Enredo macabro da Escola de Samba Unidos do Serra-Obama, por Armando Coelho Neto

Enredo macabro da Escola de Samba Unidos do Serra-Obama

por Armando Rodrigues Coelho Neto

O  ódio a Lula e ao Partido dos Trabalhadores tinha como característica principal ser inconfessável. Padecia da falta de uma explicação sensata e ou politicamente correta, se é que o ódio comporta esse tipo de explicação. Desse modo, a corrupção institucionalizada, que sempre foi privilégio das classes dominantes, passou a servir de fundamento para que aquilo que não tinha explicação começasse a ter. Aquele sentimento invisível, tão irracional quanto o pretenso asco do Pastor Feliciano contra relação aos homossexuais, encontrou razão de ser.

Os donos do Brasil S/A sempre conviveram de forma cínica com a corrupção, repetindo a bocas miúdas que o país é assim mesmo, que vinha desde os tempos de Pedro Álvares Cabral. Houve até quem tentasse explicar com os relatos sobre a trupe do bispo Dom Pedro Fernandes Sardinha. Dados históricos dão conta de que escandalizado com a corrupção então vigente, aquele religioso reuniu homens de bem para pedir providências ao rei de Portugal. Quando navegava pelas costas do estado das Alagoas, ocorreu um naufrágio. Os honestos que não morreram afogados teriam sido devorados por índios antropófagos que viviam naquela região.

A corrupção no Brasil tem dimensões escabrosas, caráter cínico, viés fulanizado e partidarizado. Mas é fenômeno mundial e está entre as preocupações da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). De há muito, a entidade vem condenando o nefasto entendimento de que a corrupção lubrifica economias. Este GGN veiculou, sob o título “Pra não dizer que não falei do Moro”, texto de nossa autoria, no qual, em passant, lembramos as queixas da OCDE no sentido de que até 1998, apenas 14 países entre seus associados negavam a possibilidade que a propina paga em diversos países fosse deduzida do imposto de renda. Aliás, a Alemanha só em 1999 encerrou essa prática em relação ao Brasil.

A propósito, bom lembrar que não obstante a sua posição no ranking mundial da corrupção, o Brasil, mesmo sem fazer parte oficialmente da OCDE, ganhou o status informal de membro pleno, devido ao esforço interno na implantação de leis contra a corrupção, durante os governos Lula/Dilma. Aliás, em 2007, o Brasil chegou a ser convidado, mas continua fora, entre outras razões, por haver perdoado dívidas de países miseráveis como Haiti, Zâmbia, Congo e Tanzânia, fato proibido pela OCDE. O perdão brasileiro decorre de seu engajamento no Clube de Paris, cujo fundamento é ajudar nações em penúria econômica.

O concreto é que no Brasil, a corrupção vem sendo imposta pelo coronelismo eletrônico como fato novo e fora dos limites. O limite aceito, ao que tudo indica,  seria o dos casos não investigados e ou arquivados. Leia-se, a elite brasileira aceita a corrupção “com limites”. Desse modo, até o suposto combate à corrupção virou fraude no Brasil e a operação Farsa Jato é um emblemático exemplo. Sua principal estrela é um encantador de idiotas, que escancaradamente apelou aos quatros cantos pelo clamor da imprensa. A ela, a estrela, não se pode atribuir que pessoalmente tenha incorrido em crime, propiciando vazamentos seletivos, criando clima de comoção de forma que o leigo em direito aceitasse qualquer ilegalidade. E a omissão e conivência quanto a isso?

A Farsa Jato segue na ilegalidade, na base do prende para investigar. Recentemente, a revista eletrônica Conjur noticiou que o empresário Apolo Santana Vieira seria preso preventivamente, por ordem do juiz Sérgio Moro, que já tinha até expedido o respectivo mandado. Entretanto, seis dias depois, ao saber que o alvo estaria negociando delação premiada, Moro teria reconsiderado seu ato. Ora, a prisão preventiva pressupõe requisitos legais que, uma vez presentes sobrevivem por si. Não se extinguem de uma hora para outra por simples reavaliação de atos. Há sem dúvida algo errado ou suspeito nisso. É como se a simples intenção de delatar extinguisse os pressupostos legais então existentes.

Seria o caso Vieira mais uma prisão necessária? O que se constata é que até mesmo uma repercussão negativa é capaz de exterminar os requisitos de uma prisão temporária ou preventiva. Aconteceu com Guido Mantega, cuja mulher encontrava-se internada para um tratamento de câncer. Instaurada a comoção social diante da sádica prisão, esta foi imediatamente revogada. Ora, a prisão era ou não era necessária? Desse modo, os casos Vieira e Mantega vêm a se somar à tentativa de prisão ilegal de ex-presidente Lula e as sentenças relâmpagos proferidas em menos de três minutos de que se tem notícia.

Os casos como tais conhecidos autorizam a concluir que o prende pra investigar e ou confessar, para espetacularizar ou politizar não é uma crítica gratuita dos advogados de defesa que vêm oficiando no caso.

E pra não dizer que não falei do Rei Momo, estamos num Carnaval de cinzas antecipadas. A Escola de Samba Unidos de Serra-Obama desfila para um júri comprado e viciado; com financiamento obscuro e enredo dissimulado; bateria desafinada e sem harmonia. Sob o canto de um samba atravessado, é visível o desencontro dentre mestre-sala e porta-bandeira, enquanto o presidente da escola é vaiado, e os coitados formigões de pés descalços empurram o carro do abre-alas!

Armando Rodrigues Coelho Neto é jornalista e advogado, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-representante da Interpol em São Paulo

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10 comentários

  1. É isso aí doutor Armando.
    Eu

    É isso aí doutor Armando.

    Eu sempre digo a elite plutocrata dessa fazenda (choça) está aqui roubando e locupletando-se desde 1530, mas jamais admitindo que a peãozada dessa fazenda (choça) se quer saibam o que é feito por eles. Quando um peão desses quis ser o administrador dessa fazenda (choça), correram para acusá-lo do maior ladrão de todos que a fazenda (choça) já teve. E, assim, seus justiceiros e jagunços correram a ameaçar todos que quiseram defender o administrador. 

  2. Abaixo do Equador há, sim, muitooo pecado

    Ai, ai… me chamou atenção os dados históricos citados no artigo: escandalizado com a corrupção, reuniu homens de bem para pedir providências ao rei de Portugal, mas, quando navegava, ocorreu um naufrágio e os honestos que não morreram afogados teriam sido devorados por índios antropófagos. Armando, Armando, o Br não mudou nadinha de nada e as “quebradas” estão sempre ali na esquina..

  3. Se eu fosse Presidente…

    Armando

    Se eu fosse Presidente da República, eu o designaria como Diretor Geral da Polícia Federal.

    Sua missão seria:  expulsar da instituição esses mauricinhos fascistas amarelos e fazer a PF combater o crime respeitando o Estado Democrático de Direito.

     

    • ARMANDO RODRIGUES COELHO NETO futuro Diretor GERAL DA PF!
      Concordo 1000000%, seria uma escolha brilhante, o nosso querido ARMANDO DIRETOR GERAL DA PF, no próximo GOVERNO DO LULA!

  4. O Naufrágio foi culpa do

    O Naufrágio foi culpa do Lula. E os índios canibais eram da tribo dos petralhas. Comeram o Sardinha, que era o Moro da época.

    O interessante é notar que todo o arcabouço jurídico vingente no Brasil, que foi sendo urdido com indas e vindas, até hoje, dando no conjunto estabelecido, que é ensinado em todas as escolas de direito, foi desfeito em apenas alguns anos. Os da vingência da lava a jato.

    Nada que se ensina hoje como se fosse lei a ser observado por todos, tem a segurança de que é assim mesmo. Tudo agora ficou no “vale ou não vale”? 

    Então pergunto a todos os senhores e senhores respeitados operadores do direito. O currículo das faculdades de direito será reescrito, adaptado à “era Moro”? Em não sendo, o estudante estará lá a aprender tipo assim, algo que não se usa? Além do latim usado aqui e ali, o conteúdo em si, também caiu em desuso?

    Para voces está tudo bem que tudo o que aprenderam, ensinaram, juraram respeitar e dedicaram a vida, não vale mais porcaria nenhuma?  Tudo em nome do antipetismo tresloucado da classe média coxinha (falso)moralista representado à perfeirção pelo Moro.

    Creio que em algum momento, os senhores e senhoras terão que se posicionar a respeito. Vão ficar com a cabeça de avestruz enfiado na terra até quando?

    PS: Honrosas exeções para o autor do post, Aragão, Bandeira de Melo, Comparato e etc. Infelizmente quase todos aposentados. Os na ativa estão num silêncio ensurdecedor

     

  5. Donos do Brasil SA – Perfeito!

    A ideologia destes pretensos donos do Brasil interpreta o certo e o errado não em relação à natureza dos atos mas em relação a quem tais atos beneficiam.

    Certo é o que favorece aos donos. O mesmo ato que é certo para os donos é errado para os serviçais, nós outros humildes mortais.

    Os donos sempre acham que as vantagens indevidas, apenas perante o texto optativo da Lei, que pagam ou que recebem são custos inerentes ao nosso atraso e não podem fazer nada, a não ser cobrar tais custos nos preços pagos pelos consumidores de seus negócios. Portanto, não pagam corrupção alguma. Ao final e ao cabo, os corruptores acabamos sendo nós, os consumidores. Pensem bem nisto. O poder deve estar na nossa mão, ao menos quando formos capazes de refugar o repasse de custos imorais nos preços que pagamos.

    Não surte nenhum efeito exigir dos donos coerência e isonomia perante a lei. Da forma como pensam, eles estão totalmente amparados pela lei que lhes importa: a lei do mais dono.

  6. Ainda acho que um dos nossos

    Ainda acho que um dos nossos maiores problemas é se “definir o que venha a ser corrupção”  ..tem muito poeta pensando que o mundo dos negócios vive de “da licencinha faz favor”

    – patrocinar partidos e/ou homens públicos – e DECLARAR – é corrupção ?

    – pagar pra agentes, ou explorar canais existentes, pra se obter informações que facilitem a viabilização dos seus negócios LÌCITOS é corupção ?

    – reservar parte dos seus negócios, não só a vendendores e lobistas, como a partidos afinados com seus projetos. idéias e/ou interesses, é corrupção ?

    – e se o seu arrojo trouxer benefícios paupáveis ao país e a sociedade, é corrupção ? Que fins justificariam os meios por exemplo ?

    Todos sabemos que o BRASIL insiste em se parecer novato e virgem nos negócios  ..faz questão de hipocritamente confundir “toma lá da cá” lícitos e/ou lobby necessários com algo desleal..

     ..com o desenvolvimento de praticas direcionadas, formação de cartéis, atividades camulfladas, FRAUDADAS, que prejudicam o Estado ou a Sociedade por exemplo  ..e não que estas ilicitudes não existam  ..mas todos sabemos que a gerneralização indistinta, como ocorre hoje,  ESTA SIM condenando também praticas válidas pra um mundo capitalista que BUSCA SIM fazer sobreviver os mais aptos e preparados para a concorrência

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