E pur si muove! Como devem ser tratadas as análises sobre o futuro, por Rogério Maestri 

A especialização na nossa cultura atual leva a soluções extremamente parciais que no fundo não resolvem nada, pois não tem a mínima capacidade de olhar o futuro de todo o conjunto. 

E pur si muove! Como devem ser tratadas as análises sobre o futuro

por Rogério Maestri 

A especialização na nossa cultura atual leva a soluções extremamente parciais que no fundo não resolvem nada, pois não tem a mínima capacidade de olhar o futuro de todo o conjunto.

Especialistas em política nacional comentam o dia ou no máximo a semana política e como se acostumam a somente ver nessa dimensão temporal, conseguem ver no máximo o que pode ocorrer nos próximos trinta dias, especialistas em política internacional ocidental olham o que ocorre nos países capitalistas ocidentais e não levam em conta o que acontece em algo que é muito maior do que a metade do mundo, ecologistas olham o problema ambiental dentro de uma projeção de uma sociedade como a atual, logo não conseguem sair de soluções que envolvam soluções de mercado, cientistas socais especializados nos problemas identitários esquecem que esses devem ser olhados também sob o ponto de vista de uma mudança radical da sociedade, poderia ficar citando páginas que demonstram que especialistas sobre algo não entendem exatamente nada sobre o tudo e talvez esse seja um problema da maioria dos acadêmicos e intelectuais nos dias atuais.

No século XVIII vários “savants” europeus e principalmente franceses pensaram em escrever obras em que todo o conhecimento do mundo pudesse ser escrito em uma só obra que foi denominadas de Encyclopédie, que pretendiam ser uma “dictionnaire raisonné des sciences, des arts et des métiers”, porém o principal objetivo dessas enciclopédias eram de tirar o poder das ordens religiosas no ensino que se restringiam mais a escolástica do que outra coisa, logo os 35 volumes da primeira enciclopédia procuravam desmistificar os preceitos religiosos da época. Após essa primeira grande enciclopédia editada por Jean le Rond d’Alembert e Denis Diderot, dezenas de outras foram tentadas como uma síntese do conhecimento humano, sendo que a última grande enciclopédia que foi editada e com alguma fama foi a Enciclopédia Britânica, que procurava atualizar-se mantendo o livro do ano. Atualmente há a Wikipedia que também tem a mesma pretensão mas desta vez através de meio digital.

Se formos olhar essas enciclopédias, mesmo as de d’Alembert e Diderot cobriam somente uma parte do conhecimento ocidental e praticamente ignoravam todo o conhecimento fora do ocidente assim como o conhecimento dos povos do resto do mundo que foram aos poucos extintos ou simplesmente ignorados. Logo o que podemos dizer é que saber de tudo é simplesmente uma petulância tamanha dos chamados civilizados que atualmente o termo savant é reservado para descrever uma síndrome de pessoas extremamente especializadas em poucas tarefas que conseguem um rendimento dessas completamente excepcional em relação a qualquer outra pessoa.

Como não temos como sintetizar numa só pessoa ou mesmo num grupo organizado de inúmeras pessoas o conhecimento da nossa sociedade como um todo, os especialistas são cada vez mais numerosos e com qualquer desafio novo a frente na imensa parte dos casos eles falham. Um exemplo dessa falha é dado pela atual pandemia, são milhares de especialistas que não conseguem chegar a um consenso sobre aspectos básicos da epidemia, talvez um grupo de especialistas consigam determinar o grau de proteção de uma mascará de determinado tipo, numa dada condição controlada mas não conseguem generalizar para outras condições do tipo: Qual o grau de proteção de uma máscara N95 na praia com um vento da direção da cidade para o mar a 5km por hora? Vão dizer que aumenta a proteção, mas se é 50% ou 95% de proteção não haverá uma resposta correta.

Se fossemos perguntar a um grupo de especialistas em ciências sociais, economia, história e outras ciências, o que ocorrerá com a nossa sociedade daqui a dois anos, provavelmente depois de horas de discussão não sairá uma resposta única ou mesmo um leque de soluções que descrevam o futuro, mas além da incertitude causada pelo desconhecimento de todas as probabilidades das variáveis sociais, econômicas e centenas de outras, há um problema muito mais sério, o costume de se ver o futuro como uma mera composição do presente.

O atual “adivinho” do futuro cai no dilema básico que foi proposto por Galileu Galilei quando ele julgado pelos padres da inquisição teve que se retratar que a Terra não era o centro do Universo, mas depois de se retratar ele parece ter dito “E pur si muove!”, que traduzido seria algo como “no entanto ela se move” (alguns dizem que ele jamais pronunciou essas palavras).

Mas deixando de lado as coisas do passado e retornando ao presente, se alguém quisesse saber qual seria a situação do Brasil em 2022. Quais seriam os problemas?

Poderia relatar vários, desde os mais próximos aos mais distantes, mas nem por isso menos importantes. Primeiro teríamos que saber qual seria a evolução da política nacional, aí começa um imenso ponto de interrogação, tanto das posições futuras do atual governo, que pelo meu juízo nem eles sabem, como as posições da oposição. Por outro lado surge algo mais relevante que poucos levam em conta, a Terra não é o centro do Universo e ela se move constantemente, se move no sentido real e figurado, e o movimento de nossa Terra é como uma passagem magistral (Epílogo, Parte II) de Guerra e Paz onde ele tenta explicar a História através da vontade dos povos, apesar de ter dúvidas sobre o que motiva essa vontade fica claro que os grandes atores são simplesmente aqueles que interpretam a vontade desses, exatamente nas incertezas de Tostoi que parece o grande problema de todos os que pretendem prever o futuro, pois há duas incertezas claras, qual é a vontade dos povos e quem sabe interpreta-las. Marx coloca uma lógica nesse movimento dos povos, baseando-se no materialismo dialético que explica em parte essa vontade em função do desenvolvimento e dos impasses desse desenvolvimento, que leva a necessariamente a contradições entre dominadores e dominados para em um momento os dominados, ou sejam os povos, prevalecerem a sua vontade de mudança.

Diria que estamos numa fase de aceleração desse movimento de mudança, porém qual a velocidade com que ele ocorrerá depende principalmente da vontade dos povos. Não respondi nada da questão, mas que a Terra se move ela se move.

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