Chaiany, a improvável mais provável
por Dora Nassif
A Chaiany não entrou no Big Brother Brasil apenas como mais uma participante. Ela entrou como espelho. Espelho de um Brasil que acorda cedo, que apanha da vida sem manual de instruções, que aprende a rir no meio do aperto e que segue, mesmo quando tudo parece ter sido cruel demais.
Chaiany é dessas pessoas que iluminam o ambiente sem fazer esforço. Um dia ensolarado no meio de uma semana chuvosa. Um Carnaval em meio à instabilidade política, econômica, emocional. Ela é gentil, engraçada, autêntica. Tem uma doçura que não pede licença para existir, simplesmente existe. E há também coragem nisso. Coragem de ser quem se é num espaço marcado por conflitos internos, disputas e tensões. Talvez por isso, mesmo em um BBB tão atravessado por embates, a gente veja tanta gente sendo gentil com ela.
Há, no entanto, algo que chama atenção.
Com os outros, ela é cuidado. Com ela mesma, é dureza.
Ela se chama de burra. De feia.
Como se repetisse, para dentro, as violências que a vida já fez questão de ensinar por fora.
É o retrato de um país inteiro.
O Brasil também aprendeu a sobreviver sendo duro consigo mesmo. A normalizar a falta. A achar que carinho é luxo, que autoestima é vaidade, que gentileza consigo é fraqueza. A vida bate, o sistema bate, a desigualdade bate e, quando não sobra ninguém para bater, a gente aprende a continuar o trabalho sozinho.
Chaiany carrega marcas que não aparecem na pele, mas aparecem no discurso. Na forma como se diminui. Na maneira como pede desculpa por existir. Como se tivesse aprendido que amor-próprio é algo que sempre vem depois. Depois do trabalho, depois do cuidado com os outros, depois da sobrevivência.
E ainda assim, ela segue sendo doce.
Ser gentil num mundo brutal é coragem. É caráter. É força. Rir quando tudo aperta exige firmeza. Continuar oferecendo afeto quando a vida só devolveu porrada exige uma grandeza que não se aprende em discurso, só na travessia.
Talvez seja por isso que tanta gente se reconhece nela. Porque Chaiany não representa o Brasil idealizado das propagandas. Ela representa o Brasil real, cansado, ferido, mas ainda capaz de acolher. Um país que, apesar de tudo, insiste em ser humano.
E isso não é pouca coisa num país atravessado diariamente por notícias duras. Em meio a relatos de violência, aos inúmeros feminicídios que se acumulam, a histórias que revoltam e cansam, como a do cachorrinho Orelha, Chaiany surge quase como um suspiro. Um raro momento de alívio. Um lembrete de que ainda existe cuidado, empatia e esperança no outro, no ser humano.
O que falta a Chaiany, e a tantos de nós, não é força. É permissão para ser gentil consigo mesma. Para entender que sobreviver já foi muito. Que continuar de pé já é vitória. Que não é preciso se punir para merecer existir.
Quem sabe, ao vê-la, a gente aprenda também a baixar um pouco o chicote interno. A trocar a autocrítica automática por um gesto mínimo de cuidado. A lembrar que, se fomos capazes de atravessar tanta coisa, talvez não sejamos tão burros, nem tão feios, nem tão pequenos quanto aprendemos a acreditar.
Chaiany segue.
E, com ela, segue um Brasil inteiro tentando aprender, ainda que tarde, que também merece descanso, respeito e carinho.
Mas Chaiany não segue sozinha.
Enquanto ela se preocupa lá dentro, sem saber o tamanho do afeto que desperta, aqui fora há um Brasil inteiro apoiando, torcendo e acolhendo. Um Brasil que se reconhece nela. Mais de 1,6 milhão de pessoas já escolheram acompanhá-la, não por estratégia, não por personagem, mas por verdade.
Chaiany talvez ainda não saiba, mas sua vida já começou a mudar. Ela vai conseguir estudar, se formar, realizar seus objetivos. Vai conseguir ser a mãe que sonha ser para a filha. Vai conseguir cuidar dos pais, devolver um pouco de tudo o que a vida exigiu cedo demais. Não por sorte, mas porque autenticidade cria caminhos que nenhum cálculo prevê.
Ela diz que é a mais improvável.
Mas sua autenticidade e sua personalidade fazem dela a mais provável. Pelo menos no Big Brother Brasil. E, para muita gente aqui fora, também.
Chaiany segue. E segue amparada por um Brasil que, dessa vez, escolheu apoiar quem nunca deixou de ser inteira, mesmo quando tudo ao redor tentou quebrá-la.
Dora Nassif – Advogada, Mestra em Direitos Humanos e Doutoranda em Ciências Jurídicas e Políticas pela Universidad Pablo de Olavide, em Sevilla.
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Fábio de Oliveira Ribeiro
29 de janeiro de 2026 8:36 pmNão vejo Big Brother, mas conheço várias pessoas dos dois sexos com essa mesma característica. Isso não é uma fatalidade pessoal, mas uma característica cultural brasileira. O Brasil nasceu moendo gente e continua fazendo isso. Os bem nascidos nas posições de mando moem gente com uma facilidade e uma naturalidade muito grande. Eu mesmo estou sendo moído pelo TJSP, STJ e STF num caso escabroso. Após 30 anos trabalhando numa falência, o meu cliente desapareceu. Pedi o levantamento doa meus honorários e o pedido foi indeferido. Recorri do TJSP e o Agravo foi improvido: o Tribunal entendeu que eu devo juntar procuração atualizada do cliente que não consegui localizar. Rebaixado à condição análoga à de escravo, impetrei HC no STJ para ser libertado da falência em que não consigo nem receber o que é devido nem cumprir uma obrigação impossível criada pelo TJSP. O HC foi negado e eu o renovei no STF, o resultado foi o mesmo. O CNJ nem processou a representação que eu protocolei contra os desembargadores. Meu direito de receber honorários está na Lei, mas isso é irrelevante porque os juízes fazem o que querem e no meu caso me transformaram em escravo cujo trabalho não tem valor ou não precisa ser remunerado. Continuarei brigando, mas essa é uma luta ingrata não porque eu me odeio mas porque o ódio contra as pessoas comuns e os direitos dela é institucionalizado. Os juízes brasileiros moem advogados e sentem um prazer sádico ao fazer isso quando o advogado ousa criticar na petição do Agravo os salários acima do teto e os penduricalhos abaixo da moralidade deles. Quem não renunciaria totalmente à luta e acreditaria que é burro, imprestável e indigno de direitos num contexto como esse?