4 de junho de 2026

De mãos dadas com os sonhos, por Antônio Carlos de Almeida Castro, Kakay

A posse do Lula promoveu significativa melhora na maneira com que os países democráticos e civilizados passaram a nos tratar.
Ricardo Stuckert

De mãos dadas com os sonhos

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

por Antônio Carlos de Almeida Castro, Kakay

Isso de ser exatamente o que se é ainda vai nos levar além.”
Paulo Leminski

Tenho escrito sobre a importância, inclusive simbólica, da pessoa e da postura do Presidente da República, especialmente, em um sistema presidencialista. O Brasil sofreu quatro longos anos com um chefe do Executivo que, não estando à altura do cargo, causava uma permanente insegurança e instabilidade. Interna e externamente. No cenário internacional, o país foi relegado a um constrangedor ostracismo. Viramos párias internacionais.

Um sentimento de constrangimento era inerente à parte mais lúcida do povo brasileiro. Desde a agressão machista que Bolsonaro fez ao Presidente francês até o isolamento, quase humilhante, nas reuniões de chefes de Estado. O ex-presidente Bolsonaro, quando nos representava no exterior, deixava em todos uma sensação de que o Brasil estava fora da ordem mundial. E era impressionante a compaixão que as pessoas demonstravam quando encontravam com a gente fora do país. Sempre com certa perplexidade, éramos interpelados sobre a figura patética e quase grotesca do então presidente.

E, claro, a condução da política, em vários pontos, isolava ainda mais o país, especialmente nas áreas de direitos humanos e meio ambiente. Ver o ex-Presidente do Brasil oferecer a Amazônia ao Al Gore foi de matar qualquer brasileiro de vergonha. Era com uma permanente apreensão que acompanhávamos a representação do país junto aos outros países e organizações internacionais. A sensação de que éramos um povo de quinta categoria aniquilava nossa autoestima.

E, para emoldurar o quadro de terror, tínhamos que acompanhar o dia a dia do então Presidente aqui no país. Sempre com uma postura continuadamente machista, misógina e racista, com um palavreado chulo e com uma opção incontrolável para falar coisas que não eram condizentes com o cargo, inclusive com xingamentos e palavras de baixo calão dirigidas até a ministros de Corte Superior. Foram anos de pânico e de uma tensão constante. Uma lástima.

A posse do Lula promoveu uma mudança radical no cenário. A simples vitória em outubro já deu significativa melhora na maneira com que os países democráticos e civilizados passaram a nos tratar. Em menos de 6 meses, o Brasil voltou a sentar-se de igual para igual com os países líderes do mundo. Sem subserviência, que era a marca de Bolsonaro com o Trump, e sem arrogância. Ver a maneira carinhosa do tratamento do Papa com nosso Presidente, de certa maneira, lavou nossa alma, independentemente da fé que cada um professa. E até o convite do vocalista da banda Coldplay, Chris Martin, para Lula subir ao palco e discursar durante o show em Paris, em frente a Torre Eiffel agora em junho, é um sinal de que os tempos mudaram e os ares civilizatórios voltaram a bafejar.

Como disse Pessoa, na pessoa de Álvaro de Campos, no poema Tabacaria:

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim
todos os sonhos do mundo.”

A ignorância do Bolsonaro era tal que parecia existir uma nuvem densa e espessa que sufocava a todos os que queriam respirar ares democráticos. Era como se vivêssemos em constante sobressalto, pois sabíamos que, a qualquer momento, seríamos surpreendidos com alguma agressão gratuita. Enquanto o país era saqueado por uma condução desastrosa, com o aniquilamento de conquistas em todas as áreas – saúde, economia, educação, cultura e meio ambiente -, tínhamos que conviver com um verdadeiro pateta a arrotar sua desfaçatez orgulhosa.

E é muito bom que possamos voltar a sentir que um governo ideal é o que cuida dos pontos fundamentais sem que o cidadão tenha que ficar em eterno estado de tensão e vigilância. É claro que é essencial, neste momento pós tentativa de golpe institucional, estarmos atentos ao desenrolar do enfrentamento necessário para permitir a punição dos golpistas.

Ainda vivemos um certo rescaldo do dia da infâmia, 8 de janeiro. A pacificação esperada virá com a responsabilização criminal dos que ousaram contra o Estado democrático de direito. As evidências do golpe tentado contra a estabilidade democrática exigem uma resposta pronta e firme para que o país volte aos trilhos. Não há mais quem, de boa-fé, possa duvidar de que tramaram a volta da Ditadura militar e que só não conseguiram impor o terror por absoluta obtusidade do então Presidente da República. Existem grupos que precisam ser enfrentados e responsabilizados, mas a hora da normalidade democrática está próxima.

Sonhamos todos em ver os brasileiros com as pautas naturais de um país estável e livre do ódio e do medo. Voltar a ler poesias ao cair das tardes, a acompanhar com paixão o futebol, a namorar sem medo de ser feliz, a dormir leve sem os sobressaltos dos pesadelos noturnos e a andar de mãos dadas com o pensamento em rigorosamente nada, só andar deixando a vida fluir sem sustos, salvo os inevitáveis e próprios da existência humana.

Quero tornar a ter a leveza da infância no interior e da adolescência numa cidade pequena – eu era feliz e sabia -, mesmo com a natural responsabilidade da maturidade. A consolidação da Democracia permite a volta dos sonhos. E, depois de um tempo em que nuvens estranhas nos impediam de respirar, o brasileiro merece voltar a acreditar que o país, com a estabilidade democrática, nos abraça e nos acolhe.

Como nos ensinou Cecília Meireles, “A vida só é possível reinventada.”

Antônio Carlos de Almeida Castro, Kakay é advogado

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

1 Comentário
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. +almeida

    24 de junho de 2023 11:11 am

    É um orgulho impressionante assistirmos a sabedoria com que Lula, hoje o representante maior do Brasil perante o mundo, através do seu mandato presidencial, usar o poder da sua autoridade, o poder da sua vasta experiência política nacional e internacional, o poder do seu conhecimento sobre as questões e necessidades mais prioritárias para o progresso e o em estar da ordem mundial, entre todas as nações. Ele consegue se desdobrar em mutações do bem,mutações benignas que bombardeiam o mal e o mau, apenas usando idéias, pensamentos, bom senso e um raciocínio positivo para o coletivo mundial. Sem arrogancia, sem agressão, sem medo de dizer verdades e sem receio de tocar em feridas seculares, que sempre foram mantidas em final da fila de atendimento, pelos suposto países ricos. Detentor de uma vocação de liderança, respeito e carisma jamais vista em outros presidentes. Lula parece que nasceu para cumprir um chamado e/ou uma missão, tal imensa, vitoriosas e fabulosa é a sua história de vida e de lutas.
    O Brasil voltou e retomou se assento entre os países que devem liderar a retomada da paz, da ordem e do bem estar social entre os povos do planeta.
    Nós merecemos e o Brasil mais ainda.

Recomendados para você

Recomendados