De Didico a Imperador, de Imperador a Didico: a trajetória de um herói, por Rita Almeida

Este texto foi escrito em janeiro deste ano, após uma entrevista de Adriano-Imperador-Didico dada ao Portal R7. Decidi resgatá-lo aqui por causa da repercussão e dos comentários que li sobre outra entrevista dele na semana passada, desta vez ao Pedro Bial. 

De Didico a Imperador, de Imperador a Didico: a trajetória de um herói

por Rita Almeida

Adriano Leite Ribeiro – jogador de futebol – foi descoberto nas categorias de base do Flamengo, oriundo da comunidade carioca de Vila Cruzeiro, onde era conhecido como Didico. Adriano jogava na posição de centroavante. Fez sucesso por causa de sua força física e presença na área, além do chute forte com a perna esquerda; era canhoto. Aos 18, o atleta já garantia sua vaga na seleção brasileira de futebol. Aos 19 seguiu para carreira internacional na Itália, carreira que o levou ao sucesso e a riqueza e lhe concedeu o título de Imperador (em alusão ao imperador romano Adriano).

Mas a partir de 2004, após a morte do pai que acompanhava e conduzia sua carreira, o domínio do Imperador entra em declínio. A tristeza resultante de tal perda leva Adriano a recorrer ao álcool, fazendo com que sua performance como atleta fique cada vez mais prejudicada. Adriano perde seu espaço no futebol italiano e retorna ao futebol brasileiro, fazendo uma última tentativa no Flamengo, time que o lançou. Mesmo imerso em polêmicas e confusões fora de campo, Adriano foi decisivo para a conquista do título brasileiro para o Flamengo, em 2009, caindo nas graças da torcida rubro-negra. Entretanto, isso não serviu para alavancar a carreira do atleta, é quando Didico toma a cena a fim de continuar seu caminho de retorno às origens e abandona o futebol – ou é abandonado por ele – para ser acolhido novamente na comunidade de Vila Cruzeiro, onde tudo começou.

Em matéria publicada em janeiro deste ano – que, inclusive, me motivou a escrever este texto – o jornalista Cosme Rimoli do Portal R7 entrevista Adriano para tratar da sua trajetória de ascensão e queda. O título da matéria – que é quase um texto inteiro – já aponta para uma questão que incomoda o repórter, e que, na verdade, é o incômodo da maioria de nós. O título é: “A depressão e o alcoolismo fizeram a opção por Adriano. Trocou a fortuna e três Copas do Mundo para viver na favela da Vila Cruzeiro. Se diz feliz, enquanto seus parceiros sonham com um retorno ao futebol. Sonho que Adriano sabe o quanto é irreal…”

As questões que o repórter tenta responder já no título, que o assombram em toda a entrevista e que ele tenta entender/explicar são: Como alguém pode trocar o título de Imperador pelo apelido Didico? Como alguém pode abrir mão de um império na Europa para morar na favela de um país latino-americano? Como alguém pode trocar riqueza e sucesso por pobreza e ostracismo?

Mesmo que Adriano diga durante a entrevista que está feliz e na foto da matéria ele esteja com um enorme sorriso, de braços abertos tendo o morro que o viu nascer ao fundo, o repórter parece não ter ficado satisfeito, talvez, por isso, tenha optado por publicar a foto em preto e branco. Sendo impossível aceitar que Didico possa ter escolhido abrir mão de sua condição de Imperador, Cosme afirma em seu título que “A depressão e o alcoolismo fizeram a opção por Adriano”, ou seja, obviamente que Adriano não participou dessa escolha, foi arrastado, foi apenas vítima da depressão e do álcool. Afinal, como alguém em sã consciência pode trocar a fortuna e três Copas do Mundo para viver na favela da Vila Cruzeiro? O jornalista faz, ainda, uso do termo “Adriano se diz feliz” para falar de como o jogador se sente em sua situação atual. Nas entrelinhas dessa frase o que se lê é: ele diz que está feliz, mas eu duvido que esteja. Além disso, a primeira frase da matéria é: “A cena é chocante, triste.”

Eu não participei da matéria, eu não escutei Adriano e desconheço sua vida atual, mas, a entrevista evidencia que a morte de seu pai faz um marco nesse enredo trágico. Ao falar sobre Seu Almir, Adriano afirma que foi a pessoa que “fez quem ele era”. Depois de sua morte o Imperador se sentiu sozinho e deprimido, recorrendo ao álcool como solução, o que, para sua condição de atleta, ficou insustentável. Ou seja, pode ser que Didico nem tenha escolhido ser Imperador, que tenha sido muito mais uma escolha pelo seu pai e que depois de sua morte, ainda que por vias que nos pareçam torpes e estranhas, Adriano tenha voltado a procurar por quem ele realmente queria ser. Não pretendo fazer nenhuma especulação ou analise edípica, o que quero dizer é que não existem modelos para se sentir feliz, para encontrar paz, para viver bem. Dinheiro, sucesso e fama podem também vir como um estranhamento, com uma sensação de não pertencimento, de desajuste. Quem sabe Didico – apesar do sofrimento que certamente carrega, e que carregaria tanto em Vila Cruzeiro ou em Milão – se sinta em sua comunidade, muito mais acolhido e pertencendo a um lugar? Quem sabe não escolheu mesmo isso: voltar a ser Didico? Quem disse que ser um Imperador também não pode ser insuportável? Quem disse que as baladas da Europa são melhores que os churrascos nas lajes da favela? Quem disse? Que tipo de ideal e norma estão implícitos nessa ordem estabelecida de que o bom é ser Imperador na Europa, tudo regado a dinheiro e fama?

Em entrevista recente publicada no El País a psicanalista Elisabeth Roudinesco afirma que “Freud nos tornou heróis das nossas vidas”, ou seja, a ele coube a tarefa de trazer a novidade de que cada um deve cuidar de contar e protagonizar sua própria história”. Não por acaso, Freud utilizou das tragédias gregas e seus heróis para escrever sobre psicanálise. A tragédia de Édipo, por exemplo, é a mais famosa da teoria freudiana e serviu para ilustrar e fornecer subsídios a Freud quando este decidiu discorrer sobre a tragicidade originária da constituição do sujeito humano. Ou seja, a condição humana é essencialmente trágica. Tomamos aqui o trágico como aquilo que se refere a uma ruptura de um indivíduo com o modelo, o ideal, a ordem estabelecida pela coletividade. O herói trágico é justamente aquele que responde de modo singular, apesar das regras, normas, ordens e ideais.

Nesse sentido, Adriano é, eminentemente, um herói trágico. Aquele que faz sua própria escolha apesar dos modelos, ou pelo menos, ousa assumir as escolhas que fez, mesmo que recheadas de tropeços, sofrimentos e contrassensos. O herói trágico, ao contrário do herói dos filmes modernos, nem sempre alcança o que seria o sucesso aos olhos de todos, mas alcança o direito de traçar seu próprio caminho.

Nietzsche dirá que a história do ocidente moderno é a história da repressão do trágico, ou seja, há cada vez menos espaço para as tragédias que nos fazem humanos. Temos que ser todos ricos, bem sucedidos, perfeitos, lindos, magros, felizes, inteligentes e assim por diante. Não vemos beleza no tropeço, não enxergamos humanidade na tristeza, não gozamos com uma fossa, não aceitamos dias ruins como dias possíveis. Tudo precisa de maquiagem e filtro. É exatamente por isso que heróis como Adriano são tão necessários. Muito mais necessários que os heróis de capa que prometem salvar o mundo.

Retornando a entrevista de Adriano, há uma parte do texto em que o jornalista parece admitir que Adriano tenha feito uma escolha: “Adriano seguiu o destino que escolheu. Está fazendo exatamente o que quer. Trocou seu talento como goleador pelo direito de viver na favela. Cercado de namoradas, amigos, festas, farras, churrascos em lajes. Nem quando era um dos maiores atacantes do mundo fazia distinção entre os parceiros que pertencem ao crime dos evangélicos, dos trabalhadores. Trata todos da mesma maneira.” E porque não poderia ser mesmo uma escolha? Se tratar todos sem distinção for uma condição fundamental para Adriano, ele não poderia ser mesmo Imperador. Apenas Didico pode lhe possibilitar isso.

Assim sendo, desejo que a vida seja leve para nosso herói Didico: negro, favelado e flamenguista. Que ele possa ter a liberdade de escolher seu caminho, mas se algum caminho for traçado pelas contingências do Universo, para além do que ele possa controlar, que ele possa seguir, ainda assim, sendo capaz de narrar sua própria história. E tomara que ele encontre ouvintes melhores, porque, ao que parece, tem muitos amigos que o amam e o querem como parceiro nessa novela chamada vida.

Finalizo com as palavras que nosso herói usou certa vez numa camisa embaixo da oficial, O jogo era Vasco x Flamengo, o ano 2010: “Que Deus perdoe essas pessoas ruins”. Essas pessoas que não entenderam nada dessa vida.

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5 comentários

  1. satisfeito é quem sabe o que quer e vive o que quer

    Já fui um dos que decretava adriano como o “craque com cérebro de ostra, que podia ter o munda nas mãos, mas jogou tudo na lata do lixo por ser irresponsável, talvez burro”.

    Ouvi falar desta entrevista dele. Aparenta estar muito satisfeito e em paz na Vila Cruzeiro. 

    Bem aventurado o humano que sabe o que gosta e precisa e feliz o que consegue viver isto. Se Adriano conhece a si mesmo e esta vida é o que precisa, meus parabéns a ele: nuita gente não sabe do qeu gosta ou precisa, faz aquilo que a tv, a moda, e a propaganda dizem que ele deve gostar.

    Outros, pior ainda, até sabem que gostam de coisas diferentes, unusuais, mas não tem coragem de peitar o senso comum, de ir contra a opinião coletiva. Preferem viver insatisfeitos e incompletos, mas dentro do que o senso comum determinaram como “a imagem perfeita”.

    Torço pra que Adriano, no fundo, seja mais esperto, corajoso e nobre do que todos nós.

  2. Adriano é uma versão carioca

    Adriano é uma versão carioca recente de um idolo palmeirence dos anos 1970.

    Refiro-me a Jorge de Mendonça.

    Jogador habilidoso e inteligente, Jorge de Mendonça se acabou na pinga como Garrrincha.

    Não por acaso todos os três traziam na pele a cor da perseguição racial e da exclusão social.

    A escola não os salvou da pobresa, a bola não poderia salvá-los de um destino compartilhado por milhões de outros brasileiros com características semelhantes: a depressão e o alcoolismo (não necessariamente nesta ordem).

    Heróis trágicos de uma tragédia colonial que começou como Ilha de Velha Cruz, terminará como Brasil neoliberal porque nunca chegou a ser Pindorama. 

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