8 de outubro de 2026

A virada é possível?, por Petronio Portella Filho

Tenho esperança porque muitos eleitores não tomaram conhecimento das propostas de Flávio Bolsonaro ou não entenderam o quanto ele é perigoso.
Reprodução

Lula perdeu por 2,2 milhões de votos no 1º turno, com queda na aprovação entre eleitores de baixa renda.
Abstenção e votos nulos somaram 39 milhões em 2026, indicando insatisfação e desconhecimento sobre Flávio Bolsonaro.
Flávio Bolsonaro tem ligações com programa de Javier Milei e vínculos investigados, enquanto Lula precisa focar na base.

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A virada é possível?, por Petronio Portella Filho

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Vejamos. Lula perdeu no primeiro turno por diferença de 2,2 milhões de votos (1,87%). 

Perdeu por falta de votos da base? Sim, sem dúvida. A base de Lula e do PT está nos eleitores que ganham até dois salários mínimos e representam entre 47% e 52% do eleitorado. 

Segundo a último pesquisa Datafolha antes do primeiro turno de 2022 e 2026, a aprovação a Lula diminuiu de 57% para 50% entre os mais pobres. 

Isso significou a perda de 5,4 milhões de votos. Felizmente, desses votos, só 1,5 milhão foram para o Flávio. A maioria dos pobres que não votaram em Lula optaram pela abstenção ou pelo voto nulo ou em branco. Obviamente estou citando estimativas, não boletins eleitorais. 

Algo similar aconteceu com os democratas nos EUA. Eles perderam 6,1 milhões de votos para presidente entre 2020 e 2024. Donald Trump venceu amplamente no colégio eleitoral. Mas no voto popular por diferença foi mínima, 2,3 milhões de votos. Não foi Trump que enfeitiçou os americanos, foi Biden que os induziu à abstenção. 

Na eleição de 4/10/26, a abstenção foi recorde (21%). Se somarmos a ela os votos nulos e em branco, teremos 39 milhões de eleitores (25% do total). Temos, portanto, 39 milhões de eleitores que não votaram nem em Lula nem no Flávio. 

Ainda tenho esperança porque muitos eleitores não tomaram conhecimento das propostas de Flávio Bolsonaro ou não entenderam o quanto ele é perigoso. 

Não sabem que ele declarou que, se vencer, vai submeter à aprovação de Trump sua equipe de governo. A notícia saiu no jornal Valor. Nunca na história do Brasil um presidente fez isso. 

Não sabem que seu programa de governo vai ser baseado no de Javier Milei — que esmagou aposentadorias, pensões e os salários dos funcionários públicos. Milei reduziu os salários reais e aumentou o desemprego, sem estabilizar os preços. No lançamento oficial da candidatura do Flávio, Javier Milei foi a “estrela internacional” convidada a discursar. 

Os eleitores desconhecem ou subestimam os vínculos criminosos dos Bolsonaros e do PL. As investigações do caso Master tinham sido praticamente paralisadas por André Mendonça, ministro nomeado por Jair Bolsonaro. 

Haddad aplicou um programa de “ajustamento fiscal”, algo que quase sempre afeta os mais pobres. Os gastos sociais foram contidos. Tal ajustamento costuma ser impopular.

 Haddad que o diga. Ele baseou sua gestão como prefeito de São Paulo no ajuste fiscal — cortou gastos, renegociou dívidas, encantou os opositores e credores. Mas perdeu a reeleição de goleada no primeiro turno. 

Outro erro foi ter escolhido para o Banco Central um presidente mais altista de juros do que o de Bolsonaro. A gestão Campos Neto custou em média 430 bilhões de juros por ano. A gestão Galípolo, 892 bilhões por ano. O Banco Central do PT jogou a favor da Faria Lima e travou o crescimento econômico. A Selic real média está sendo muito mais alta do que a aplicada no governo anterior. 

Só no apagar das luzes, o governo Lula reajustou o bolsa família (que Haddad havia congelado). Na mesma época, Lula enfrentou a máfia das bets. Duas medidas elogiáveis, porém tardias. O eleitor não percebeu a diferença. 

Reconheço os muitos méritos do governo Lula 3. Lula é democrata, defende nossa soberania, isentou do imposto de renda quem ganha até 5 mil, zerou os impostos sobre produtos de consumo popular. Criou programas sociais que nos tiraram do mapa da fome. Mas talvez os pobres esperassem mais. Eles mostraram sua insatisfação nas urnas. 

A virada é difícil, muito difícil. Mas não é impossível. Desde que Lula, nas próximas semanas, se preocupe mais com a base. E menos com as cobranças de reacionários austericidas que nunca votaram nele, nem o apoiaram. 

Petronio Portella Filho é economista, consultor concursado do Senado Federal, autor de três livros e tem mestrado pela University of Minnesota e doutorado pela Unicamp. 

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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