
Argentina, Milei e o Colapso de um Modelo
por Maria Luiza Falcão Silva
A derrota de Javier Milei nas eleições da província de Buenos Aires — a mais populosa e estratégica do país foi mais que um tropeço político: foi um recado claro de que o “experimento libertário” está em rota de colisão com a realidade social argentina. O peronismo venceu por ampla margem, expondo o desgaste de um governo que, em menos de um ano de mandato, já enfrenta crise de governabilidade. Desde então, o Congresso tem derrubado vetos presidenciais que barravam o financiamento das universidades públicas, programas de emergência pediátrica e repasses automáticos às províncias. Não se trata apenas de uma disputa institucional: é o sistema político argentino reafirmando que o pacto social — arduamente construído ao longo do século XX — não pode ser desmontado a toque de caixa.
As ruas falam
As ruas da Argentina voltaram a ser palco de mobilizações massivas. Estudantes, professores, trabalhadores da saúde e sindicatos têm promovido marchas e paralisações, pedindo a reversão dos cortes e defendendo o caráter público e universal de serviços essenciais. Os aposentados, cujas pensões foram corroídas pela inflação e pelas mudanças no cálculo de reajuste, marcham semanalmente em frente ao Congresso, tornando-se o rosto da resistência ao projeto ultraliberal. Em várias ocasiões, enfrentaram repressão policial com gás lacrimogêneo e detenções, um sinal de que o conflito social tende a se aprofundar.
Esses movimentos lembram o “Argentinazo” de 2001, quando políticas de austeridade e a paridade cambial levaram o país ao colapso econômico e político. Hoje, embora o contexto seja diferente — não há uma crise bancária imediata —, o mal-estar social cresce em ritmo acelerado. A promessa de Milei de “dinamitar o sistema” não se converteu em prosperidade; ao contrário, produziu desvalorização do peso, alta dos preços e deterioração dos serviços públicos. O peso argentino amarga frente ao dólar uma desvalorização de 30,05%, num momento em que as outras moedas latino-americanas se valorizam. O real brasileiro, por exemplo, acumula valorização nominal de 16,18% no ano em setembro.
A forte queda do peso reflete a crescente desconfiança dos investidores em relação à condução da política econômica pelo presidente Javier Milei, tão celebrado pelos “mercados” após assumir em 2023.
O fator Trump: inspiração e advertência
É impossível entender Javier Milei sem olhar para Donald Trump — e não apenas ao Trump do mandato anterior, mas ao Trump 2.0, reeleito em 2024, que voltou com força e legitimidade renovada. A vitória nos EUA serviu como um catalisador simbólico para líderes populistas e ultraliberais globais, oferecendo respaldo moral, visibilidade internacional e expectativas de alianças ideológicas.
Milei não apenas expressou publicamente sua admiração por Trump, mas buscou aproximar sua política externa e econômica da nova administração norte-americana. Após a eleição de Trump, Milei intensificou esforços diplomáticos para garantir apoio em torno de empréstimos, investimentos, e reforço de relações com Washington.
Além disso, o retorno de Trump renovou para Milei uma narrativa de “ressurgimento da liberdade” e de “luta contra o establishment”, que se encaixa perfeitamente em seu discurso de ruptura radical com o passado. A vitória de Trump fortaleceu Milei ao mostrar que modelos de governo baseados em polarização, choque ideológico e retórica anti-institucional têm chances de triunfar. Assim, Milei se sente ainda mais compelido a adotar uma versão agressiva do neoliberalismo, potencializando confrontos institucionais, cortes abruptos e rompimentos com práticas políticas anteriores.
Por outro lado, esse vínculo gera riscos novos: as expectativas elevadas quanto àquilo que Trump pode “dar” politicamente, financeiramente ou diplomaticamente para aliados como Milei, podem gerar frustrações se esses benefícios não se concretizarem, expondo mais ainda o governo argentino caso venha a sofrer derrotas internas no Congresso ou a perder apoio nas urnas.
A crise de governabilidade
O conceito de governabilidade não é mero jargão político. Ele expressa a capacidade de um governo de aprovar leis, implementar políticas e manter estabilidade social. Milei, sem uma base sólida no Congresso, depende de alianças voláteis e enfrenta uma oposição que vai do peronismo às forças provinciais. Quando seus vetos são sistematicamente derrubados, ele perde a iniciativa política e o sinal que isso envia aos mercados é de incerteza. Investidores começam a questionar se as reformas prometidas — privatizações, abertura irrestrita ao capital estrangeiro, cortes de subsídios — de fato serão implementadas.
É possível que Milei tente endurecer ainda mais o discurso, apostando na polarização e acusando o Congresso e as províncias de sabotagem. Mas esse caminho tem riscos: pode isolar o governo e provocar uma escalada de protestos que paralisem o país, como já se viu em outros momentos da história argentina.
O neoliberalismo em crise global
A experiência argentina é parte de uma crise maior: a do próprio neoliberalismo. O modelo que emergiu nos anos 1980 com Thatcher e Reagan, baseado em privatizações, desregulação e austeridade fiscal, está sendo contestado em várias partes do mundo. Mesmo em países centrais, há uma guinada para políticas industriais e para o Estado como planejador — basta ver os pacotes de investimento em infraestrutura e transição energética de Joe Biden nos EUA ou os esforços da União Europeia para subsidiar sua indústria verde.
Enquanto isso, a América Latina parece presa a um receituário ultrapassado. Milei é um anacronismo político: propõe aplicar em 2025 medidas que já mostraram seus limites no passado. O resultado é o previsível choque com a realidade social e a aceleração de sua perda de apoio. A Argentina, historicamente laboratório de políticas econômicas, volta a oferecer lições ao mundo: não há ajuste econômico possível se ele destrói a base de sustentação da sociedade.
Um alerta para o continente
A crise de Milei deve servir de alerta para outros países da região. No Brasil, o debate sobre responsabilidade fiscal, teto de gastos e juros altos não pode ignorar o custo social dessas escolhas. Um governo que se afasta de sua base social para agradar exclusivamente ao mercado financeiro corre o risco de abrir espaço para o autoritarismo ou para rupturas institucionais. Na Argentina, o pêndulo da história mostra que períodos de ajuste draconiano costumam ser seguidos por ondas de contestação que varrem presidentes e reorganizam o sistema político.
O futuro próximo
O desfecho dessa crise ainda está em aberto. Há três caminhos possíveis:
- Recalibragem — Milei pode moderar seu programa, negociar com o Congresso e recompor parcialmente o pacto social.
- Escalada de conflito — pode insistir no choque liberal, enfrentando mais protestos, greve geral e talvez uma crise institucional.
- Estagnação — um governo que sobrevive, mas sem capacidade de aprovar reformas nem de recuperar crescimento, entrando em modo defensivo até as próximas eleições.
Seja qual for o caminho, a experiência de Milei é a demonstração de que o neoliberalismo, além de impopular, tornou-se inviável como projeto de governo em sociedades que exigem inclusão, desenvolvimento e justiça social. Buenos Aires pode ter se tornado, mais uma vez, o epicentro de um debate global sobre o papel do Estado, o futuro do capitalismo e os limites da austeridade.
Maria Luiza Falcão Silva é economista (UFBa), MSc pela Universidade de Wisconsin – Madison; PhD pela Universidade de Heriot-Watt, Escócia. É pesquisadora nas áreas de economia internacional, economia monetária e financeira e desenvolvimento. É membro da ABED. Integra o Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC) do Neasia/UnB. É autora de Modern Exchange-Rate Regimes, Stabilisation Programmes and Co-ordination of Macroeconomic Policies: Recent experiences of selected developing Latin American economies, Ashgate, England/USA.
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Anônimo
24 de setembro de 2025 7:42 amExcelente artigo da Maria Luisa Falcão.