André Mendonça e a banalização do evangelho
por Eduardo Ramos
Todos temos uma dívida de gratidão eterna com Hannah Arendt pela riqueza de signos que trouxe à palavra “banalidade”, em sua sentença mais famosa sobre o mal.
Porque o que está por trás de seu ensinamento pode ser aplicado em formas paralelas, quando nos deparamos com algo assustador, que nos deprime e nos faz duvidar da realidade ao vê-la tão miserável e inverossímil.
Vivemos tempos em que se tornou comum – “banal”, na verdade… – pessoas se referirem a si próprias como “evangélicas, tementes a Deus” e expressões similares. Estivesse ainda no túmulo do qual saiu, segundo acreditamos nós, os cristãos, e certamente Jesus se reviraria de indignação e revolta ao ouvir tais expressões em algumas bocas de homens não tão evangélicos assim, pela prova mais real de todas: as ações!
Deltan Dallagnol é uma dessas pessoas. Em sua página no Facebook afirma orgulhosamente, entre outras virtudes, seu “temor a Deus”, a quem serviria, inclusive, no exercício de seu trabalho como procurador, ao “combater a corrupção e buscar a justiça” (um milhão de “sics”…).
Agora temos um ministro do STF e sua drástica sentença sobre si mesmo – ser “terrivelmente evangélico!” – e, por um viés não enxergado talvez por Sua Excelência, ele não está de todo errado!
Falando mais uma vez sobre o que comprova nossas virtudes ou características alegadas a nosso próprio respeito, as AÇÕES, e sua coerência com os valores que afirmamos ter, ser e seguir, falta uma explicação – entre tantas outras – ao ministro do STF André Mendonça: PORQUE, NA BUSCA DA VERDADE DOS FATOS E DA JUSTIÇA, JAMAIS PEDIU BUSCA E APREENSÃO DE TODOS OS EQUIPAMENTOS ELETRÔNICOS DE FLÁVIO BOLSONARO, ALÉM DA ÓBVIA E SUPER MAIS QUE NECESSÁRIA QUEBRA DE SEUS SIGILOS BANCÁRIO E TELEFÔNICO???
A incoerência dessa não-ação, dessa omissão, urra contra os princípios do Evangelho do qual o Excelentíssimo Ministro alega ser “terrivelmente seguidor”.
Por muito menos indícios do que uma gravação em que Flávio pede 134 milhões de reais a Vorcaro, o ministro André Mendonça quebrou o sigilo bancário de Lulinha. Por menos indícios ainda do que os existentes contra Flávio Bolsonaro, ordena a busca e apreensão nos endereços de Jaques Wagner.
Ora, não queremos a proteção desse ou daquele, mas há de se exigir de um magistrado coerência de ações, coerência essa extremamente prejudicada ao, aparentemente, blindar Flávio Bolsonaro de ordens legais que com facilidade são emitidas contra seus adversários políticos.
Não soa muito evangélica esse tipo de AÇÃO.
Paro por aqui. Outros articulistas já levantaram outras incoerências e motivos para outros espantos de todos os que desejávamos uma investigação séria, imparcial, que buscasse firmemente a verdade dos fatos e a justiça.
Hoje me agarro a essa pergunta como a PRINCIPAL, A QUE CAUSA MAIS INDIGNAÇÃO nesse imbroglio chamado “Caso do Banco Master”:
ATÉ QUANDO FLÁVIO BOLSONARO SEGUIRÁ BLINDADO DIANTE DE TANTAS EVIDÊNCIAS DE SEU ENVOLVIMENTO NA CORRUPÇÃO DE VORCARO E CIA…?”
A verdade, a justiça, a dignidade presentes nos princípios evangélicos bradam por AÇÕES mais coerentes do Excelentíssimo ministro!
(eduardo ramos)
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.
“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN “
Deixe um comentário