21 de maio de 2026

Autobiografia de uma nação?, por Arnaldo Cardoso

Já foi apontado que o vírus do (novo) populismo, que se alastrou pelo mundo como Trump e Bolsonaro, teve em Berlusconi um precursor

Autobiografia de uma nação?

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por Arnaldo Cardoso

A morte no último dia 12 do político e empresário italiano Silvio Berlusconi (1936-2023) tem estimulado análises cujo primeiro desafio é, malgrado os inevitáveis juízos de valor, identificar o alcance e enraizamento de sua influência na cultura geral do país, tendo em perspectiva a longevidade de sua vida pública e as condições especiais – Primeiro-Ministro por quatro vezes e senador, além de dono de um império de comunicação que o tornou um dos homens mais ricos do país – a partir das quais, interveio na realidade, conformando-a.

Alçado ao posto de Primeiro-Ministro da Itália, pela primeira vez, em 1994, época de transformações geopolíticas, políticas, econômicos e tecnológicos de escala global, Berlusconi se fez onipresente na política e na vida social de seu país por décadas, até sua morte, inclusive fazendo escola entre políticos de feição semelhante, além-fronteiras.

Berlusconi investiu por décadas na instalação de uma nova hegemonia cultural liberal no país, na qual, sem pudores, o dinheiro se firmaria como fim em si e, a publicidade como linguagem reduziria o cidadão a consumidor-cliente. Um moralismo hipócrita atenderia às demandas dos conservadores e tradicionalistas que, sem respostas para o presente ou projetos de futuro, encontram refúgio no passado.

A decretação de luto nacional pela premiê Giorgia Meloni (Partido Irmãos da Itália) e sete dias de suspensão de atividades do Parlamento foram medidas incomuns que, harmônicas com o estilo do homenageado, sobrepôs aos protocolos institucionais o culto à pessoa, reforçando a percepção de sua importância.

Autobiografia de uma nação?

A abundância de material jornalístico produzida nos últimos dias pela imprensa escrita italiana e estrangeira e a extravagante cobertura televisiva do funeral de Berlusconi envolvendo dezenove redes nacionais de televisão que lhe dedicaram 73 horas, 38 minutos e 23 segundos, alcançando audiência superior a 8,4 milhões de telespectadores, desafiam até mesmo as novas ferramentas que usam inteligência artificial para produção de textos como o ChatGPT a reunir e combinar essa variedade de informações e interpretações para “contar essa história” com ou sem vieses, uma vez que o Cavaliere (apelido pelo qual era chamado, além do informal “il Berlusca”) despertou os mais variados ânimos.

O jornal La Stampa publicou um editorial com o título “Autobiografia de uma Nação” que assim avaliou o legado do Cavaliere “Ninguém marcou e deformou a história republicana italiana como Berlusconi. Ele conquistou os italianos espelhando suas poucas virtudes e muitos vícios”. Importante lembrar que “autobiografia da nação” foi como o jornalista e ativista político Piero Gobetti (1901-1926) definiu o fascismo.

Paolo Sorrentino, premiado cineasta italiano que em 2018 lançou o filme “Loro” (Eles) retratando a vida de Silvio Berlusconi em seus cinco últimos anos de governo, marcados por escândalos de corrupção, sexo e drogas, enevoados por símbolos de status e poder, já havia sentenciado em uma entrevista durante apresentação do filme no Festival de Cannes, que Berlusconi “é um arquétipo da ‘italianidade’”.

Dos negócios para a política

Tendo iniciado sua vida profissional no final da década de 1960 no setor imobiliário, os projetos com os quais se envolveu já davam sinais de sua visão de sociedade e mundo. O condomínio de apartamentos construído em Milão (Milano 2, o bairro dos ricos), com capital inicial de origem questionada,  que anos depois receberia, pioneiramente, sinais de canal fechado de televisão, através da TeleMilano, empresa fundada por Berlusconi em 1973, pode ser visto como um protótipo de seu projeto para o país. Não esqueçamos que o reality Big Brother foi um dos produtos de sucesso de seus canais de televisão.

Quando em 1978 criou a Fininvest, uma holding de mídia, ele já possuía três canais de televisão. Desde então, um império em formação agregando paulatinamente os canais Canale 5, Italia Uno, Rete 4, Telecinco, La Cinquième e DSF passou a comandar a programação televisiva da Itália, eclipsando a programação mais pedagógica da estatal RAI.

A Itália que viu nos anos 70 sua economia, especialmente a indústria, desmoronar com os impactos mundiais dos dois choques do petróleo, golpeada pela máfia que se alastrava e pela corrupção que desacreditava partidos políticos tradicionais (DC, PSI, PCI) e as instituições do Estado, foi percebida por Berlusconi como terreno de oportunidades para grandes negócios.

Seu espírito empreendedor foi aflorado!

O escritor Giuseppe Fiori que lhe dedicou uma das primeiras biografias em 1995 intitulou-a “Il venditore. Storia di Silvio Berlusconi e della Fininvest”. Sim, um vendedor, especializado em persuadir, seduzir e conquistar.

Uma sociedade desgastada pela dureza do presente, carente de perspectivas, descrente tanto nas propostas da democracia cristã quanto nas das correntes de esquerda, encontrou na estética da programação dos canais de Berlusconi, distração e fuga regadas por uma “leviandade despreocupada”. Programas como Drive In com belas e sensuais garotas, projetavam para uma geração de jovens uma estética que ficou conhecida pela subcultura dos paninaros, jovens burgueses de Milão que cultuavam grifes de moda, viagens e queriam “só curtir a vida sem se preocupar”.

Mais um golpe de mestre de Berlusconi, nesse contexto, foi a compra em 1986 do Milan, um clube de futebol glorioso, mas em crise. A contratação de um técnico disposto e a compra de três talentosos jogadores holandeses alçaram o time ao olimpo e à liderança do futebol italiano por duas décadas. Em 2016, a venda do Milan a um grupo chinês, por US$ 2,5 bilhões, foi logo seguida pela compra em 2018, do Monza, confirmando o acerto do investimento em futebol cujos resultados vão além do financeiro.

Moda, futebol, automóveis de luxo, paisagens exuberantes e o apelo sensual de corpos belos vão compor um estereótipo bem explorado pela indústria da aparência e do entretenimento, em maliciosa parceria com a política, sobrepondo ao cotidiano de crises, uma outra imagem de país.

A política como ostentação e autodefesa

Muito já se repetiu que Berlusconi escolheu a política não por vocação, mas por oportunismo e cínica autodefesa. Ele chegou a criar uma lei para imunidade política, impedindo investigações contra figuras públicas. Posteriormente a lei foi derrubada pelo tribunal constitucional.

Foi a fundação em 1993 do partido político Forza Italia, de caráter personalista, que pavimentou o caminho de Berlusconi ao posto de Primeiro-Ministro, inaugurando a Segunda República.

As promessas de um milhão de empregos e de liberdade e prosperidade para todos não serão cumpridas, mas seu eleitorado crescente se habituará a perdoar-lhe todas as falhas e mentiras.

Berlusconi aprimorou habilidades, como a de uma falsa simpatia, própria dos populistas, que lhe fará contar piadas (quase sempre de mau gosto ou mesmo ofensivas), estabelecer proximidade com o cidadão comum e falar com eles como um igual. O desprezo pela cultura mais elevada e um antiintelectualismo ganharão ares de virtude, numa estranha perversão em que a ignorância e a vulgaridade se firmam como elogiável autenticidade.

Já foi apontado que o vírus do (novo) populismo, que se alastrou pelo mundo na última década com exemplares como Trump e Bolsonaro, teve em Berlusconi um precursor e propagador.

A rejeição dos partidos políticos e “dos que estiveram lá antes”, o Parlamento tratado como lugar de vagabundos, os jornalistas vistos como inimigos (“sem jornais viveríamos melhor” declarou certa vez à Rete 4), o desprezo pelas instituições do Estado e uma pretensa nova moral toscamente apresentada em discursos, bem como a necessária dicotomia “nós e eles” invocando seus fiéis seguidores contra seus adversários precariamente definidos como “os comunistas”, foram algumas das táticas usadas por Berlusconi e repetidas pelos seus similares hoje em campo, na Itália e alhures. Entre seus amigos figuraram Putin e Orbán.

Ególatra, num culto permanente de si mesmo e, vendo-se como um monarca, acima das instituições, das leis, um predestinado e fonte de inspiração, fez de sua mansão na Villa San Martino, em Arcore, sede mítica de seu poder. E foi de lá também que brotaram alguns dos mais estridentes escândalos, envolvendo orgias, drogas e prostituição infantil. Outras propriedades, na Sardenha e em Roma, integraram esse circuito, embaralhando despudoradamente o público e o privado e inaugurando um novo estilo de liderança.

Hedonismo vulgar

A ideia do prazer como sentido para a existência humana, que teve como formuladores os filósofos gregos Aristipo de Cirene e Epicuro de Samos, encontrou um de seus mais competentes vulgarizadores, ao excluir dela qualquer noção ética.

Exibicionista, misógino e machista, expressava alegremente sua percepção do lugar cabido às mulheres. Respondendo às críticas de jornalistas sobre as novelas constantes da programação de seus canais de televisão, em 2009 assim respondeu “Me criticaram tanto pelas novelas, mas mudei a vida de muitas mulheres na Itália, que tinham tardes em que não faziam absolutamente nada”.

Às mulheres, bonitas, como insistia em distinguir, o prazer sexual era visto como uma concessão dos homens, que as usava para seu gozo e reforçar sua autoimagem. Mesmo assim, não era raro encontrar entre mulheres italianas aquelas que diante dos escândalos sexuais envolvendo o Cavaliere, ponderassem:

“E o que há de errado com ele se gosta de mulheres? Ele é um homem!”.

Isso tudo ajuda a compreender o fato de a Itália ser hoje um dos países que lidera na Europa o ranking de feminicídios e diversas violências contra a mulher.

Dirigindo-se aos jovens, prioritariamente homens, em setembro de 2009 transmitiu a seguinte mensagem:

“Os italianos se reconhecem em mim. Sou um deles, sou uma pessoa que foi pobre, que se construiu, se interessa por futebol, ama a vida, ama se divertir, sabe sorrir, ama os outros… e principalmente ama mulheres bonitas, como todos italianos que se prezam”.

Legado a ser desconstruído

Durante seus quase trinta anos na política, Berlusconi fez-se confundir com a própria história de seu país e se ofereceu como espelho à nação, como sugere Paolo Sorrentino em seu já citado filme “Loro” (Eles) ou antes, em seu desencantado “A grande beleza”.

Esse caldo de cultura para o qual contribuiu Berlusconi viu emergir o “V-Day” (Vaffanculo Day) movimento liderado pelo comediante Beppe Grillo e um empresário de tecnologia, autodeclarado antissistema, que dará lugar em 2009 à criação do M5S, o primeiro partido digital.

De lá pra cá, alternando políticos tecnocráticos e populistas no comando do país, a sociedade italiana assiste resignada o processo de derretimento da aprovação popular aos partidos políticos tradicionais, a crescente abstenção dos eleitores em pleitos regionais e nacionais e um sentimento de pessimismo crescente sobre a economia e perspectivas de futuro entre todas as camadas da sociedade, especialmente entre os jovens. Isso foi demonstrado, entre outros, em recente relatório de pesquisa realizada pelo Eurispes – Instituto de Pesquisa da Itália.

Lembro-me do desconforto que senti quando, depois da concessão de uma entrevista em 2016. analisando a derrota do premiê Matteo Renzi em referendo de reforma política, a redação do jornal decidiu dar o título para a matéria “2016, o ano em que a Itália voltou a ser Itália” invocando uma imagem de instabilidade, desconfiança e crise permanente colada ao país.

Berlusconi sempre cultivou essa desconfiança do cidadão em relação ao Estado e suas instituições, capitalizando os resultados disto para o fortalecimento de sua relação pessoal com povo, mais fácil assim de manobrar. O discurso de não-político, de outsider, por mais absurdo que fosse, sempre funcionou.

Se o ativismo judiciário era o mal que Berlusconi se propôs a combater na Itália dos anos 1990, marcada pela operação judicial de combate à corrupção conhecida como “Mãos Limpas”, o que ele deixou em seu lugar não é nada melhor. Corrupção, ramificações mafiosas, populismo penal e descrença da opinião pública no Judiciário e na classe política. Desalento e ceticismo é o seu legado?

A Milão de Berlusconi que foi o nascedouro da Operação Mãos Limpas, com a detenção do engenheiro Mario Chiesa, presidente de uma instituição de saúde pública, em 17 de fevereiro de 1992, por recebimento de uma mala de dinheiro como propina, hoje disputa com o Sul no imaginário popular, o lugar de posto avançado de operações mafiosas.

Foi em Milão que, em janeiro passado, fi preso o mafioso Antonio Saraco, um líder da ‘Ndrangheta, poderosa máfia da Calábria operante em todo o país e com ramificações no mundo inteiro, inclusive no Brasil.

Não é ocioso lembrar que são anteriores (06/11/1989) à chegada de Berlusconi ao comando da Itália, evidências de suas relações com mafiosos. Em 2017 foram reveladas anotações do magistrado Giovanni Falcone, assassinado pela Cosa Nostra em 1992. Lê-se em tais anotações: “[Gaetano] Cinà tem boa relação com Berlusconi. Berlusconi deu 20 milhões [de liras] a [Gaetano] Grado”. E como Primeiro-Ministro, também emergiram denúncias de suas relações com a Cosa Nostra.

Se a morte de Berlusconi deixou um vazio político na Itália, será decisivo para o país a forma e conteúdo com que esse vazio será preenchido. Mais do que uma nova liderança para o seu personalístico partido Forza Itália, será fundamental que os italianos se disponham a refletir sobre as relações entre o público e o privado, sobre responsabilidades do Estado e da sociedade e sobre valores essenciais para a sobrevivência da República, a sociabilidade no país e a construção de futuro.

No momento em que dois notórios admiradores de Berlusconi, os ex-presidentes dos Estados Unidos e do Brasil respondem a processos judiciais em seus países pelas formas com que conduziram seus governos em clara afronta às instituições do Estado e, um terceiro, que comanda despoticamente uma potência nuclear e conduz voluntariosamente uma guerra insana instabilizando todo o globo, o momento vivido pelos italianos se mostra oportuno também à reflexão para outras nações que sofrem de males da mesma natureza.

Da longa e rica tradição da filosofia e do pensamento político italiano, é inspirador invocar as reflexões do filósofo Cícero (106 a.C.- 43 a.C.) sobre a res publica e a exortação que fez aos seus compatriotas, não apenas aos governantes, por uma atividade política virtuosa.

Arnaldo Cardoso, cientista político (PUC-SP), escritor e professor universitário.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para dicasdepauta@jornalggn.com.br. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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