Feliz genocídio novo, por Gustavo Conde

Até os maiores covardes deste país - os jornalistas e colunistas da imprensa familiar tradicional - estão tentando tomar posições, ainda que de maneira constrangedora.

Foto: Isac Nóbrega/PR/Flickr

Feliz genocídio novo, por Gustavo Conde

Acordaram bem? Cheios de esperança? Ressaca? Ressaca cheia de esperança?

Lamento – ou celebro – dizer o seguinte: preparem-se.

Quem não tomar posição política consistente e pública em 2021 será tragado pela mediocridade.

Até os maiores covardes deste país – os jornalistas e colunistas da imprensa familiar tradicional – estão tentando tomar posições, ainda que de maneira constrangedora.

Ver Nelson Motta e William Waack, dois analfabetos políticos, falando de centrão e de Bolsonaro, é de embrulhar o estômago.

Mas eles estão ao sabor do vento – e o vento exige tomada de posição.

Diante da letargia pública, do trauma, do espanto de assistir a democracia morrer como quem assiste a um filme, a história per si vai ‘tomando’ a linha de frente das ações.

Quem faz a história são os sujeitos, diria o nosso querido Karl, mas devo dizer que, ao sabor da inépcia dos sujeitos de turno, a história agirá sozinha.

Como pouquíssima gente nesse mundo consegue sair da pistolagem coletiva das lacrações e liçõezinhas vagabundas de moral, o rearranjo discursivo-ideológico será feito à nossa revelia.

Em outras palavras: a inconsistência dos discursos, a fragilidade da comunicação pública e a precariedade da informação global constituíram um sujeito histórico tão fraco, mas tão fraco, que a memória coletiva dos sujeitos do passado – mais fortes e mais atuantes (e que devem se envergonhar de todos nós das profundezas de suas tumbas e valas coletivas) – dá pistas de que tomará o protagonismo para tirar a humanidade desta fraude neoliberal regada a nazismo e a desinformação.

O eco subjetivo do passado é mais atuante que a inépcia coletiva do presente.

Quando vejo pessoas ‘comemorando’ o “ano novo” me vem esse sentimento terrível de desterro, de não pertencer a essa lógica – consumista, facilitada, egocêntrica – de ostentar o vazio.

Isso sempre esteve claro a quem costumava pôr os neurônios para trabalhar nas horas vagas. Mas também sempre as concessões lhe foram abertas e generosas: “deixe eles brincarem”, “deixe eles se divertirem”.

Infelizmente, o mundo mudou drasticamente nos últimos 5 anos, sobretudo para nós, brasileiros. E quando o mundo muda, mudam os sentidos das palavras, mudam os contextos, mudam os sujeitos, mudam as identificações.

Quando vemos milhares de jovens de classe média se amontoando em festas organizadas em locais chiques e caros pelo país, estamos apenas vendo o prolongamento de nossa ingenuidade em levar a sério celebrações envelhecidas que só servem – a rigor e para quem tem ainda alguma cifra de alteridade no peito – para fazer a manutenção do horror que se alastra pelo mundo a partir dos “primeiros de janeiro”.

O ano novo é neoliberal.

Poderíamos ficar sem essa, reconheço. Fazer vista grossa à realidade que nos esmaga faz parte de nossa economia psíquica.

Mas habitar essa ferida gigantesca que é nossa infame contemporaneidade exige uma atitude menos passiva diante das convenções cansativas de um mundo em decomposição simbólica.

O ano novo deveria ser um momento para novas significações, não para as significações de sempre. O voto mais condizente com nossa capacidade de desejar o sentido seria: por um ano com novos e insubmissos processos de significação.

A história espera ansiosa por novos sentidos para as palavras ‘democracia’, ‘esquerda’, ‘soberania’, ‘meio ambiente’, ‘política’, ‘socialismo’.

Não sejamos prepotentes: os sentidos destas palavras apodreceu. Estamos todos perdidos buscando nos equilibrar em um novo discurso que jamais virá se não operarmos um processo robusto e técnico de significação dos conceitos e das palavras.

O mundo precisa de um recall de significação.

Celebrar um fechamento de ciclo para a abertura de um outro teria obrigatoriamente por conceber essa renovação estrutural, não o besteirol das renovações superficiais, cínicas, repletas de autoviolência subjetiva (sabemos que nos enganamos e gostamos).

O próprio ‘cinismo’ e a própria ‘hipocrisia’ estão defasados semanticamente. Porque – não sejamos hipócritas – eles também são essenciais para nossa atividade psíquica e social.

Mas o dilema é que chegamos a um ponto de inflexão que não será operado por nós.

A célebre frase de Augusto Comte nunca foi tão verdadeira: “os vivos são sempre, e cada vez mais, governados pelos mortos; tal é a lei fundamental da ordem humana”.

E antes que alguém pense que terminarei minha pensata com uma evocação positivista, alerto que irei me apropriar da frase, ao invés de apenas citá-la como intelectuais de necrotério.

Os mortos poderão nos governar e tirar dessa catástrofe política porque os vivos (nós todos) estamos mais mortos que os próprios mortos.

Quem subestima um vírus letal com seu egocentrismo e brinca com a vida humana celebrando a si próprio com celular em punho na cafonice das aglomerações, só pode já estar morto.

E antes que os mortos protestem por esta comparação impiedosa, antecipo: é apenas o bom e velho jogo de significações para ver se os falsos vivos ressuscitam.

Desejar “feliz ano novo” para quem tem o que comer, onde morar e, certamente, terá direito a uma vacina anti covid, é automático e, em um certo sentido, “tragável.”

Um desejo digno de seu tempo, no entanto – e emprestando a vivacidade guerrilheira dos mortos -, seria: feliz significação nova.

É isso que o sistema mais teme: novas significações.

Tentemos, ao menos, assustar o sistema neoliberal e colaborar com a história social na consagração da repulsa a Bolsonaro, à Globo, ao machismo, ao racismo, ao genocídio e às facilitações dos ratos de imprensa que correm para se agarrar aos troncos argumentativos que deixamos pelos escombros náufragos que também acostumamos a chamar de “opinião pública”.

Ano novo, significação nova – e insubmissão eterna, se possível.

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