleno século XXI, em um mundo cada vez mais multipolar, com China, Rússia e BRICS+ disputando espaços de influência. A ameaça militar contra a Venezuela soa, portanto, como um retrocesso anacrônico, uma tentativa de Washington de reafirmar sua supremacia em uma ordem global em desagregação.

Ao longo do século XX, os Estados Unidos apoiaram golpes e regimes autoritários em praticamente toda a América Latina: do Brasil de 1964 ao Chile de Pinochet em 1973, passando pelas ditaduras na Argentina, Uruguai, Bolívia e Paraguai, todas articuladas no marco da Operação Condor; na América Central, a Guatemala foi vítima de um golpe em 1954, a Nicarágua viveu décadas de ditadura dos Somoza sob tutela de Washington, e El Salvador mergulhou em guerra civil com apoio militar norte-americano aos esquadrões da morte. No Caribe, o apoio a Batista em Cuba e a intervenção direta na República Dominicana em 1965 revelam a mesma lógica. A atual pressão sobre a Venezuela, portanto, segue um padrão histórico de intervencionismo destinado a sufocar experiências que escapem ao controle de Washington.

Um chamado à solidariedade latino-americana

Independentemente da avaliação que se faça sobre o governo Maduro, o princípio maior em jogo é a soberania nacional. Permitir que os Estados Unidos imponham seu poder de fogo contra um vizinho abre caminho para novas agressões, enfraquecendo a autodeterminação dos povos latino-americanos.

É hora de os países da região assumirem um papel ativo na defesa da paz, convocando organismos multilaterais e exigindo a retirada da frota norte-americana. A América Latina precisa recuperar a capacidade de falar em uníssono contra o militarismo e a intervenção externa.

Porque, como alertou Maduro, talvez estejamos de fato diante da maior ameaça em cem anos. E não se trata apenas da Venezuela: é o destino de todo o continente que está em jogo.

Maria Luiza Falcão Silva é economista (UFBa), MSc pela Universidade de Wisconsin – Madison; PhD pela Universidade de Heriot-Watt, Escócia. É pesquisadora nas áreas de economia internacional, economia monetária e financeira e desenvolvimento. É membro da ABED. Integra o Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC) do Neasia/UnB. É autora de Modern Exchange-Rate Regimes, Stabilisation Programmes and Co-ordination of Macroeconomic Policies: Recent experiences of selected developing Latin American economies, Ashgate, England/USA. 

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para dicasdepautaggn@gmail.com. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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  1. Carlos

    4 de setembro de 2025 12:57 am

    Venezuela possuí a maior reserva de Petróleo do mundo. Eis o interesse continuado dos eua sobre este país.
    Tráfico, narco terrorismo? Tudo conversa fiada dos eua e não apenas enfiar suas empresas na Venezuela, mas tb para reafirmar que nosso continente é seu quintal e que podem fazer por aqui a cagada que trump quiser.

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